SIBSIB

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Quem me conhece, sabe que não é fácil me convencerem a fazer algo diferente do que estou fazendo.

No entanto, alguns pitacos do meu eventual guru Céu d’Ellia foram aceitos quase instantaneamente:

“Desenhista trabalha com símbolos, você precisa conhecer Jung”

E lá ia eu estudar Jung.

“Me diz tua data de nascimento; como vamos trabalhar juntos neste projeto, minha mãe vai fazer teu horóscopo. Ela faz um mapa astral legal”

E lá ia eu estudar astrologia.

“Achei a atividade física que eu queria. É uma arte corporal indiana”

E lá ia eu praticar Kempô.

“Vou estudar anatomia no IML, que nem o Da Vinci fazia”

E não é que eu fui??

(esta história prometo contar no próximo Halloween).

Conheci Céu, então Celso Iazzeti d’Ellia, na premiação do Concurso Ford de Arte Infantil, que aconteceu no Ginário do Ibirapuera, em São Paulo, em 1977.

Cerca de 4.000 crianças e adolescentes, divididos em duas turmas de 8 a 10 e de 11 a 14 anos (eu estava entre estes), tinham que fazer um desenho numa folha A3 sobre o tema “Esportes”, no intervalo de uma hora.
Assim que recebi meu estojo de canetinhas Sylvapen ouvi a lista dos jurados (que incluía o pintor Aldemir Martins, informa o Google) e, entre eles, estava o Maurício de Sousa.
A partir dali, desenhei só para ele – enchi a folha com Mônica, Jotalhão e cia.. em dez modalidades esportivas.
Dias depois saiu o resultado. Ganhei o terceiro lugar. Celso, o primeiro. O desenho vencedor era um cartum cheio de sujeitos mal-encarados de capote, com cadernetas de apostas. Era um desenho politizado! Os sinistros bookmakers também sugeriam agentes da repressão, conspiradores, ou mais diretamente a corrupção nos esportes.
Meu pai não gostou, “cadê o esporte?”. Mas eu tinha entendido, percebi que aquilo era o tal “humor” que os cartunistas faziam, e que eu viria a fazer quase uma década mais tarde. Celso tinha quatorze anos e eu treze; a diferença de idade não era grande, mas comparado à minha olimpíada da Turma da Mônica, seu trabalho era surpreendentemente adulto.

No dia da entrega dos prêmios um sorridente Maurício nos convidou para agendarmos uma visita ao estúdio.

Alguns anos depois eu já era ilustrador publicitário na Young & Rubicam, e o diretor de arte Wilson da Nóbrega, juntando referências de anuários, “criou” um personagem para o chicle de bola Ping Pong, do qual fiz o primeiro storyboard e os seguintes. O “Pongão” foi redefinido e animado na produtora Daniel Messias e foi um sucesso imediato.
Não sei quanto aos primeiros filmes, mas logo quem passou a animar o personagem foi o Celso d’Ellia. A gente era parceiro na mesma linha de produção: eu fazendo os storyboards do Pongão na Young, ele dando vida nos comerciais que iam para a TV – e também na ilustração de pôsteres, anúncios e álbuns de figurinha. A nossa amizade nasceu daí.
[caption id="attachment_2272" align="alignnone" width="700"] Pongão, do storyboard para o mundo, no meu traço e no traço do Céu[/caption]
Em 1982 Celso saiu da Daniel Messias e criou sua produtora, Cigarra Inquietante, que passei a frequentar para longos papos sobre animação, quadrinhos, projetos, sonhos e misticismo. Talvez Celso já fosse “Céu” (num anúncio da Cigarra no anuário Talento de 1984 ele já se apresenta como “Céu I. d’Elia”, com um L só).
“Cel” também era o nome das folhas de acetatos usadas em animação.
Foi ele quem sugeriu, em 1983, que eu procurasse o Luiz Briquet, dono da quarta maior produtora de animação de São Paulo, onde animei os primeiros filmes do Bond Boca.
Céu vinha realizando o curta “Adeus” (que pode ser vista no site  http://www.ailhadoceu.com.br/), obra-prima densa e belíssima, que levou sete anos para ficar pronta. Assisti a várias montagens provisórias, versões inacabadas – o nome ainda era “A Criação do Mundo”, e recebeu a instigante trilha do compositor Dioni Moreno.
O estúdio da Cigarra condensava diferentes mundos, e todos me interessavam: o alto profissionalismo das produções publicitárias, a riqueza e profundidade do quadrinhos europeus (BD) e alternativos, a animação tradicional Disney e as de vanguarda, rock progressivo, música de meditação e Premê, e a cultura alternativa-hippie-mística que permeava aquilo tudo.

O desenho do Céu tinha aquela qualidade ao mesmo tempo concreta e esotérica do Moebius, e ele mesmo às vezes se vestia como aquele flautista do Jethro Tull.

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Quando o Jair da Folha de São Paulo me ligou para dizer que eu tinha sido premiado no concurso da Folha, em 1985, não me achou em casa - não existia celular; deram o telefone da Cigarra, e foi em frente ao Céu que recebi a notícia. O trabalho na Folha acentuou o aspecto ligeiro e jornalístico do meu desenho, quase o oposto da arte do Céu; mas continuei bastante conectado àquela sucursal da Terra Média.
Em 1986 participei do curta coletivo “Planeta Terra”, coordenado por Céu e Marcos Magalhães e oferecido à ONU, por ocasião do “Ano Internacional da Paz”:
http://iludente.blogspot.com.br/2011/08/eppur-si-muove.html
Por dois anos e pouco treinei junto com ele Kempô, arte corporal indiana baseada nos movimentos dos animais, ensinada por Joo Brito. Depois saí do Kempô, e Céu saiu pelo mundo: morou na Inglaterra, trabalhou em An American Tail 2 (foi animador sênior da irmã de Fievel), cruzou a Índia de moto e animou Pateta em Paris. Céu parece se sentir à vontade em qualquer lugar do planeta, mas também desconfortável em todos os lugares, sempre sensível ao desequilíbrio e à loucura da civilização moderna. O seu interesse pelas dimensões transcendentes da realidade transborda no profundo envolvimento com as questões ecológicas.
Em 1994 vai ao Acre, onde filma o material utilizado no documentário “Expedição Yandú” (1996).

Um projeto de que participei e não foi pra frente exemplifica o embasamento sólido e abrangente que caracteriza seus trabalhos. Céu foi contratado para recriar em animação a “Turma Do Lang-Lang” (uns bonecos marionetes que, acionados por gatilho, davam soco). Mas ele foi além: criou todo um um universo para eles, uma mitologia, um mundo ficcional estruturado e coerente de dar inveja a Tolkien. Era muito mais do que requeria aquele trabalho, simples criação publicitária, mas foi fascinante ter acompanhado de perto as reuniões de criação.

Minha participação mais recente num projeto coordenado pelo Céu foi o roteiro que fiz em 2010 para um curta do Núcleo Paulistano de Animação (NUPA), sobre Mário de Andrade.

Na virada do milênio, colaborei com os três números da revista ecológica Super Eco (1998-2000). Céu me chamou para ilustrar com vinhetas uma seção de curiosidades – aquele meu estilo bidimensional de cartum, que lhe pareceu adequado à agilidade daquela seção. O resto da revista é um show de “biodiversidade gráfica”: duas HQs seriadas, tira de humor (Ana Banana), infográficos, contos ilustrados, reportagens e um pôster central em estilo realista, este desenhado por Ângelo “Gafanhoto” Bonito.

Uma dessas HQs em capítulos, então chamada “Super Eco”, foi completada e rebatizada de Zu Kinkajú, lançada neste dia 09 de dezembro de 2013.
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Reparo agora que o layout do animal misterioso Super Eco / Zu Kinkajú mudou enormemente nos 13 anos que separam as duas publicações. A atualização deveu-se à mudança de concepção do personagem; na versão da revista o Super Eco parecia uma divindade hindu em forma de bicho fofinho, um Krishna de pelúcia.
O nome significava um animal capaz de se adaptar a todos os ambientes – ele também tinha membranas entre as patas dianteiras e traseiras, como o esquilo voador.
Conta Céu (http://iludente.blogspot.com.br/2013/08/zu-kinkaju-o-que-voce-realmente-sabe.html) que em certo momento se deu conta de que esse conceito era “exatamente o contrário do que a Natureza nos ensina”. E sentiu que precisava trazer o bicho mais de volta à terra; ei-lo como um tipo de quati, com orelhas que lembram orquídeas (mas não ficaria surpreso em saber que o Zu Kinkajú, em nosso plano da existência, corresponde ao Poligato Supereco no plano das fadinhas e elementais).
Nota-se também no álbum uma alfinetada em certos tipos humanos, que parasitam a atividade ecológica ou idealizam demais a Natureza.
Agora que li o álbum, posso rever os desenhos e admirar uma vez mais como Céu tem um profundo respeito pelas coisas como elas são: as paisagens são as de um certo lugar, as plantas e animais conservam sua morfologia. A suçuarana tem cara de suçuarana, o lobo-guará tem cara de lobo-guará.
Esta BD – Bande Dessinée, porque se insere na tradição caprichada e autoral dos quadrinhos franco-belgas – é uma das que mais tem cara de Brasil que já vi. Céu precisou recuar para olhar à distância, num zoom-out que o levou até o Oriente; depois deu um zoom-in até o Acre, para captar o detalhe no universal e vice-versa.

Nossos olhos, acostumados à visão de sempre desde o litoral, podem estranhar, e é bom que estranhem; afinal, é o Brasil visto do Céu...

[caption id="attachment_2270" align="alignnone" width="560"] pôster dos Beatles feito a traço por Céu, que tentei pintar com cores psico-d'Ellicas[/caption] ________________________________________________________________________________________________________________________________ SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D.João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com [post_title] => Céu d'Ellia, meu guru acidental [post_excerpt] => Spacca fala de sua amizade milenar com o animador, quadrinhista e ilustrador Céu d'Ellia, autor de "Zu Kinkajú". [post_status] => publish [comment_status] => closed [ping_status] => open [post_password] => [post_name] => ceu-dellia-meu-guru-acidental [to_ping] => [pinged] => [post_modified] => 2014-01-28 19:08:34 [post_modified_gmt] => 2014-01-28 21:08:34 [post_content_filtered] => [post_parent] => 0 [guid] => http://sib.org.br/?p=2260 [menu_order] => 0 [post_type] => post [post_mime_type] => [comment_count] => 0 [filter] => raw ) [1] => WP_Post Object ( [ID] => 2010 [post_author] => 4 [post_date] => 2013-12-04 16:59:28 [post_date_gmt] => 2013-12-04 18:59:28 [post_content] =>

É curioso como nos livros infantis a ilustração consegue acrescentar nuanças ao texto.

Na minha coluna anterior chamei a atenção para o caso do livro Leo the late bloomer, no qual a mensagem contida na imagem contradiz a mensagem contida no texto, nascendo desse confronto uma terceira leitura. Conforme afirmei, não tenho conhecimento se o escritor e o ilustrador daquela obra combinaram previamente que uma linguagem estaria em oposição à outra e se o resultado disso foi intencional ou apenas acidental.

Não deixa de ser interessante, porém, observar como uma linguagem consegue contribuir com a outra, podendo inclusive resultar numa mensagem diversa daquela que seria apreendida lendo-se somente uma delas.

Outro bom exemplo, que consigo colher da minha prateleira aqui do estúdio a respeito dessa construção de mensagem a partir de duas linguagens distintas, são as duas edições do livro Chapeuzinho Amarelo, escritas por Chico Buarque.

A versão mais recente foi lançada em 1997 pela José Olympio Editora e ilustrada por Ziraldo.

A primeira é um pouco mais complicada de identificar, porque não traz a data da publicação nem o crédito das ilustrações; credita apenas o escritor (Chico Buarque) e o responsável pelo projeto gráfico do livro, a designer gráfica e jornalista Donatella Berlendis, falecida em 2002. Uma pesquisa rápida pela internet me conduziu ao site da Berlendis & Vertecchia Editores, onde consta a informação de que o livro foi publicado pela primeira vez em 1979 por essa mesma editora (o exemplar que tenho consta como uma publicação do Círculo do livro, e imagino que se trate de uma edição específica para a venda por meio do sistema de clube de compras, pelo qual a empresa ficou conhecida nos anos 1970-80). Quanto às ilustrações, tenho bons motivos para supor que foram feitas pela própria Donatella Berlendis (alguns sites de busca de livros a creditam ao lado de Chico Buarque na referida edição, o que dá mais consistência a essa hipótese). É, entretanto, apenas um palpite; caso alguém tenha uma outra informação, por favor, compartilhe comigo.

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O livro conta a história da Chapeuzinho Amarelo, uma menina que tinha medo de tudo e por isso vivia parada no lugar. Existia, porém, algo que ela temia mais do que tudo: o LOBO! De tanto temer o bicho e pensar nele, certo dia a Chapeuzinho Amarelo acaba mesmo topando com um. Contudo, a menina descobre que aquele LOBO não dava tanto medo assim porque a palavra LO-BO bem que podia se transformar na palavra BO-LO e se tornar uma outra coisa.

A ideia proposta pelo texto é brincar com as palavras, tal como ocorre com a transformação da palavra LOBO, que dá nome à criatura tão temida pela menina, em outra palavra que define algo bem menos terrível de se enfrentar e que a ajuda a superar seus medos.

Por meio da transformação das palavras, dos significados que carregam e das ideias e conceitos que transmitem, Chapeuzinho Amarelo muda seu jeito de pensar e passa a viver de uma outra maneira, brincando com as demais crianças, correndo, subindo em árvores e fazendo uma porção de coisas que antes evitava.

O curioso ao observarmos as duas edições é a contribuição que cada ilustrador dá ao texto (observação extensiva ao projeto gráfico e à diagramação).

Minha impressão é que a edição ilustrada por Ziraldo procura a concretização da palavra por meio da imagem, exemplificando com formas e cores as construções e brincadeiras que o texto propõe com as palavras.

Já a edição da Berlendis & Vertecchia Editores prioriza a palavra escrita e valoriza o branco das páginas, sugerindo o silêncio como um mergulho numa certa introspecção presente também no texto (visto que a história permite a interpretação, entre outras possíveis, ao acompanhamos um momento de reflexão e amadurecimento da menina). As imagens, mais esparsas se comparadas à edição de 1997, buscam mais sugerir do que explicitar as ideias contidas no texto.

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Um bom exemplo está na aparição do lobo.

Ziraldo preocupa-se em materializá-lo, em perfeita sintonia com o fato de ele ser um personagem concreto, ainda que possivelmente imaginário, interagindo com a protagonista. O lobo é personalizado de maneira divertida, e confere uma atmosfera de humor à história.

A edição de 1979 parece ir mais de encontro à ideia de que o lobo possa ser apenas fruto da imaginação da Chapeuzinho Amarelo, uma representação e uma personificação de todos os seus medos. Ele nunca é mostrado em sua totalidade. O que se vê são apenas partes e a construção do desenho, apoiado em linhas sinuosas e sugestivas e sem cores, que reforçam essa sugestão de imaterialidade.

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Enquanto as ilustrações da versão de 1997 marcam a presença do lobo pela sua concretização em todas as páginas onde é citado, as da versão de 1979 reconhecem, no contexto da história, que a palavra LOBO deve ser a portadora principal da representação da criatura, parecendo sugerir ao próprio leitor que se encarregue de ilustrá-lo conforme sua própria imaginação.

Tais opções distintas (e igualmente válidas) me parecem ainda mais evidentes na passagem a seguir.

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Ziraldo na edição de 1997 traduz a transformação da palavra LO BO em BO LO por meio de uma divertida brincadeira com a representação de seus respectivos desenhos em positivo e negativo, parodiando os conceitos da Gestalt.

A edição de 1979 assume a repetição da própria palavra LO-BO (separada silabicamente com hífen) como uma "ilustração"; repete a palavra seguidas vezes até que numa das separações, na quebra de uma linha, a mágica se opera: LO-BO vira BO-LO. A princípio não há ilustração, mas na mente do leitor inevitavelmente se formam as imagens correspondentes às palavras. É como se o livro dissesse: "Ra-rá! Te peguei!"

Para terminar devo frisar que, ao reler a edição de 1979, a imagem que ilustra o que acontece depois que a Chapeuzinho Amarelo supera o seu medo do LOBO chamou muito a minha atenção por dois motivos: primeiro porque é a única imagem do livro que possui outras cores que não amarelo e o preto (ela está impressa em verde e vermelho); segundo porque me fez remeter diretamente à passagem bíblica em que Adão e Eva comem o fruto da árvore proibida.

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Será que essa associação foi intencional ou a ilustração pretendeu somente sublinhar a passagem onde se diz que a Chapeuzinho Amarelo passou a trepar em árvores e roubar frutas? Assim como aconteceu com Leo the late bloomer desconfio que nunca terei certeza da intenção da ilustradora (Donatella Berlendis?) na concepção dessa imagem. Ainda assim, pelo menos para mim, a leitura sugere o amadurecimento da personagem.

Enfim, são leituras...

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Fábio Sgroi é ilustrador, escritor e designer gráfico. Formado em Desenho Industrial, atua na área de livros infantis e juvenis, tendo mais de 100 obras ilustradas publicadas. Contato: fsgroi@terra.com.br. http://www.fabiosgroi.blogspot.com.br
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Era noite em Santiago, capital do Chile, e lá estávamos eu e mais um grupo de amigos abandonando um táxi que havia acabado de pifar. Logo conseguimos entrar em um novo carro e seguir para nosso destino, a casa do cartunista chileno Renato Andrade, mais conhecido como Nato (1921-2006). Não tinha ido ao Chile fazer contatos com artistas gráficos, mas os acasos da vida me levaram àquele inusitado encontro. Na verdade, a finalidade oficial da viagem era participar da quinta edição do ELEA, Encontro Latino Americano de Estudantes de Arquitetura, que naquele ano de 1995 conclamava os futuros arquitetos latino-americanos a se encontrarem na cidade litorânea de Valparaíso para ajudar a “revelar virtudes e construir a América”. Estava no terceiro ano de faculdade e, apesar de gostar de desenhar e participar eventualmente de salões de humor, não acreditava que viria a ser ilustrador. Encontrar pessoalmente um profissional do traço não era, portanto, algo habitual: havia a expectativa e a emoção de conhecer de perto um cartunista estrangeiro.

[caption id="attachment_1789" align="alignnone" width="282"]Transparência com desenho de Nato. Transparência com desenho de Nato.[/caption] [caption id="attachment_1777" align="alignnone" width="279"]Original de Nato, criado para a El Pingüino. Original de Nato, criado para a El Pingüino.[/caption]

Entusiasmado que estava com o Chile e os amigos que conheci em Santiago antes do evento, acabei deixando um pouco de lado o encontro de estudantes. Uma dessas novas amizades era a Claudia Valeria, filha de Nato. Foi dela a idéia de nos levar – eu, meu amigo de faculdade PC, o Marcio Motokane e seu colega de trabalho (faziam a edição de um programa de TV no Chile) - para um jantar na casa do pai. Foi de fato um encontro muito agradável e animado, com o inevitável assunto do cartum e do desenho permeando as conversas, enriquecidas pelas lembranças daquele simpático senhor de 74 anos. Ele me mostrou originais e muitas publicações, colocando-me a par de sua produção, que eu até então desconhecia. Disse que para sobreviver também trabalhou como diretor de arte de revistas. Logo fui apresentado a vários de seus personagens, como Ponchito, Insolencio, Pelusita, Cachupín e muitos outros. Alguns não haviam sido criados por ele, como o náufrago Toribio, cujas inúmeras tirinhas publicadas na revista Can Can, no entanto, tentavam me convencer de que era Nato seu inventor.

[caption id="attachment_1782" align="alignnone" width="424"]Ponchito, original de Nato. Ponchito, original de Nato.[/caption]

Não demorei para perceber que seu desenho seguia um padrão definido, sem grandes variações, expressionismos e arroubos experimentais: o traço era comportado, calculadamente finalizado sobre o rascunho, e estava a serviço das piadas. Achei interessante o cartunista comentar que havia ingressado na profissão por acaso e aprendido a desenhar através de um curso por correspondência, pois antes disso “desenhava muito mal”. Notei também que ele colaborou, ao longo da carreira, para muitas revistas de humor chilenas como a Barrabases, El Peneca, Simbad, Estadio e El Pingüino. Algumas dessas publicações traziam trabalhos de Pepo, o criador do Condorito, e constatei a admiração de Nato por seu famoso amigo. Na ocasião, o cartunista ainda me presenteou com algumas revistas e livros de sua autoria, cuidadosamente autografados por uma mão fragilizada pelo tempo.

[caption id="attachment_1764" align="alignnone" width="441"]Toribio: tira de Nato publicada na Can Can n.64, 1966. Toribio: tira de Nato publicada na Can Can n.64, 1966.[/caption] [caption id="attachment_1773" align="alignnone" width="220"]Tira de Toríbio criada por Nato para a Can Can n. 80, 1966. Tira de Toríbio criada por Nato para a Can Can n. 80, 1966.[/caption]

Não perdi o contato com a Claudia Valeria (hoje em dia uma escritora) e comecei a receber esporadicamente, ao longo do tempo, material sobre o Nato. Eram presentes generosos: livros e revistas com autógrafos e dedicatórias, fotos e originais do artista. Mesmo após sua morte, em setembro de 2006, continuei a receber pacotes da Valeria. Há, por exemplo, um livro e originais de Ponchito, personagem autobiográfico, um típico garotinho do campo chileno. Assim como seu personagem, o cartunista nasceu e viveu até os doze anos no campo, na pequena San Javier, situada na região do Maule e conhecida por sua produção vinícula.

[caption id="attachment_1781" align="alignnone" width="403"]Pituto, original de Nato. Pituto, original de Nato.[/caption]

Alguns dos originais enviados apresentam uma página com o desenho a traço, e sobre ele um vegetal com indicações das cores, que acabam, sem querer, gerando um belo efeito gráfico. Dentre as relíquias recebidas está uma edição da revista El Cabrito lançada em 1944. Logo na primeira página há uma tirinha do artista, ainda assinada “Renato”, um exemplo de seu início de carreira. A El Cabrito é justamente a primeira revista de humor a publicar os trabalhos do cartunista após sua contratação pelo diário La Hora, no início daquela década.

[caption id="attachment_1770" align="alignnone" width="409"]Original de Nato. Original de Nato.[/caption] [caption id="attachment_1788" align="alignnone" width="228"]Tira de Nato na primeira página de El Cabrito n.153,  1944. Tira de Nato na primeira página de El Cabrito n.153, 1944.[/caption]

Nem todas as revistas enviadas incluem trabalhos de Nato, sendo algumas apenas exemplares de coleção. Em seu conjunto, de qualquer modo, expõem uma rica amostragem da produção de humor da época. São também muito pertinentes pela edição e projeto gráfico que apresentam. Muitas trazem páginas em tons monocromáticos ou com poucas e inusitadas cores. Além de divertidas propagandas, da visualidade retrô típica dos anos 50 e 60 permeando todas as publicações, chama a atenção os ensaios com mulheres de biquíni das páginas da revista chilena Can Can e El Pingüino.

[caption id="attachment_1774" align="alignnone" width="600"]À esquerda, tira de Toribio feita por Nato. Revista Can Can n. 85, 1966. À esquerda, tira de Toribio feita por Nato. Revista Can Can n. 85, 1966.[/caption] [caption id="attachment_1775" align="alignnone" width="600"]Página dupla com desenhos de Nato, Can Can n. 80, 1966. Página dupla com desenhos de Nato, Can Can n. 80, 1966.[/caption]

Com todo esse material em mãos, resolvi mostrar não apenas as informações e o trabalho desse cartunista chileno que tive a honra de conhecer, como também um pouco da cultura visual dessas revistas. Uma retribuição à generosidade de Nato e sua filha, e um modo de colocar em circulação ricas informações que correram o risco de ficar relegadas às minhas lembranças e estantes.

[caption id="attachment_1776" align="alignnone" width="441"]Tira de Insolencio criada por Nato para Nato a El Pingüino n. 262, 1962. Tira de Insolencio criada por Nato para Nato a El Pingüino n. 262, 1962.[/caption]   PÁGINAS SELECIONADAS [caption id="attachment_1769" align="alignnone" width="600"]Página dupla da Can Can n. 80, 1966. Página dupla da Can Can n. 80, 1966.[/caption] [caption id="attachment_1765" align="alignnone" width="457"]Capa de Odduard para a El Cabrito n.153 ,1944. Capa de Odduard para a El Cabrito n.153 ,1944.[/caption] [caption id="attachment_1780" align="alignnone" width="444"]Capa de Pepo para a El Pingüino n. 262, 1962. Capa de Pepo para a El Pingüino n. 262, 1962.[/caption] [caption id="attachment_1787" align="alignnone" width="455"]Terceira capa Rico Tipo n.34, 1945. Terceira capa Rico Tipo n.34, 1945.[/caption] [caption id="attachment_1786" align="alignnone" width="453"]Terceira capa El Cabrito n. 153, 1944. Autor não identificado. Terceira capa El Cabrito n. 153, 1944. Autor não identificado.[/caption] [caption id="attachment_1785" align="alignnone" width="439"]Terceira capa de Rico Tipo n. 320, 1951. Autor não identificado. Terceira capa de Rico Tipo n. 320, 1951. Autor não identificado.[/caption] [caption id="attachment_1784" align="alignnone" width="457"]Quarta capa de El Cabrito n.153, 1944. Autor não identificado. Quarta capa de El Cabrito n.153, 1944. Autor não identificado.[/caption] [caption id="attachment_1783" align="alignnone" width="454"]Quarta capa da Rico Tipo n.34 julho de 1945. Desenho de Juan Dell Acqua. Quarta capa da Rico Tipo n.34 julho de 1945. Desenho de Juan Dell Acqua.[/caption] [caption id="attachment_1779" align="alignnone" width="443"]Capa de Pepo para a Can Can n. 64, 1966. Capa de Pepo para a Can Can n. 64, 1966.[/caption] [caption id="attachment_1778" align="alignnone" width="441"]Página com cartuns de Oski,  Rico Tipo n. 320, 1951. Página com cartuns de Oski, Rico Tipo n. 320, 1951.[/caption] [caption id="attachment_1768" align="alignnone" width="460"]Contracapa da revista El Cabrito n. 153, 1944. Contracapa da revista El Cabrito n. 153, 1944.[/caption] [caption id="attachment_1767" align="alignnone" width="445"]Capa de Divito para a Rico Tipo n. 320, 1951. Capa de Divito para a Rico Tipo n. 320, 1951.[/caption] [caption id="attachment_1766" align="alignnone" width="458"]Capa de Divito para a Rico Tipo n. 34, 1945. Capa de Divito para a Rico Tipo n. 34, 1945.[/caption]

PS – Foi lançado em 2012 o livro “Nato, La sonrisa imborrable”, escrito pela Claudia Valeria e por Jorge Montealegre, jornalista e pesquisador do humor gráfico chileno.

________________________________________________________________________________________________________________________________ Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo. http://www.buenozine.com.br [post_title] => Documento: Nato, um cartunista chileno [post_excerpt] => Daniel Bueno narra uma visita emblemática à casa do cartunista chileno Renato Andrade, mais conhecido como Nato (1921-2006). [post_status] => publish [comment_status] => closed [ping_status] => open [post_password] => [post_name] => documento-nato-um-cartunista-chileno-2 [to_ping] => [pinged] => [post_modified] => 2013-12-23 17:54:01 [post_modified_gmt] => 2013-12-23 19:54:01 [post_content_filtered] => [post_parent] => 0 [guid] => http://sib.org.br/?p=1793 [menu_order] => 0 [post_type] => post [post_mime_type] => [comment_count] => 0 [filter] => raw ) [3] => WP_Post Object ( [ID] => 1474 [post_author] => 4 [post_date] => 2013-11-13 15:29:54 [post_date_gmt] => 2013-11-13 17:29:54 [post_content] =>

Na minha última coluna falei um pouco sobre a relação que o texto e a imagem constroem nos livros infantis para narrar uma história, e de que maneira a imagem pode complementar o que o texto está dizendo. Vou retomar essa ideia para falar de um outro tipo de relacionamento que o texto e a imagem podem estabelecer para contar histórias: uma relação de contradição.

À primeira vista pode parecer estranho e incoerente que a imagem contradiga o que diz o texto, mas quando bem conduzida essa contradição pode acrescentar nuanças interessantes ao sentido das palavras.

Lendo o livro de Sophie Van der Linden Para ler o livro ilustrado (Cosac Naify, 2011), encontrei uma referência a um livro cuja narrativa fazia uso justamente desse tipo de relação e, movido pela curiosidade, fui atrás. Trata-se de um livro infantil escrito por Robert Kraus e ilustrado por  José Aruego chamado  Leo the Late Bloomer (Inglaterra, Windmiee Books, 1971).

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O livro conta a história de Leo, um tigre que demora mais que seus amiguinhos para aprender coisas como ler, escrever, desenhar e falar. O pai, ansioso para ver o filho se desenvolver tal como as outras crianças, permanece o tempo todo observando Leo e fica muito preocupado com essa demora. Mas a mãe nem se importa, pois acredita que Leo conseguirá fazer todas essas coisas quando estiver preparado. Segundo o entendimento dela, ficar ansiosamente observando se o filho apresenta algum sinal de progresso só vai fazer com que aquilo pareça demorar mais para acontecer.

leothelatebloomer4

Em certa passagem, o texto diz que o pai finalmente resolve escutar o conselho da mãe e decide assistir televisão em vez de ficar o tempo todo observando Leo.

A imagem (abaixo), no entanto, mostra que ele continua preocupado e observando o filho.

leothelatebloomer

A partir daí, o texto segue dizendo que o tempo passou e que ninguém mais ficou olhando o que Leo estava fazendo. Mas a ilustração insiste em mostrar o pai, ainda que empenhado em outros afazeres, acompanhando as ações do filho, mesmo que de longe.

A dissonância entre texto e imagem, vista a partir da passagem do sofá, é interessante porque, isoladas, as linguagens apontam caminhos opostos. Se lermos a história exclusivamente pelo texto, diremos que o pai de fato deixou de observar Leo e não se preocupou mais; lendo a história exclusivamente pela imagem, diremos que o pai de Leo não foi capaz de seguir o conselho da mãe e continuou a observar o filho. A leitura que resulta da imagem e do texto juntos, porém, é a de que o pai segue o conselho da mãe (afinal, o texto afirma isso), mas que essa não foi uma decisão fácil, e que ele continuou preocupado e buscando, sempre que possível, observar o filho. A imagem, ainda que sutilmente contradizendo o texto, acrescenta o sentido de que o pai está deixando o filho desenvolver-se por conta própria, mas sem deixar de zelar por ele. Na imagem anterior à da cena do sofá o pai se dedica exclusivamente a olhar o filho e, depois, como é visto na imagem abaixo, apesar de continuar tentando observar, ele aparece fazendo outras coisas.

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A pergunta que me fiz quando folheei este livro foi se houve uma combinação prévia entre o escritor e o ilustrador para que a mensagem fosse construída dessa maneira. Será que eles combinaram previamente que o texto afirmaria uma coisa e a imagem sugeriria outra, resultando em uma terceira mensagem? Ou será que a atitude do pai a partir da imagem do sofá foi uma contribuição do ilustrador, que sugeriu acrescentar essa nuança à leitura?

Tal pergunta surgiu porque a maioria dos livros que ilustro são intermediados pela editora e é muito raro o contato com o escritor antes de o livro estar pronto.

Evidentemente, sempre que pertinente, posso discutir e sugerir ao editor nuanças à história por meio das imagens, mas, conforme disse, é muito rara a troca de ideias com o escritor antes de produzir.

Todavia, isso não impede que um escritor conte com a parceria do ilustrador de uma maneira mais efetiva, como num jogo de futebol onde um passa a bola para o outro marcar o gol.  Isso aconteceu comigo no livro escrito por Ruth Rocha que tive a honra de ilustrar, Borba, o gato (Editora Salamandra, 2009).

Recebi o texto e, como é de costume no segmento de literatura, a editora me deixou muito à vontade para ilustrar (nos livros didáticos, por exemplo, é frequente que o ilustrador seja pautado, isto é, recebe da editora instruções bastante detalhadas sobre o que deve ser desenhado).

Lendo a história tive uma grata surpresa: em determinada passagem o texto dizia que o gato Borba havia aprontado uma bela trapalhada, mas não descrevia qual. Dizia apenas que ele havia feito a trapalhada, e pronto: a ilustração que mostrasse do que se tratava. Fiquei muito feliz em perceber que nenhuma recomendação havia sido dada, de modo que eu estava absolutamente livre para criar a trapalhada que eu quisesse (desde que fosse, é evidente, coerente com o restante do texto). Não sei dizer se foi exatamente por isso, pois nunca conversei com ela a respeito, mas imagino que Ruth Rocha escreveu o texto daquela maneira justamente contando com a participação da imagem, prevendo que, naquela passagem, a piada poderia funcionar de maneira mais eficiente se mostrada por meio visual do que descrita com palavras.

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Voltando a Leo the late bloomer, como citei anteriormente, não tenho conhecimento se o escritor e o ilustrador combinaram previamente o modo como o texto e a imagem colaborariam na narrativa, mas é evidente que o resultado dessa parceria bem articulada tornou a leitura muito mais rica.

________________________________________________________________________________________________________________________________
Fábio Sgroi é ilustrador, escritor e designer gráfico. Formado em Desenho Industrial, atua na área de livros infantis e juvenis, tendo mais de 100 obras ilustradas publicadas. Contato: fsgroi@terra.com.br. http://www.fabiosgroi.blogspot.com [post_title] => Texto e ilustração: dois caminhos e uma mensagem [post_excerpt] => Existem infinitas possibilidades de explorar a relação que as ilustrações estabelecem com as palavras nos livros infantis. Pode enriquecer a obra tirar partido de uma eventual relação de contradição entre as duas narrativas. [post_status] => publish [comment_status] => closed [ping_status] => open [post_password] => [post_name] => texto-e-ilustracao-dois-caminhos-e-uma-mensagem [to_ping] => [pinged] => [post_modified] => 2013-11-18 19:24:30 [post_modified_gmt] => 2013-11-18 21:24:30 [post_content_filtered] => [post_parent] => 0 [guid] => http://sib.org.br/?p=1474 [menu_order] => 0 [post_type] => post [post_mime_type] => [comment_count] => 0 [filter] => raw ) ) [post] => WP_Post Object ( [ID] => 2260 [post_author] => 2 [post_date] => 2013-12-12 07:56:01 [post_date_gmt] => 2013-12-12 09:56:01 [post_content] => [caption id="attachment_2275" align="alignnone" width="960"] HQ-cartão em parceria de Céu e Spacca, para algum Natal dos anos oitenta[/caption]

Quem me conhece, sabe que não é fácil me convencerem a fazer algo diferente do que estou fazendo.

No entanto, alguns pitacos do meu eventual guru Céu d’Ellia foram aceitos quase instantaneamente:

“Desenhista trabalha com símbolos, você precisa conhecer Jung”

E lá ia eu estudar Jung.

“Me diz tua data de nascimento; como vamos trabalhar juntos neste projeto, minha mãe vai fazer teu horóscopo. Ela faz um mapa astral legal”

E lá ia eu estudar astrologia.

“Achei a atividade física que eu queria. É uma arte corporal indiana”

E lá ia eu praticar Kempô.

“Vou estudar anatomia no IML, que nem o Da Vinci fazia”

E não é que eu fui??

(esta história prometo contar no próximo Halloween).

Conheci Céu, então Celso Iazzeti d’Ellia, na premiação do Concurso Ford de Arte Infantil, que aconteceu no Ginário do Ibirapuera, em São Paulo, em 1977.

Cerca de 4.000 crianças e adolescentes, divididos em duas turmas de 8 a 10 e de 11 a 14 anos (eu estava entre estes), tinham que fazer um desenho numa folha A3 sobre o tema “Esportes”, no intervalo de uma hora.
Assim que recebi meu estojo de canetinhas Sylvapen ouvi a lista dos jurados (que incluía o pintor Aldemir Martins, informa o Google) e, entre eles, estava o Maurício de Sousa.
A partir dali, desenhei só para ele – enchi a folha com Mônica, Jotalhão e cia.. em dez modalidades esportivas.
Dias depois saiu o resultado. Ganhei o terceiro lugar. Celso, o primeiro. O desenho vencedor era um cartum cheio de sujeitos mal-encarados de capote, com cadernetas de apostas. Era um desenho politizado! Os sinistros bookmakers também sugeriam agentes da repressão, conspiradores, ou mais diretamente a corrupção nos esportes.
Meu pai não gostou, “cadê o esporte?”. Mas eu tinha entendido, percebi que aquilo era o tal “humor” que os cartunistas faziam, e que eu viria a fazer quase uma década mais tarde. Celso tinha quatorze anos e eu treze; a diferença de idade não era grande, mas comparado à minha olimpíada da Turma da Mônica, seu trabalho era surpreendentemente adulto.

No dia da entrega dos prêmios um sorridente Maurício nos convidou para agendarmos uma visita ao estúdio.

Alguns anos depois eu já era ilustrador publicitário na Young & Rubicam, e o diretor de arte Wilson da Nóbrega, juntando referências de anuários, “criou” um personagem para o chicle de bola Ping Pong, do qual fiz o primeiro storyboard e os seguintes. O “Pongão” foi redefinido e animado na produtora Daniel Messias e foi um sucesso imediato.
Não sei quanto aos primeiros filmes, mas logo quem passou a animar o personagem foi o Celso d’Ellia. A gente era parceiro na mesma linha de produção: eu fazendo os storyboards do Pongão na Young, ele dando vida nos comerciais que iam para a TV – e também na ilustração de pôsteres, anúncios e álbuns de figurinha. A nossa amizade nasceu daí.
[caption id="attachment_2272" align="alignnone" width="700"] Pongão, do storyboard para o mundo, no meu traço e no traço do Céu[/caption]
Em 1982 Celso saiu da Daniel Messias e criou sua produtora, Cigarra Inquietante, que passei a frequentar para longos papos sobre animação, quadrinhos, projetos, sonhos e misticismo. Talvez Celso já fosse “Céu” (num anúncio da Cigarra no anuário Talento de 1984 ele já se apresenta como “Céu I. d’Elia”, com um L só).
“Cel” também era o nome das folhas de acetatos usadas em animação.
Foi ele quem sugeriu, em 1983, que eu procurasse o Luiz Briquet, dono da quarta maior produtora de animação de São Paulo, onde animei os primeiros filmes do Bond Boca.
Céu vinha realizando o curta “Adeus” (que pode ser vista no site  http://www.ailhadoceu.com.br/), obra-prima densa e belíssima, que levou sete anos para ficar pronta. Assisti a várias montagens provisórias, versões inacabadas – o nome ainda era “A Criação do Mundo”, e recebeu a instigante trilha do compositor Dioni Moreno.
O estúdio da Cigarra condensava diferentes mundos, e todos me interessavam: o alto profissionalismo das produções publicitárias, a riqueza e profundidade do quadrinhos europeus (BD) e alternativos, a animação tradicional Disney e as de vanguarda, rock progressivo, música de meditação e Premê, e a cultura alternativa-hippie-mística que permeava aquilo tudo.

O desenho do Céu tinha aquela qualidade ao mesmo tempo concreta e esotérica do Moebius, e ele mesmo às vezes se vestia como aquele flautista do Jethro Tull.

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Quando o Jair da Folha de São Paulo me ligou para dizer que eu tinha sido premiado no concurso da Folha, em 1985, não me achou em casa - não existia celular; deram o telefone da Cigarra, e foi em frente ao Céu que recebi a notícia. O trabalho na Folha acentuou o aspecto ligeiro e jornalístico do meu desenho, quase o oposto da arte do Céu; mas continuei bastante conectado àquela sucursal da Terra Média.
Em 1986 participei do curta coletivo “Planeta Terra”, coordenado por Céu e Marcos Magalhães e oferecido à ONU, por ocasião do “Ano Internacional da Paz”:
http://iludente.blogspot.com.br/2011/08/eppur-si-muove.html
Por dois anos e pouco treinei junto com ele Kempô, arte corporal indiana baseada nos movimentos dos animais, ensinada por Joo Brito. Depois saí do Kempô, e Céu saiu pelo mundo: morou na Inglaterra, trabalhou em An American Tail 2 (foi animador sênior da irmã de Fievel), cruzou a Índia de moto e animou Pateta em Paris. Céu parece se sentir à vontade em qualquer lugar do planeta, mas também desconfortável em todos os lugares, sempre sensível ao desequilíbrio e à loucura da civilização moderna. O seu interesse pelas dimensões transcendentes da realidade transborda no profundo envolvimento com as questões ecológicas.
Em 1994 vai ao Acre, onde filma o material utilizado no documentário “Expedição Yandú” (1996).

Um projeto de que participei e não foi pra frente exemplifica o embasamento sólido e abrangente que caracteriza seus trabalhos. Céu foi contratado para recriar em animação a “Turma Do Lang-Lang” (uns bonecos marionetes que, acionados por gatilho, davam soco). Mas ele foi além: criou todo um um universo para eles, uma mitologia, um mundo ficcional estruturado e coerente de dar inveja a Tolkien. Era muito mais do que requeria aquele trabalho, simples criação publicitária, mas foi fascinante ter acompanhado de perto as reuniões de criação.

Minha participação mais recente num projeto coordenado pelo Céu foi o roteiro que fiz em 2010 para um curta do Núcleo Paulistano de Animação (NUPA), sobre Mário de Andrade.

Na virada do milênio, colaborei com os três números da revista ecológica Super Eco (1998-2000). Céu me chamou para ilustrar com vinhetas uma seção de curiosidades – aquele meu estilo bidimensional de cartum, que lhe pareceu adequado à agilidade daquela seção. O resto da revista é um show de “biodiversidade gráfica”: duas HQs seriadas, tira de humor (Ana Banana), infográficos, contos ilustrados, reportagens e um pôster central em estilo realista, este desenhado por Ângelo “Gafanhoto” Bonito.

Uma dessas HQs em capítulos, então chamada “Super Eco”, foi completada e rebatizada de Zu Kinkajú, lançada neste dia 09 de dezembro de 2013.
supereco reduz
Reparo agora que o layout do animal misterioso Super Eco / Zu Kinkajú mudou enormemente nos 13 anos que separam as duas publicações. A atualização deveu-se à mudança de concepção do personagem; na versão da revista o Super Eco parecia uma divindade hindu em forma de bicho fofinho, um Krishna de pelúcia.
O nome significava um animal capaz de se adaptar a todos os ambientes – ele também tinha membranas entre as patas dianteiras e traseiras, como o esquilo voador.
Conta Céu (http://iludente.blogspot.com.br/2013/08/zu-kinkaju-o-que-voce-realmente-sabe.html) que em certo momento se deu conta de que esse conceito era “exatamente o contrário do que a Natureza nos ensina”. E sentiu que precisava trazer o bicho mais de volta à terra; ei-lo como um tipo de quati, com orelhas que lembram orquídeas (mas não ficaria surpreso em saber que o Zu Kinkajú, em nosso plano da existência, corresponde ao Poligato Supereco no plano das fadinhas e elementais).
Nota-se também no álbum uma alfinetada em certos tipos humanos, que parasitam a atividade ecológica ou idealizam demais a Natureza.
Agora que li o álbum, posso rever os desenhos e admirar uma vez mais como Céu tem um profundo respeito pelas coisas como elas são: as paisagens são as de um certo lugar, as plantas e animais conservam sua morfologia. A suçuarana tem cara de suçuarana, o lobo-guará tem cara de lobo-guará.
Esta BD – Bande Dessinée, porque se insere na tradição caprichada e autoral dos quadrinhos franco-belgas – é uma das que mais tem cara de Brasil que já vi. Céu precisou recuar para olhar à distância, num zoom-out que o levou até o Oriente; depois deu um zoom-in até o Acre, para captar o detalhe no universal e vice-versa.

Nossos olhos, acostumados à visão de sempre desde o litoral, podem estranhar, e é bom que estranhem; afinal, é o Brasil visto do Céu...

[caption id="attachment_2270" align="alignnone" width="560"] pôster dos Beatles feito a traço por Céu, que tentei pintar com cores psico-d'Ellicas[/caption] ________________________________________________________________________________________________________________________________ SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D.João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com [post_title] => Céu d'Ellia, meu guru acidental [post_excerpt] => Spacca fala de sua amizade milenar com o animador, quadrinhista e ilustrador Céu d'Ellia, autor de "Zu Kinkajú". [post_status] => publish [comment_status] => closed [ping_status] => open [post_password] => [post_name] => ceu-dellia-meu-guru-acidental [to_ping] => [pinged] => [post_modified] => 2014-01-28 19:08:34 [post_modified_gmt] => 2014-01-28 21:08:34 [post_content_filtered] => [post_parent] => 0 [guid] => http://sib.org.br/?p=2260 [menu_order] => 0 [post_type] => post [post_mime_type] => [comment_count] => 0 [filter] => raw ) )

Céu d’Ellia, meu guru acidental

Spacca fala de sua amizade milenar com o animador, quadrinhista e ilustrador Céu d’Ellia, autor de “Zu Kinkajú”.

Um texto e duas ilustrações

Fábio Sgroi revela outros contornos narrativos oferecidos pelas ilustrações em duas versões diferentes de “Chapeuzinho Vermelho”.

Documento: Nato, um cartunista chileno

Daniel Bueno narra uma visita emblemática à casa do cartunista chileno Renato Andrade, mais conhecido como Nato (1921-2006).

Texto e ilustração: dois caminhos e uma mensagem

Existem infinitas possibilidades de explorar a relação que as ilustrações estabelecem com as palavras nos livros infantis. Pode enriquecer a obra tirar partido de uma eventual relação de contradição entre as duas narrativas.