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William Steig: sobre abstrações

20/11/2011 por Daniel Bueno

“About People” é um livrinho com pouco mais de cem páginas, capa dura vermelha com desenho singelo e que traz em seu interior páginas amareladas. O cheiro de publicação velha do miolo confirma a data desta primeira edição, de 1939. Trata-se do primeiro livro do cartunista e ilustrador americano William Steig (1907-2003), famoso pelos cartuns e capas publicados durante sete décadas na revista The New Yorker e também por ser criador do Shrek, um personagem de livro infantil que alcançou notoriedade mundial na animação computadorizada. O ogro verde representa uma das muitas facetas de Steig, artista que apresentou abordagens variadas e em certos casos desconexas entre si ao longo de sua carreira. Assumindo com Saul Steinberg o papel de desenhista refinado e inteligente que não precisa ser engraçado da New Yorker, esse filho de judeus poloneses imigrantes pertence a uma importante geração que ingressou na publicação nos anos 1930, como James Thurber, Charles Adams, George Price, Gardner Rea e outros.

Pedant / Pedante

Bigot / Fanático

 

Steig, um moralista radical que acreditava na inocência humana – sempre corrompida pela sociedade – foi fundamental por introduzir uma postura nova na revista nos anos de New Deal e Depressão, ocupando um espaço até então inexistente: abordou a experiência das pessoas comuns e pequenos dramas das classes baixas, em contraposição ao aristocrático cartum de festas glamorosas da Jazz Age de Peter Arno. Nesses trabalhos desenvolveu seu mais tradicional estilo, de personagens sólidos, bem moldados, com nariz protuberante, dispostos sobre um fundo realístico. Apesar da contrariedade a valores tradicionais como a família, moralidade sexual repressora, rotina e censura, fazia um humor sensível e que exprimia calor humano e compaixão ao invés de agressividade. Não demorou para o artista, por outro lado, passar a desenvolver desenhos com uma abordagem totalmente inusitada, de tom mais sombrio e pessimista, cujo interesse investigativo procurava conferir expressão plástica às experiências do inconsciente. Apesar de elogiados, a New Yorker não quis publicá-los por considerar que os trabalhos não se encaixavam na revista. William não demorou, portanto, para lançar – três anos após sua estréia na renomada publicação americana em 1936 – o primeiro de muitos desses livrinhos com trabalho independente, o recém-apresentado “Sobre Pessoas”.

Affable man / Homem afável

 

Man obliged to be wary / Homem obrigado a ser receoso

 

O escritor e poeta Arthur Steig, seu irmão, salienta na introdução do livro o caráter “genuinamente crítico” dos desenhos, segundo ele “uma nova forma de arte”. Diferenciando-os dos surrealistas, percebe que são investigações do inconsciente de uma nova ordem, mais organizadas e relacionadas em termos específicos ao mundo real. De fato, o livro é pouco usual: cada página traz um desenho de uma pessoa cujas feições, vestuário, postura e – em muitos casos – características absurdas procuram expressar uma palavra ou frase referente a estados emocionais e de comportamento. A publicação aborda  105 desses estados e condições humanas, simples como “medo” e “solidão” e mais específicos como “memória de infância de uma senhora que trouxe doce”. O desenho de Steig ainda viria a mudar e variar consideravelmente no futuro, mas em “About People” ele não apresenta uma ruptura completa, mantendo uma certa volumetria dos personagens nos retoques em aquarela típicos dos desenhos publicados na New Yorker.

Pitiful people / Pessoas lamentáveis

The indignant one / O indignado

 

O que é novo nesse trabalho, de fato, é o tom sinistro e melancólico, evidente na feição de grande parte das pessoas desenhadas. São também originais as situações e elementos surreais e fantasiosos pouco presentes nos cartuns tradicionais, como a caixa de tamanho anatômico, cheia de adornos, usada como invólucro por um ser visivelmente atormentado, apenas com o rosto à mostra em um buraco circular, para ilustrar o termo “Homem obrigado a ser receoso”. Ou o amistoso “Homem afável”, deformado de modo contundente em um “João bobo” de contornos circulares, receptivo e, ao mesmo tempo, à mercê de qualquer mal-intencionado. Steig demonstra, nesses desenhos, amplo domínio no trato das expressões das figuras desenhadas, conferindo mesmo ao mais sorridente personagem um ar perturbador, seja na sutileza dos elementos acrescentados, seja na interação das frases com as peculiaridades do desenho.

The proud one / O orgulhoso

 

The ceremonious one / O cerimonioso

No entanto, o que torna esse livro antológico e particularmente especial é o uso de elementos abstratos para exprimir tais estados de espírito. Vale lembrar que em 1939 o trabalho de seu colega Steinberg ainda não tinha atingido a maturidade e sequer havia estreado na New Yorker, e apesar da precoce atenção às questões de arte e desenho, o artista de origem romena levaria ainda muitos anos até começar a elaborar as impressões digitais e outros elementos gráficos objetualizados criados no começo dos anos 1950. Essas formas abstratas coisificadas de Steig se apresentam, portanto, como uma abordagem pioneira – e inesperada, se levarmos em conta o que o cartunista fazia para a New Yorker. Alguns dos desenhos do livro apontam esse caminho sem atingi-lo completamente, como a manequim sem cabeça de “Personalidade hostil”, um objeto que ainda sugere a figura humana. Já as “Pessoas lamentáveis” surgem totalmente objetualizadas em um varal com bolinhas penduradas por barbantes, distantes de qualquer antropomorfismo.

The sly one / O dissimulado

Show – off / Exibido

 

The awkward one / O inadequado

 

 

Há uma sequência nas páginas centrais do livro que exploram figuras de formas soltas, a princípio totalmente sem sentido, que acabam por adquirir significado evidente quando relacionadas às frases. Em muitos casos são objetos abstratos e com volume, cujos contornos decorrem de movimentos sugeridos pelo título que os acompanha, como “O dissimulado”, que aparentemente se direciona ao canto superior direito para depois dar uma meia-volta circular. O resultado é uma figura estranha e absurda, um objeto tridimensional pouco usual, que no entanto exprime claramente através de suas características formais o comportamento sugerido no titulo – atribuído a uma pessoa. São mais ou menos dez os desenhos que abordam essa experimentação, com soluções mais orgânicas, e outras mais “gráficas” (mais atemporais, com menos profundidade e volume), como o “Dilema de duas pessoas” e “Exibido”, onde a linha prevalece.

Dilemma of two persons / Dilema de duas pessoas

The sycophant / O bajulador

 

William Steig, no entanto, não levou as abordagens gráficas e abstratas de “About People” adiante. Nos subseqüentes livros independentes como “The Lonely Ones” (1942), “All Embarrassed” (1944), “Persistent Faces” (1945), manteve seu foco pesquisando o melhor modo de um desenho exprimir as peculiaridades, o comportamento e as patologias do homem, mas com experimentações de outra ordem. Em “The Lonely Ones”, por exemplo, enveredou por um estilo com pitadas de expressionismo, em um traço mais rude e sem aquarelas, relacionando um estado da mente a figuras inesperadas, mas longe de serem pessoas sem cabeça, troco e membros. No transcorrer de sua carreira manteve o estilo mais tradicional, conciliando-o a outras abordagens: o traço expressionista e psicológico, os desenhos com toque de art naif e desenho de criança, o rabisco solto que nasce como um esboço, etc. Alguns de seus mergulhos criativos ficaram isolados e sem posterior desenvolvimento, verdadeiras jóias pontuais de uma carreira multifacetada e nem sempre coerente.

 

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Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo. http://www.buenozine.com.br

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