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Li numa reportagem que recentemente a exibição de alguns trechos do filme O Hobbit causou bastante estranhamento no público que os assistiu. O diretor Peter Jackson filmou a película em 48 quadros por segundo em vez dos tradicionais 24, recurso que proporcionou altíssima definição e extrema nitidez às imagens capturadas. Tudo parecia tão real que era como se a platéia estivesse presenciando um teatro ao vivo em vez de um filme. Críticos relataram que nas cenas de ação, por exemplo, onde a movimentação é rápida, não haviam borrões ou figuras indefinidas, era tudo nítido ao extremo.

Será que a falta de borrões nos movimentos rápidos relatada pelos críticos pode ter alterado a percepção do público a respeito da velocidade com que as coisas aconteciam na tela? Teria exigido que o público deixasse de lado certas convenções de representação de movimentação rápida a que estava acostumado, propondo outro tipo de representação?

Faz sentido. Quando imagino, ou melhor, ilustro algo se movendo rápido, sempre uso o recurso de borrar o elemento que se move, ou, fazendo uso de um recurso bastante utilizado em mangás, inverto a abordagem, deixando estanque o elemento que está se movendo (e que desejo destacar) e borro totalmente o que está atrás, representado apenas por riscos ou sombras riscadas.

Este diálogo dos códigos de representação da imagem e a evolução tecnológica, por sinal, não é de hoje.

A invenção dos tubos de tinta, por exemplo, permitiu a armazenagem destas por longo período e isso, junto com os cavaletes portáteis, facilitou bastante viagens artísticas que pintores como Charles Daubigny (1817-1878), paisagista francês que foi um dos expoentes da pintura ao ar livre e grande influenciador do movimento Impressionista, faziam aos lugares que desejavam estudar ou retratar.

Antes, os pintores compravam os pigmentos e fabricavam suas próprias tintas, armazenando-as em bexigas feitas de pele de animais, que não deviam ser nada práticas e nem fáceis de se transportar, além de conservar os produtos por pouco tempo.

Claude Monet (1840-1926), compatriota de Daubigny, teria pintado a série de imagens da Catedral de Rouen, no local, em vários horários e pontos de vista diferentes, sem os tubos de tinta? Acredito que sim. Mas o fato é que a tecnologia ajudou bastante.

Mas que em algum momento um desses pintores que participaram desta transição, em que o prático, mesmo sem querer, foi colocado em oposição à tradição (assim como hoje assistimos às dramáticas discussões a respeito do livro impresso x digital), deve ter reclamado que aquelas novas tintas não eram tão boas como as de antigamente, ou que os pigmentos artificiais não traziam tonalidades tão vibrantes, vivas ou consistentes, ah, isso deve!

Antes de aderir ao computador, eu criava minhas imagens com caneta nanquim sobre papel Schoeller e colorizava com aquarela líquida.

Mais recentemente, por força de fatores externos à arte de ilustrar, como prazos apertados, ou mesmo opção de estilo de acabamento solicitado pelo cliente, andei produzindo as imagens totalmente no computador, do esboço à arte-final.

A diferença entre os dois processos que mais me chama a atenção é a definição do traço do desenho e a saturação da cor da ilustração reproduzida no impresso.

Nas reproduções impressas das imagens criadas a mão, é possível identificar a porosidade da superfície do papel, a leve inconsistência da cor do traço, com suas minúsculas falhas resultantes do atrito da ponta da caneta Staedler MarsMatic que eu usava, as discretas manchas da aquarela líquida que eu não conseguia disfarçar em grandes áreas de cor que se pretendiam chapadas e pequenos pontos de sujeira, alguns minúsculos respingos que escapavam do pincel aqui e ali. Todas essas coisas acabaram incorporadas ao meu estilo da época.

Nas imagens criadas no computador, identifico assepsia absoluta e uma definição muito mais eficiente do traço, além de uma saturação muito mais viva, por ser produzida diretamente na máquina, colorizada dentro de parâmetros de separação de cores e composição de reticula de impressão muito mais precisos e de acordo com os processos industriais (visto que meu trabalho justifica-se dentro de uma indústria).

Minha reflexão não surgiu da dúvida se este ou aquele modelo é melhor ou pior. Ambos são válidos e bonitos. Foi mais no sentido das características que acabamos assumindo como parte do nosso trabalho, na sintaxe da nossa linguagem imagética, e que às vezes são provenientes da tecnologia que usamos.

Nas minhas ilustrações mais atuais, voltei a usar recursos criados em papel, misturando-os com tratamentos e elementos feitos no computador, numa tentativa de resgatar aquelas texturas e inconsistências que tanto me deliciavam não só nos meus trabalhos, mas, em especial, em trabalhos de artistas que tanto fizeram minha cabeça e que serviram de norte na busca do meu estilo.

Ou seja, assim como os críticos que assistiram aos 10 minutos de O Hobbit e estranharam a falta dos borrões (ou sentiram saudade deles, vai saber), também me peguei apaixonado pelas supostas imperfeições inerentes ao meu estilo pré-computador – manchas, respingos, pequenas áreas com preenchimento inconsistente, etc. – que acabaram por se tornar elementos identificadores e definidores da minha ilustração. Mesmo sendo possível reproduzir todas essas imperfeições dentro do computador, ainda assim, o método antigo tem um sabor mais quente, fresco, melhor.

Queridas imperfeições…

 

Ilustração produzida em meados dos anos 1990. Nas reproduções impressas, as nuanças da produção em papel, que aqui são melhor observadas no detalhe ampliado, podem ser vistas a olho nú.

 

Ilustração da minha safra atual, em que busco resgatar características inerentes à minha produção pré-computador.

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Fábio Sgroi é ilustrador, escritor e designer gráfico. Formado em Desenho Industrial, atua na área de livros infantis e juvenis, tendo mais de 100 obras ilustradas publicadas. Contato: fsgroi@terra.com.br. http://www.fabiosgroi.blogspot.com [post_title] => Queridas imperfeições [post_excerpt] => Digressões sobre questões orgânicas e digitais [post_status] => publish [comment_status] => closed [ping_status] => open [post_password] => [post_name] => queridas-imperfeicoes [to_ping] => [pinged] => [post_modified] => 2013-11-21 09:54:15 [post_modified_gmt] => 2013-11-21 11:54:15 [post_content_filtered] => [post_parent] => 0 [guid] => http://sib.org.br/coluna-sib/fabio-sgroi/ [menu_order] => 0 [post_type] => post [post_mime_type] => [comment_count] => 0 [filter] => raw ) ) [post] => WP_Post Object ( [ID] => 831 [post_author] => 4 [post_date] => 2012-05-14 00:00:00 [post_date_gmt] => 2012-05-14 00:00:00 [post_content] =>

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Fábio Sgroi é ilustrador, escritor e designer gráfico. Formado em Desenho Industrial, atua na área de livros infantis e juvenis, tendo mais de 100 obras ilustradas publicadas. Contato: fsgroi@terra.com.br. http://www.fabiosgroi.blogspot.com [post_title] => Queridas imperfeições [post_excerpt] => Digressões sobre questões orgânicas e digitais [post_status] => publish [comment_status] => closed [ping_status] => open [post_password] => [post_name] => queridas-imperfeicoes [to_ping] => [pinged] => [post_modified] => 2013-11-21 09:54:15 [post_modified_gmt] => 2013-11-21 11:54:15 [post_content_filtered] => [post_parent] => 0 [guid] => http://sib.org.br/coluna-sib/fabio-sgroi/ [menu_order] => 0 [post_type] => post [post_mime_type] => [comment_count] => 0 [filter] => raw ) )

Queridas imperfeições

Digressões sobre questões orgânicas e digitais