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Meu encontro além da vida com o cartunista Belmonte

24/04/2012 por Spacca

MEU ENCONTRO ALÉM DA VIDA COM O CARTUNISTA BELMONTE

É raro guardar a data exata de um encontro, mas aqui está: 17 de fevereiro de 1991, anotada na primeira página de um livro.
Eu estava no Centro Espírita Auta de Sousa, na rua Loefgreen em São Paulo, perto do metrô Santa Cruz (hoje situado na rua Mairinque 229, Vila Clementino, segundo informações atualizadas da filha de Brasílio, Fernanda).

No meu colo, um livro em francês com muitos desenhos – “A Tipologia e suas aplicações terapêuticas” – além de chargista na Folha, eu era astrólogo amador, e buscava a correspondência entre caricatura e tipos planetários.
Na parede, retratos de Allan Kardek, Jesus Cristo e o espírito Emmanuel. A tarde ia caindo e os compridos bancos de madeira iam sendo aos poucos tomados por gente simples e esperançosa.

Estava lá para consultar um “pai de santo alemão” – brincadeira minha, na verdade tratava-se de um médium kardecista chamado Stig Roland Ibsen, que aliás era sueco.
Stig era velho, magro e sizudo – um típico saturnino, segundo meu livro. Ele era editor e proprietário da Livraria Boa Nova, especializado em livros esotéricos, muito pitorescamente situado na rua Aurora, do lado do sebo Treze Listras e ambos entre dois teatros de sexo explícito. Era como um templo de espiritualidade racional e laica, numa rua de pecado brega e cintilante.

Não sei como conheci Stig, se fui primeiro à livraria, ou se o procurei por indicação do Brasílio. Brasílio, como vários desenhistas que gravitavam em torno do professor Ismael dos Santos, era espírita.
E ele me falou desse Stig que, incorporado por um espírito, detectava doenças examinando a “aura” e dava conselhos.

Então fui ao centro. Começaram as palestras; uma mulher falou em termos vagos sobre caridade e amor ao próximo – aquela espiritualidade cristã bem intencionada e meio óbvia dos espíritas.
Quando falou Stig, porém, o estilo era mais seco e exato; falava como que de uma realidade objetiva, bem Kardek, do espiritismo como ciência positiva.
Depois, retirou-se. O povo fez fila e começou a se dirigir ao salão vizinho.

Lá estava Stig, ao lado de outras pessoas que davam passes e atendiam. Num outro canto, um grupo de oração, para manter o Centro “energizado” e protegido por “correntes do bem”.
A fila andava, fui chegando mais perto. Na minha vez, Stig – já incorporado, mas sem muitas alterações visíveis, apenas um jeito mais autoritário e direto de falar – fez passes ao redor do meu corpo, com gestos amplos que terminavam no chão, como quem lustra um corpo maior, invisível. Sentei à sua frente.

Ele me disse para ter cuidado com minhas áreas sensíveis – digestão, estômago. E mais algumas coisas de saúde que não me lembro.
Então ele me disse:

- Tem um espírito que está sempre ao seu lado. É Belmonte.

Belmonte?! A princípio isso me envaideceu. Sabia que Belmonte havia sido um importante chargista político em São Paulo, quando a Folha ainda se chamava Folha da Manhã.
Conhecia seu livro de cartuns da Segunda Guerra Mundial Caricatura do Tempos, e sabia que fora um dos mais conhecidos ilustradores de Monteiro Lobato.
Prossegue Stig:

- Sim, Belmonte. Ele sempre te ajuda nos desenhos, especialmente quando você desenha os olhos, que é quando você desenha mais rápido e com mais certeza.

Hein? Confesso que fiquei decepcionado. Meu desenho era o oposto do desenho do Belmonte… Eu tentava fazer uma mescla de Henfil, Glauco e Tex Avery.
Meu traço era muito dinâmico, não tinha nada a ver com o Belmonte – os desenhos durinhos, as posições estáticas, a finalização paciente e minuciosa.
Aliás, nao fazia muito tempo que havia recebido, na redação do jornal, um rapaz que foi me mostrar desenhos e que era fá do Belmonte, a quem imitava.
Eu havia dito a ele que achava Belmonte muito durinho, e vi em seus olhos indignados que eu havia jogado pedradas em seu ídolo.
Agora, ante a revelação de que Belmonte era meu tutor espiritual, eu me sentia culpado. Além de tudo, ele deve ter ouvido o meu comentário e sabia o que eu pensava dele…

 

- Tem mais uma coisa (alguns médiuns falam como se estivessem ao telefone com uma terceira pessoa). Ele quer que você vá ao último andar do Edifício Itália. Lá tem um restaurante, e ele quer que você vá lá.
- Para quê? –
perguntei eu.
- Não sei, só sei isso.

Acabou a sessão, tomei um copo de água benzida, e saí no ar frio da noite.
Qeu coisa. Belmonte… será? Será que vida de espírito é assim, ficar instruindo os “encarnados” aqui na Terra? Não têm outros afazeres “lá em cima”?
E que negócio é esse de dizer que os olhos que eu faço têm a influência de Belmonte?
Bem, pelo menos – tentava racionalizar – Belmonte ilustrava os livros do Lobato, que eu sempre quis desenhar em quadrinhos, então, alguma ligação comigo tem.
Mas nem o Lobato de Belmonte era o meu preferido – eu gostava era do le Blanc…

Terá Stig dito o nome de Belmonte apenas porque sabia que eu era cartunista da Folha, e Belmonte, um cartunista do seu tempo?
Sim, fazia parte do seu repertório. E comparar-me ao desenho de Belmonte pode ser um erro de amador, que em vez do traço vê a função.

Claro que fui ao restaurante do edifício Itália. Sentei, comi, olhei a vista, fiquei “atento” para ver se captava alguma coisa diferente – alguma mensagem, presença…
Nada. Servi-me com a indiferença de quem vai ao restaurante sozinho, fiquei uma hora no máximo, e saí. Nada de mais.

Passaram-se os anos. Saí do jornal, voltei, saí de novo, faço publicidade, livros infantis, começo a ilustrar para a Companhia das Letras.
Perto da virada do milênio, com o quadrinhista Newton Foot, idealizo um projeto sobre HQs sobre História do Brasil, que não foi para frente.
Eram histórias satíricas, no estilo da Níquel, sobre um fundo de verdade.
Aos poucos, o tema histórico vai ganhando importância na minha carreira. Dois projetos, o do Santos-Dumont e o do Lobato, vão ficando mais definidos.
Publico o Santô em 2005. Emendo com o Debret, este dá origem ao D.João Carioca e hoje, pulando Jubiabá, estou no meu quarto álbum histórico, sobre o D.Pedro II.

Virei um “quadrinhista histórico”, bem longe do meu estilo “Glauco/Tex Avery” das charges da Folha.
Ora! o que é o destino.
Vejamos o Belmonte.

Além de ilustrar diversos livros paradidáticos sobre História do Brasil (Meu Torrão, A Bandeira das Esmeraldas e História do Brasil para Crianças de Viriato Corrêa) ele também escreveu e ilustrou No Tempo dos Bandeirantes. Tenho a segunda edição, de 1940.
Os desenhos mostram bandeirantes muito arrumadinhos para o nosso gosto de hoje, como se fossem mosqueteiros de filmes de Hollywood.
Era a referência de reconstituição histórica de então; descontando isso, são desenhos muito minuciosos e precisos, apoiados em sólida pesquisa em museus e viagens pelo interior paulista, que até hoje servem de referência para a maioria das ilustrações didáticas sobre o tempo dos bandeirantes (o ilustrador de hoje só precisa deixar as roupas um pouco mais rústicas…).

Belmonte fuçou fontes primárias como as Actas e o Registro Geral da Câmara da Vila de S.Paulo em busca de histórias interessantes, revirou inventários e testamentos para saber que objetos e pertences compunham a vida daqueles personagens seiscentistas, e produziu um livro que pode ser muito chato ou fascinante, depende de quem lê… não é para qualquer um, o leitor precisa desejar participar de um colóquio com almas nobres e elevar-se até elas. Como seu personagem Juca Pato, Belmonte escreve cheio de cerimônias, todo engomadinho, de terno e camisa de punhos abotoados.
Pelos padrões atuais é inimaginável um chargista de imprensa, habituado a CPIs e mares de lama, começar um livro assim:

De modo que, em circunstâncias diferentes, não tem outro cartunista mais parecido comigo – não na aparência, mas na essência – do que Belmonte.
O mesmo respeito pela pesquisa, pelas fontes históricas. Um certo pedantismo – reconheço…
O interesse comum pelos mesmos temas. A mesma curiosidade pelos modos de vida passados.

Continuo não enxergando semelhança entre nossos estilos, mas é certo que meu desenho acalmou-se, ficou mais cuidadoso.
Porém, não tenho intenção nenhuma de escrever um “livro de História” – o meu negócio é fazer gibi mesmo, gibis metidos, até eruditos, mas gibis.
Acho que consegui, mais que o Belmonte – e com a inspiração dele? – integrar a pesquisa histórica ao meu trabalho principal.

Não sei se foi o Lobato mesmo, ou um velho jornalista amigo meu – Paulo Zingg – que disse que o Belmonte desenhava bandeirante com a cara de Getúlio Vargas
(por cacoete profissional ou crítica velada).
Bandeirante não achei, mas achei um padre e a Dona Benta com cara de Getúlio, e um bandeirante muito parecido com Joseph Stalin.

Prefiro acreditar que foi sem querer… um dia, eu tiro isso a limpo com ele.

 

 

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SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D.João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. jubiaba.blogspot.com

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