SIBSIB

Flavio Motta e o vazio de Steinberg

17/08/2011 por Daniel Bueno

FLAVIO MOTTA E O VAZIO DE STEINBERG

Conheci o professor Flavio Motta em 2007, assim que concluí a dissertação “O Desenho Moderno de Saul Steinberg: obra e contexto”, defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Ele havia sido autor de dois belos textos sobre Steinberg em 1952 e pensei ser pertinente conversar sobre a passagem do artista pelo Brasil, abordada em minha pesquisa e em artigos para revistas. Explico: antes mesmo de ingressar no mestrado, enquanto preparava meu projeto de pesquisa, constatei que o desenhista de origem romena naturalizado americano Saul Steinberg (1914-1999), famoso pelos cartuns para a revista The New Yorker, havia visitado o país e exposto no MASP em 1952. Foi com essa informação que iniciei uma troca de material com a The Steinberg Foundation, por e-mail, em 2003. Percebi que pouco sabiam sobre o acontecimento, e que, pela falta de dados, não era conferido o devido crédito e importância à exposição de São Paulo. Ela simplesmente não aparecia na lista de mostras do artista. Nunca haviam tido notícia de um cartaz ou catálogo do evento. Passei então a levantar dados sobre o tema, como o conteúdo de cartas trocadas entre Pietro Bardi e Steinberg que encontrei no MASP e os textos de Flavio Motta, e enviar para a Sheila Schwartz, diretora executiva da fundação. Atenciosa, retribuía com material fundamental, como velhos artigos sobre Saul, coisas que nunca encontraria por aqui.  Depois de defender a dissertação em 2007, julguei que ainda havia muito a ser pesquisado. Procurei conversar com alguns personagens dessa história, como Flavio Motta: o professor de História da Arte era um jovem assistente de Bardi em 1952, estava no MASP desde 1947 e parecia ter participado de alguns encontros e passeios. Sabia por meio de terceiros que ele tinha fotos da viagem de Steinberg no Brasil. No mais, iria aproveitar a oportunidade para conhecer alguém que admirava, um intelectual cujas opiniões e reflexões me interessavam.

Motta já havia sido uma referência importante no meu TFG – Trabalho Final de Graduação, finalizado em 2001.  Confuso que estava com minhas ilustrações de início de carreira, em alguns casos com excesso de elementos, havia resolvido naquele momento me voltar para a síntese e a depuração do desenho. Foi um modo de tentar recomeçar e entender o que era fundamental nessa linguagem, e eventualmente “complicar” depois, com mais propriedade e quando isso fosse necessário. A proposta do TFG era precisa no objetivo e ao mesmo tempo totalmente aberta às experimentações: tratava-se de uma série de desenhos em seqüência, feitos em tinta preta sobre papel. O orientador, o professor Silvio Dworecki, levando em conta a abordagem do trabalho, sempre levantava nomes para pesquisar, dentre eles Flavio Motta e Steinberg. Motta é figura respeitada e citada por muitos na faculdade. Formado em Pedagogia pela FFCLH-USP em 1947, passou pelo MASP, Instituto de Educação Caetano de Campos, FAAP, e FAU-USP. Como bom sábio humanista, tem muitos talentos: o de professor, pintor, desenhista e jornalista, com ampla formação filosófica e pedagógica. Buscou sempre um conhecimento abrangente, uma grande amplitude no que aborda e pesquisa, atento ao essencial, e aproximando sensibilidade e razão. Além dos textos, são famosos seus desenhos de humor inteligente, sintéticos e feitos a traço, que nos lembram de Klee, Calder e do próprio Steinberg. Àquela altura já conhecia alguns deles, publicados em uma edição da revista Caramelo de 1993, organizada pelos alunos. Logo passei a retirar na biblioteca todas as pastas da estante de folhetos e monografias com seus desenhos e textos, além de trabalhos encontrados em meio aos livros, como o exemplar da bela “Love Story”. Trata-se de um intrigante livrinho com história de amor contada por imagens que mais à frente reaparecem de modo diferente, retrabalhadas com as matrizes da história linear e dispostas em novas seqüência.

Gato traduzido – 1973

Os desenhos de Motta, de modo geral, buscam a concisão de um personagem ou figura, sem recorrer a paisagens de fundo. O traço com freqüência lembra o dos trabalhos mais despojados de Steinberg, como as experimentações com linha publicadas no The Labirinth. E há também a construção de figuras singelas com contornos geométricos definidos por uma linha contínua que nos fazem pensar em Klee. Motta decerto aprendeu sobre síntese com Saul, mas há em seus rabiscos um humor próprio e um modo peculiar de, com freqüência, relacionar uma frase ao desenho. Em alguns casos a frase é irônica em sua trivialidade: finge enunciar algo banal e acaba por adquirir contraste com o modo como Motta graficamente dispõe as linhas desenhadas e cria uma ideia. O desenho intitulado “cão dormindo”, por exemplo, sugere o animal em pouquíssimos traços, com seu rosto sonolento apoiado justamente sobre a linha que define sua silhueta. Em outras situações um desenho inocente pode ganhar novo significado com a legenda, como no caso da singela pombinha sobre um minúsculo ponto servindo de ilustração para  a frase “pomba da paz caga em território inimigo”. Temos também ocasiões em que ambos os aspectos são surpreendentes, mesmo se vistos separadamente, como a frase ambígua “aluno sem perspectiva procura ponto de fuga” acompanhada de traços sintéticos que congregam ao mesmo tempo o aluno e o ponto de fuga da geometria. Enfim, tais “aulas de desenho” foram fundamentais para esse curto mas intenso período de aprendizagem do TFG, que acabou gerando os sessenta desenhos em seqüência denominados MEN TIRAS.

Motta foi receptivo à minha visita, que durou uma tarde inteira e se estendeu até o começo da noite, feita com o amigo e pesquisador Alex Miyoshi. Falou de Steinberg, leu o TFG na íntegra analisando cada palavra escrita e manteve sua conduta de “professor 24 horas”, nos levando a refletir sobre diversos temas e consultar livros e dicionários. Deixei minha dissertação com ele, que imediatamente dispôs sobre uma mesa com diversos outros livros à mostra. Dias depois me ligou: queria me emprestar um livro e conversar mais sobre Steinberg. Com as atribulações do dia-a-dia acabei não fazendo na época uma nova visita. Mas ficou uma frase dele, o tema levantado por telefone para reflexões que estavam por vir: Flavio Motta achava que o trabalho de Steinberg era “sobre o vazio”. Me senti, na época, despreparado para abordar o assunto, e isso talvez tenha contribuído para adiar um novo encontro. Foi ao reler seu belíssimo texto “Homo Ridens”, originalmente publicado no Diário de São Paulo em 1952 e republicado no catálogo da exposição “Saul Steinberg: as aventuras da linha”, organizado pelo IMS, que me deparei novamente com sua suposição, expressa com clareza.

De Chirico, Enigma da Chegada e a Tarde, 1911/12

 

Saul Steinberg, Subúrbio II, 1950-1951

 

DE CHIRICO E STEINBERG: ARRANJOS DE ELEMENTOS

Em seu texto, Steinberg é entendido com um crítico da nossa cultura, que através dos atributos da caricatura satiriza “o arranjo que o homem deu ao mundo”. Em seus desenhos, os estilos e elementos gráficos são absorvidos e parodiados – viram objetos manipuláveis, máscaras ou a própria paisagem – adquirindo novos significados em arranjos inusitados. Flavio prossegue: “tem-se a impressão que desse arranjo resultou uma espécie de grande jogo sem finalidade, a não ser o prazer do jogo”. Ou seja, o homem steinberguiano utiliza e vivencia todos esses elementos e estilos sem saber bem por quê, ignorando a escala de valores. Ausente da realidade, se entrega a automatismos, impossibilitado que está de se integrar num processo cultural. Pensei no assunto ao ler um livro sobre o artista Giorgio de Chirico (1888-1978). Assim como nos desenhos de Steinberg, as obras “metafísicas” do artista de origem grega naturalizado italiano trazem arranjos com elementos conhecidos, que ao serem dispostos e relacionados de modo pouco comum em determinado contexto acabam por perder seu sentido original. Há quem diga que De Chirico foi o primeiro artista da era moderna a reconhecer e traduzir a ambigüidade do mundo visível. Admirador profundo de Nietzsche, buscou na Pintura Metafísica, em obras desenvolvida a partir de 1910, a qualidade enigmática dos fenômenos terrenos no interior das coisas desse mundo, e não em alguma outra dimensão. Ao utilizar fragmentos de realidade apresentados em cenas inverossímeis cuja construção desafia a lógica, De Chirico traduziu a experiência do absurdo do mundo. Era o “mito moderno”: retratos de uma nova melancolia para expressar a perda de sentido e o sentimento de alienação experimentados pelo homem moderno.

De Chirico, Natureza Metafísica, 1914

 

Saul Steinberg, Hotel Pont Royal, 1961

Já foram feitas, anteriormente, comparações entre Steinberg e De Chirico, especificamente no livro “Saul Steinberg: Iluminations”, de Joel Smith, mas que repousavam sobretudo no modo como De Chirico dispunha a linha do horizonte no alto dos desenhos. Saul resolvia desse modo muitos de seus desenhos de começo de carreira, em cartuns criados para as publicações italianas Bertoldo e Settebello nos anos 1930: com a linha do horizonte no alto, havia o conforto do amplo espaço para dispor personages, objetos, construções e situações em todo o desenho, de cima abaixo. Uma vez que esse recurso era muito presente na arte produzida na Itália daquela década, é possível cogitar um tributo a De Chirico, que viveu e trabalhou em Milão de 1933 a 1934. É possível que Saul tenha visto, por exemplo, seu mural produzido no período para a Trienal de Milão, chamado La Cultura Italiana, no Palazzo dell’Arte.

Steinberg certamente absorveu o surrealismo francês, mas segundo o escritor e amigo Adam Gopnik, a teatralidade característica do movimento lhe causava repulsa. Talvez, portanto, tivesse ressalvas à obra de De Chirico também. De fato, são grandes as diferenças: enquanto De Chirico expõe enigmas que têm por princípio a negação de qualquer significado e carrega na atmosfera solene, dramática e melancólica, Steinberg aprecia a simplicidade e procura, com seu olhar de cronista e humor fino, aproximar os mais inusitados elementos de alguma idéia e comentário a respeito dos costumes e de sua autobiografia. Mestre da síntese, fala do vazio e brinca, ao mesmo tempo, com os jeitos e trejeitos do homem. Não sabemos se Steinberg realmente sofreu influência direta de De Chirico – o artista não tinha o hábito de citar referências, evitando também falar de Klee, Magritte e outros. De qualquer modo, a melancolia metafísica de De Chirico, elaborada na segunda década do século passado, ajuda a iluminar um aspecto do trabalho de Steinberg, tão enfatizado no texto de Motta: a porção um tanto triste de um artista que nos faz rir ao brincar e jogar com a realidade “desdobrando o próprio mundo” – um mundo em degenerescência.

Saul Steinberg, 1954

————

Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo. http://www.buenozine.com.br

Comments are closed.