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Inspiração

31/01/2012 por Spacca

Thomas Alva Edison, que inventou a lâmpada e o gramofone, foi também o inventor deste provérbio famoso, “o gênio é um por cento de inspiração e 99 por cento de transpiração” – que é um elogio do esforço, não da inspiração.
A frase pegou tão bem como a própria lâmpada elétrica, que virou símbolo de idéia genial.

O dito se aplica muito bem ao próprio Edison: para inventar a lâmpada, ele teve a idéia de colocar um filamento incandescente dentro de um bulbo de vidro.
Mas até conseguir o filamento ideal, testou mais de 3.000 protótipos. Ou seja, fazer é que são elas.

No caso do inventor, “inspiração” é uma idéia, um estalo. No mundo dos desenhistas, onde encontro um conceito parecido é na arte dos cartunistas e chargistas.
Porém, o chargista não precisa suar tanto quanto Edison, que chegou a registrar 2.332 patentes e, se não inventou também o desodorante, devia feder um bocado.
Pelo contrário, o humorista gráfico não precisa mostrar tanto serviço depois da idéia concebida – muitos, como Henfil fazia, entregam ao público a idéia em traços precisos e econômicos, que certamente não custaram 99 vezes mais que a idéia.
Talvez o suor do cartunista venha antes. Eu lia 5 horas de jornal, antes de criar uma charge que eu desenhava em 20 minutos. Mas isso era quando eu não estava inspirado…

De vez em quando alguém pergunta para o chargista de onde vem sua inspiração. E sempre vem, do chargista ou do próprio perguntador, a velha resposta surrada e pouco inspirada: no Brasil (ou na política), inspiração é que não falta, ho, ho, ho…

Até aqui, falei da inspiração-idéia. Ora, a idéia no caso da ilustração não é o mais importante; uma idéia ou situação banal podem ser maravilhosamente desenhadas.
Talvez o equivalente ao estalo de Edison seja a escolha dos símbolos e o layout, a composição. Mas a execução que se segue até o desenho ficar pronto não é mera consequência do esboço.
Durante todo o processo, o ilustrador precisa zelar pelo bom traço, ou estar aberto a acasos felizes. A ilustração é como o programa do Chacrinha, acaba quando termina.

Portanto, no caso da ilustração, e talvez em todas as artes, em vez da inspiração-idéia, talvez seja mais importante falar de um estado inspirado.
E isto existe mesmo: podemos ter o tal do “dom” ou talento, treino, experiência … e na hora de finalizar, faltar inspiração: o desenho sair duro, automático, burocrático.
Nem sempre conseguimos, como dizem os futebolistas, “dar o melhor de si”.

A diferença entre “dom” e inspiração é que “dom” é uma propriedade, e inspiração é um estado.
Revela-se na performance. Nem sempre estamos inspirados; muitas vezes, conseguimos apenas ser competentes e não fazer feio.
Não sei se todo mundo consegue descrever a inspiração em palavras, até porque, nessas horas, o artista só presta atenção no que está fazendo.
Eu procuro perceber como é estar inspirado e como é não estar, até porque a inspiração frequentemente me falta.

No estado inspirado, o desenho é executado com muita precisão e naturalmente, sem esforço; as escolhas são felizes; a atenção é concentrada e relaxada ao mesmpo tempo; estamos “inteiros”, não dispersos; continuamos criando durante o processo, improvisando pequenos detalhes; não olhamos o relógio, podemos fazer em pouco tempo ou ficar o dia inteiro sem perceber. Estamos no nosso melhor rendimento.
É eficiente e prazeiroso ao mesmo tempo; é lúdico e lúcido, consciente e inebriante.

O estado inspirado é raro; na maior parte dos casos, faço o possível para trabalhar com competência, atender satisfatoriamente o cliente e honrar a assinatura.

Por outro lado, há muitas maneiras de não estar inspirado, ou pior, de estar “desinspirado”: quando faço um desenho mecanicamente, com fórmulas prontas; quando estou fazendo algo “só para pagar as contas”; quando trabalho contrariado, porque o cliente pediu uma modificação que estragou a idéia original ou escolheu o pior layout; ou ao contrário, estou fazendo um trabalho a que atribuo tanta importância que “trava”, e fico buscando o melhor layout por horas e horas, como uma mosca batendo no vidro de uma janela fechada.
Ou então, estou disperso e outras coisas me chamam, diversões ou outros projetos, e tudo no ambiente me chama a atenção, menos o papel em branco; ou ainda, quando finalizo além da conta, e estrago um desenho que já tinha ficado bom (que raiva!); ou quando, no meio de um trabalho em andamento, percebo que escolhi uma solução complicada, e que não sei tanta anatomia ou perspectiva quanto esse layout exige; e quando atravesso uma fase tediosa do processo, como apagar borracha ou selecionar espaços com a varinha mágica do Photoshop…

Por tudo isso, persigo o estado inspirado. É muito melhor, é mais fácil, não cansa e dá melhor resultado.
Como todas as coisas boas da vida, não se obtém por puro método ou controle, nem se realiza quando nos esforçamos.
Pelo contrário, quando fazemos esforço excessivo, é sinal de que a inspiração está longe.

Por favor, não desdenhem da imagem da fadinha ou musa que faz “plim” e inspira o artista…
Sim, eu sei que artista tem que ralar, e muita gente faz questão de explicar para o leigo (e para o cliente) que nossa arte é difícil, exige tempo e esforço, e é uma profissão como as outras.
Mas ultimamente tenho achado mais vantajoso, e mais honesto, dizer que o valor de um desenho não está no tempo que demorou para ser feito, mas em sua resolução eficaz e feliz, quer tenha demorado horas ou semanas.
A fadinha que faz “plim” nas nossas cabeças é uma boa metáfora para esse estado fugaz, que fica borboleteando por aí e não pousa, se estivermos de mal com o mundo e com a prancheta.

Alguns psicólogos chamam o estado inspirado de “congruência”, uma espécie de harmonia e integridade interior, uma inteireza, um alinhamento de pensamento, sentimento e ação.
Para finalizar, listo abaixo algumas dicas de ações ou atitudes que podem induzir ao estado inspirado (ou – veio uma inspiração agora – “harmonia em movimento”).
Nem tudo funciona para todo mundo, nem funciona todas as vezes; recomendo que se aprenda a reconhecer o próprio estado inspirado, e as coisas que podem ajudar a entrar nele, ou ele em você:

1. NOSTALGIA – nos momentos de colorir desenho, gosto de lembrar do meu primeiro emprego manchando layouts, ou antes, de quando estava treinando e aprendendo. Músicas que ouvia na época me ajudam a resgatar o fogo dos iniciantes.

2. PEQUENAS MALDADES – já cortei o tédio de um trabalho burocrático com pequenas e inofensivas brincadeiras escondidas no desenho, citações, “easter eggs”. Ou como protesto, direito de espernear. Certa vez, desenhei uma Branca de Neve com oito anões, em protesto contra uma série de correções e ajustes absurdos. Mais recentemente, num artigo claramente criticando só a classe política tucana, desenhei discretamente o corrupto com quatro dedos na mão esquerda. Corrija esta, otário :)

3. EXPERIÊNCIA DOS SENTIDOS – é desenhar prestando atenção nas cores, nas formas e nos gestos. Esquecer o conteúdo, ficar no prazer sensorial de fazer.

4. HONRAR O MESTRE – é lembrar que a nossa arte foi construída ao longo dos séculos por pessoas fantásticas, que elevaram o desenho e a pintura a um estado sublime. É exatamente o oposto de quem pensa que cada escola superou a anterior, e que a fotografia superou Dürer, Rembrandt e Gustave Doret.

5. AJUDAR O CLIENTE NO QUE ELE PRECISA – não precisamos ser geniais. Por que não, simplesmente, dar ao cliente o que ele precisa? Se uma criança me pede um desenho, em vez de um d.João ou Santos-Dumont, talvez ela fique mais feliz com o Picapau ou a Mônica. Quem disse que eu sou tão especial assim? Fazer menos, com sinceridade, pode ser transformador. É uma espécie de “terapia da humildade”.

6. OBJETIVO NOBRE – trabalhar para uma boa causa, para aquilo que se acredita, pode ser um bom estímulo. Mas é uma motivação extrínseca, fora de você; além disso, não está em nosso poder fazer só trabalhos bacaninhas e voluntários, se bem que, hoje em dia, existe um próspero mercado de arte engajada, sustentável ou sustentado…

7. DESENHO SEMPRE NOVO – isto é uma tentativa pessoal de quebrar o paradigma de “o rough era melhor”. É procurar enxergar cada etapa como algo que merece ser feito com criatividade. Encarar a finalização como “finalização” pode matar a espontaneidade do primeiro traço. Desenhar é o tempo todo uma performance. Colorir também é desenhar.

8. OBEDECER – Tentei parar em sete (número da perfeição ou conta de mentiroso), mas este aqui se impôs… É o contrário do anterior: é obedecer o primeiro rough, como um artesão obedece ao modelo. É ser o seu próprio assistente. É mais estar atento, do que ser criativo. Ou ainda, ouvir e obedecer à intuição (talvez ela te mande fazer outra coisa, desobedecer o rough). É “desenhar de ouvido”. É fazer de conta, e acreditar, que a fadinha, ou algo assim, existe.
Colocar-se em condição de obediência é assumir que “algo” vai te ajudar no caminho. O passivo pressupõe o ativo. Se você ficar pensando muito, falando muito, não vai conseguir escutar os pitacos da intuição. Ela fala baixo e delicadamente, e mal se pode ouvir o bater de suas asas.
Se eu desenhar de olhos e ouvidos bem abertos, talvez, com sorte, ela me honre mais uma vez com a sua presença.

E não deixo de agradecer…

 

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SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D.João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com/

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