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Procura-se um cartaz

16/06/2012 por Daniel Bueno

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O espaço acima não está vazio por erro do colunista ou de quem postou o artigo. Sua função é receber futuramente uma imagem, como uma figurinha a ser colada sobre uma área determinada na página de um álbum. Seria a figura de algo que sabemos ter existido, mas cuja aparência não é atualmente conhecida: se perdeu no tempo, sobrevivendo talvez na memória de quem uma vez a viu, e nas lembranças ou arquivos de seu criador Alexandre Wollner (1928 -). Refiro-me aqui ao cartaz da exposição do artista romeno naturalizado americano Saul Steinberg (1914-1999) no Museu de Arte de São Paulo em 1952, em São Paulo. Não é qualquer coisa, pois essa foi uma das primeiras mostras do famoso desenhista da New Yorker, precisamente a sexta, após exibições em Nova York, Roma e Londres. As informações relativas ao evento vêm sendo levantadas há tempos, desde o início de minha pesquisa de mestrado “O desenho moderno de Saul Steinberg: forma e contexto” (2007). A recente exposição “Saul Steinberg: as aventuras da linha” (2011), ocorrida em São Paulo e Rio e organizada pro Roberta Saraiva, cruzou dados obtidos por mim e pela curadora, gerando o artigo “Diário de Viagem – Steinberg no Brasil, 1951-1952”, publicado no catálogo. Fotos, cartões postais, inúmeros esboços de cadernos de viagem, tickets, telegramas, e outros tipo de registro compõem a documentação do episódio. Não aparecem nessas pesquisa, no entanto, dois objetos usualmente representativos de exposições: o cartaz e o catálogo. De fato, o MASP não fez um catálogo da antológica mostra. Mas era estranho, nesses anos todos, nada ter sido encontrado sobre o cartaz. Era conhecido apenas um convite para a abertura da exposição, com o desenho de um dos notáveis trens criados pelo artista no período.

Pois recentemente me deparei com a informação de que a exposição teve um cartaz, elaborado não por qualquer um, mas pelo reconhecido designer. Para quem não sabe, Alexandre Wollner é um dos principais nomes na formação do design moderno no Brasil, tendo estudado de 1954 a 1958 na Escola Superior da Forma de Ulm – fundada em 1952 na Alemanha -, sucessora da Bauhaus e voltada para o papel social do design. Foi um pioneiro na profissão no país, testemunhou e participou de eventos fundamentais da história do design visual no Brasil. Criou em 1958, por exemplo, junto com Geraldo de Barros, Rubens Martins e Walter Macedo o forminform, um dos primeiros escritórios de design do país. E foi, também, fundador e professor do Instituto de Desenho Industrial do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e da Escola Superior de Desenho Industrial. Não deixa de ser uma agradável surpresa, portanto, constatar que a exposição de Steinberg no MASP recebeu um cartaz com o design de um profissional de tal envergadura.

Convite para a abertura da exposição de
Saul Steinberg no Museu de Arte de São Paulo, 1952.
© The Saul Steinberg Foundation

 

Voltemos ao começo dos anos 1950: o jovem Wollner, nessa época, ingressou como aluno no recém-aberto Instituto de Arte Contemporânea do MASP após vencer concurso com mais de trezentas pessoas. “Nunca havia pensado em design, nem sabia o que era isso. (…) Entrei e fui imediatamente procurar o Aldemir Martins e o Poty Lazarotto. Eles me acharam engraçado, logo ficamos amigos”, recorda. Como o estudante não tinha com o que se ocupar, passava o dia todo trabalhando no Instituto, tentando fazer gravuras. Começaram então as aulas de tecnologia de madeira, das pedras, do ferro, fotografia, laboratório. Segundo Wollner, ele não sabia nada, a princípio só queria desenhar. Foi durante essas divagações e lembranças sobre o início de carreira, publicadas no livro “Alexandre Wollner e a formação do design moderno brasileiro” (Cosac Naify), de André Stolarski , que o designer citou de modo passageiro o cartaz de Steinberg. “Comecei a perceber meu talento na gráfica e fui contratado pela Filmoteca do Museu de Arte Moderna – que ficava ao lado – para fazer os cartazes das sessões das terças e sextas-feiras. Fiz o cartaz de uma exposição do Saul Steinberg. Utilizei letras vermelhas e uma seta preta. Não sei por quê, ele ganhou a simpatia de algumas pessoas. Uma delas foi o Geraldo de Barros”, falou o designer na entrevista. Foi, portanto, com a ajuda do cartaz de Steinberg que Wollner recebeu convite do então vencedor do concurso do IV Centenário de São Paulo em 1952 para trabalhar com ele nos cartazes do Festival Internacional de Cinema e da Revoada Internacional.

Cartaz de Alexandre Wollner e Geraldo de Barros, 1954.

 

Alexandre Wollner, no entanto, não confere grande importância ao cartaz. Talvez por ter sido um trabalho de início de carreira, uma das inúmeras experiências de um investigativo estudante, sem apresentar  um passo significativo no desenvolvimento de sua obra. Cheguei a telefonar para o designer em busca de alguma imagem dele. Me apresentei, falei de minha pesquisa e da participação na exposição de Steinberg em São Paulo e no Rio, que acontecia naquele momento. Receptivo e atencioso, Wollner prometeu procurar material naquele final de semana. Voltei a ligar na segunda-feira, mas o designer, já não tão disposto, disse não ter achado a foto que procurava. E exprimiu um certo desinteresse pela busca, questionando a relevância do cartaz. Deixei, desse modo, o assunto por isso mesmo. Mas acho que não custa colocar todos a par da existência desse trabalho. Vai que alguém, algum dia, esbarra nessa foto – eventualmente até um pesquisador. Ou tem a oportunidade de conversar com o designer sobre o tema, em situação mais conveniente. Caso ninguém encontre mais nada, de qualquer modo, fica aqui exposto o espaço em branco, para ser preenchido pela imaginação dos admiradores do desenho e do design.

 

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Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo. http://www.buenozine.com.br

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