SIBSIB

Humor sem frescura

06/03/2012 por Daniel Bueno

“…no melhor Jaguar existe o prazer purificado do humor pelo humor”
(Paulo Francis, prefácio de “Hay Gobierno?”, 1964)

Não é todo mundo que gosta de humor gráfico. É possível que um indivíduo pouco habituado à linguagem e cultura do cartum não dê grande valor à obra de Jaguar (1932 – ). Pois seu trabalho é antes de tudo voltado ao riso, tão desvalorizado quando falamos em hierarquia de valores. Riso este provocado por grafismos que, em sua obra, não afloram de um modo qualquer: para fazer com que suas piadas tenham efeito, Jaguar sabe como poucos sintetizar uma ideia em um desenho rápido e imediato, quase uma garatuja. Quem é blasé com o desenho de humor pode não perceber, portanto, várias dessas qualidades criativas – sempre a serviço do riso. Seu traço aparentemente desleixado, desprovido de firulas e excesso de acabamento, é coerente com a essência de seu humor, que nasce de uma postura crítica diante das coisas: Jaguar é cético, ácido, desconfiado, atento às imperfeições do Homem em todas as suas manifestações – apesar de acrescentar, com graça, que não detesta a humanidade, “poderia ser pior”. Seu posicionamento crítico é o de um desmistificador, que não cai em malabarismos para se autopromover. Jaguar não gosta de empetecar, nem o desenho nem a visão dos fatos, sejam mundanos ou politicos. Não consegue levar muito a sério nenhuma “máscara”, nenhum artifício que denote vontade de transcendência. Em seus excessos de desapego, por exemplo, nunca teve a preocupação de guardar seus inúmeros desenhos originais para a posteridade, jogando boa parte fora. “Eu não temo pela perda dos meus trabalhos porque eu quero que se dane! (…) …não ligo para isso enquanto estou vivo, quanto mais depois de morrer!”, disse uma vez em uma entrevista.

A falta de frescura é um de seus grandes trunfos: desbocados, seus cartuns são livres daquele zelo e pudor que tantas vezes inibe o humor. A frase “perco o amigo, mas não perco a piada” cai como uma luva para Jaguar. Pois o cartunista, desgarrado do mundo das aparências, não prima pela etiqueta, ao contrário: à primeira oportunidade, arrisca e desafia os limites da tosquice e deselegância. Ao mesmo tempo, carrega consigo um repertório de alto nível, fazendo com que seus cartuns exprimam uma mescla peculiar de escracho e refinamento gráfico. Apesar de dizer, tirando um sarro de si próprio, que não sabe desenhar direito, o traço de Jaguar é expressivo e inteligente, e em sua raiz podemos encontrar duas das mais significativas referências dos cartunistas de sua geração: Steinberg e André François. A obra do desenhista romeno naturalizado norte-americano Saul Steinberg foi apresentada por Millôr Fernandes aos colegas do Pasquim, e suas qualidades foram assimiladas, em especial o desenho sintético e “gráfico” que rejeita o acabamento virtuoso e gratuito e se coloca à serviço da ideia e da vontade de dizer algo. Nos cartuns de Jaguar, é sempre a ideia que vale para o humor prevalecer.

Apesar de eventualmente recorrer ao humor mudo, Jaguar explora apenas sutilmente determinados recursos de ilusão tão frequentes no trabalho de Steinberg. Também evita mergulhar em temas fixos e elocubrações intelectuais. Dentre os cartunistas da "geração Pasquim", talvez seja ele o que mais demonstra em seu trabalho a influência do André François cartunista, como o do livro The Tattooed Sailor (1953), pelo traço marcado – menos leve, ininterrupto e sinuoso que o de Steinberg – e humor corrosivo. Ao falar de uma influência direta, no entanto, Jaguar costuma citar o humor moderno dos franceses do Paris-Match como Chaval, Bosc, Mose, com destaque para o Trez, em suas palavras jocosas “o mais mediocre deles”.

Por mais que recaia na autodepreciação – bem-humorada, sem talvez levar isso tanto a sério -, o fato é que não é possível falar sobre a história das artes gráficas e do cartum no Brasil sem mencionar Sérgio Jaguaribe, o Jaguar. Vale lembrar que este boêmio artista, um ex-funcionário do Banco do Brasil, marcou época como um dos fundadores da antológica revista Senhor (1959) – foi o seu principal cartunista e permaneceu até o ultimo número da primeira fase da publicação – e do jornal O Pasquim (1969). Mas sua contribuição, como já expusemos aqui, vai muito além destes grandes feitos: seus cartuns anárquicos e caústicos, caracterizados por um traço irreverente e desleixado, estão entre os mais significativos já produzidos no país. Criou personagens antológicos como Gastão, o vomitador; Bóris, o homem-tronco; e o ratinho Sig, célebre e popular mascote do Pasquim. Dentre alguns livros publicados com coletâneas de seus cartuns merecem destaque “Átila, você é bárbaro”, “Hay gobierno” (em colaboração com Fortuna e Claudius), “É pau puro!”, e “Ninguém é perfeito”. Com uma produção fecunda de aproximadamente 30 mil desenhos desde sua estreia na imprensa em 1957 na revista Manchete - passando por publicações como Pif-Paf, Revista da Semana, revista Bundas, jornais Última Hora, Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã -, Jaguar vem nos ensinando como o progresso do espírito humano é praticamente nulo: “Nada, nenhuma religião, nenhuma política, nenhum governo, nenhuma revolução, nenhuma doutrina, contribuiu com algo para melhorar o espírito: o homem continua sendo o mesmo ser confuso e lamentável de sempre, mas a vida continua. Ninguém é perfeito, mas poderia ser pior”. Matéria-prima para os cartuns de Jaguar é o que não falta.

————

Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo. http://www.buenozine.com.br

 

Comments are closed.