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Talento, dom e vocação

12/12/2011 por Spacca

Acho que foi na última entrevista do Laerte, que ouvi esta opinião; mas já tinha ouvido muitas vezes antes.
É a teoria do “todo mundo desenha quando criança; mas a maioria para, e alguns continuam até a vida adulta”.
Ela aparece, geralmente, em contestação ao conceito de “dom”:
- Puxa, que talento. Como eu queria desenhar assim. Mas eu só sei fazer casinha e homem-palito. Isso é um dom…
- Não, todo mundo é capaz de desenhar. Só que a maioria para na infância, e eu continuei treinando…

“Dom” é um presente, uma doação; um talento ou habilidade especial.
E por meio desta capacidade, quem tem se distingue dos outros.
Presente de quem? De Deus – ou da loteria genética do DNA. Não temos espaço nesta crônica para aprofundar questões teológicas…
Seja como for, o talento é um fato. Algumas crianças realmente têm uma inclinação mais forte para as artes, ou esporte, ou matemática etc.
Se não sabem de onde veio, sabem para onde vão: os primeiros sucessos parecem definir desde cedo um caminho profissional.

Eu sempre fui o “desenhista”. Desde os 4 anos sinto compulsão para desenhar, e com 5 e pouco desenhava melhor que a maioria dos adultos que eu conhecia.
Não desenhava um cachorro genérico; fazia um buldogue babando, daqueles do Tom e Jerry, com coleira de pregos. Meio torto, desporporcional, mas fazia.
Desenhava como criança brinca: fazendo barulho do canhão, das explosões, dos dinossauros.
Minha mãe achava que eu ia ser engenheiro. Meu pai sabia que eu não iria fazer o que ele fazia – desenho técnico – porque meu traço já era humorístico.
(é engraçado: o chargista Novaes aprendeu a desenhar igual ao pai, Otávio; eu fazia questão de ser diferente – cada um a seu modo, ambos competíamos com os nossos velhos…).

Só fui encontrar outros desenhistas natos na adolescência, num concurso promovido pela Ford.
Num grande estádio, foram reunidos umas 200 crianças e adolescentes, e lá no meio estava o Céu d’Elia, 14 anos, um ano mais velho que eu.
O talento precoce mostra que, antes mesmo da “parada geral”, algumas crianças já desenham melhor que as outras; ou têm alguma capacidade paralela que ajuda o desenho, como poder de concentração; ou tiram disso algum benefício, prazer ou estado de espírito (tem gente que desenha como se estivesse relaxando…).

O incentivo do meio social não é uma explicação satisfatória. Primeiro, porque uns respondem aos estímulos externos e outros não.
Segundo, porque alguns talentos florescem protegidos pela família e dispõem de recursos e incentivos; enquanto outros, ao contrário, é justamente o vento contrário que os ajuda a decolar.
Mesmo os que encontram condições favoráveis, criam os seus próprios desafios.
Quem tem gosto pela leitura, pouco a pouco se enjoa dos livros fáceis e busca novos patamares de dificuldade.

Que a maioria para de desenhar, é verdade: e estaciona num nível muito medíocre – abaixo do que seriam capazes de fazer, se achassem que valeria a pena.
Aprendem logo a copiar desenho de quem não sabe desenhar: aqueles gatos com círculo e dois triângulos; a casa que parece uma caixa de sapatos; o inevitável laguinho com peixes em forma de papel de bala e patos em formato de número 2.
(enquanto escrevia estas linhas, lembrei dos artigos do Daniel Bueno e dos artistas que ele aborda: artistas como Steinberg querem evitar, por um lado, o desenho naturalista e eficiente, adulto, e por outro, recuperar a criança ANTES de aprenderem os modelos estereotipados; o importante não é desenhar as coisas como são, mas o conceito das coisas, e aquilo que nos faz capaz de desenhar as coisas, o próprio desenho; volto mais um pouco na memória, e lembro do prazer antigo de simplesmente riscar a Bic no papel e ficar ouvindo o rabisco que as espirais vão fazendo…).

Isto ficou bonito, mas preciso voltar ao fio da meada: o talento precoce existe, e ele cria uma diferença.
Ter talento pode ser incômodo ou parecer injusto para quem o possui; se é “dom”, por que um ganhou e os outros não?
Parece mais “democrático” dizer que todo mundo pode desenhar, mas só uns continuaram.
Ou que “todo mundo tem um talento, só precisa descobrir qual é”. Mas muitos não descobrem – parece que descobrir o próprio talento também é um talento, que nem todo mundo tem…

E tem os visivelmente talentosos que não usam o talento que possuem.
Conheci alguns: ótimos cantores, imitadores, humoristas natos… que, para meu desespero, não seguiram a vocação.
Por quê? E por que outros, nem tão bons assim, tiveram o que eles não tinham: ambição; perseverança; casco duro para aguentar as quedas?

Talento, dom e vocação são, os três, termos de origem religiosa.
“Vocação” é chamado – vem de voz (vox, vocis), chamar (vocare). É um chamamento – à ação.
E talento, originalmente, era uma moeda romana, grande, pesava uns 30 quilos.
Virou sinônimo de capacidade humana por causa da “parábola dos talentos”, no Evangelho de S.Mateus.

Na história, um homem que vai viajar deixa com seus servos seus bens: 8 talentos.
Não reparte por igual, dá a cada um segundo sua capacidade: a um dá 5, a outro 2 e ao terceiro, 1 talento.
E viaja. Na volta, muito tempo depois, os dois primeiros servos mostram que fizeram o dinheiro render, duplicaram o valor.
E aos dois o patrão diz: “Servo bom e fiel! sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei. Vem alegrar-se com o teu senhor.”.
Já o terceiro, com medo de perder o talento sob sua custódia, enterrou a moeda no chão.
Com ele, o patrão foi severo: “servo mau e preguiçoso…”. Tirou-lhe o talento e deu ao outro que tinha dez, e mandou que o lançassem”fora nas trevas”, onde “haverá choro e ranger de dentes”.

Voltando ao nosso mundo laico e pagão: o talento, não se pode negar, é distribuído desigualmente. Não é algo que “todo mundo tem” na mesma medida.
Aquela menina que canta afinado aos 6 anos, aquele garoto que é um novo Garrincha, são casos raros.
E justamente por ser raro, o talento é um valor, e não pode ficar parado.
Tem que ser trabalhado, multiplicado, desenvolvido, gerar frutos.
Se o “dom” fosse só um presente, seria um privilégio; mas a pessoa que tem um dom inato não tem como dividi-lo o dom com os outros, nivelar as capacidades para camuflar a desigualdade.
É intransferível; só trabalhando e desenvolvendo a vocação, é que ela se torna um “bem social” do qual os outros podem usufruir.
Sufocar uma vocação – nossa ou a dos outros – bem que merece “choro e ranger de dentes”…
(De onde deduzo que a “vocação de desenvolver vocações” – o trabalho do professor – é algo muito especial).

Esconder, negar o dom, é negar para si e para os outros aquilo que, misteriosamente, ganhamos para que fosse colocado em movimento.
De esboço em esboço, vamos ganhando contornos cada vez mais definidos…
e temos a vida inteira para fazer a nossa arte-final.

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SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D.João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com/

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