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Documento: Nato, um cartunista chileno

25/11/2013 por Daniel Bueno
Nato quando tinha 35 anos.

Nato quando tinha 35 anos.

Era noite em Santiago, capital do Chile, e lá estávamos eu e mais um grupo de amigos abandonando um táxi que havia acabado de pifar. Logo conseguimos entrar em um novo carro e seguir para nosso destino, a casa do cartunista chileno Renato Andrade, mais conhecido como Nato (1921-2006). Não tinha ido ao Chile fazer contatos com artistas gráficos, mas os acasos da vida me levaram àquele inusitado encontro. Na verdade, a finalidade oficial da viagem era participar da quinta edição do ELEA, Encontro Latino Americano de Estudantes de Arquitetura, que naquele ano de 1995 conclamava os futuros arquitetos latino-americanos a se encontrarem na cidade litorânea de Valparaíso para ajudar a “revelar virtudes e construir a América”. Estava no terceiro ano de faculdade e, apesar de gostar de desenhar e participar eventualmente de salões de humor, não acreditava que viria a ser ilustrador. Encontrar pessoalmente um profissional do traço não era, portanto, algo habitual: havia a expectativa e a emoção de conhecer de perto um cartunista estrangeiro.

Transparência com desenho de Nato.

Transparência com desenho de Nato.

Original de Nato, criado para a El Pingüino.

Original de Nato, criado para a El Pingüino.

Entusiasmado que estava com o Chile e os amigos que conheci em Santiago antes do evento, acabei deixando um pouco de lado o encontro de estudantes. Uma dessas novas amizades era a Claudia Valeria, filha de Nato. Foi dela a idéia de nos levar – eu, meu amigo de faculdade PC, o Marcio Motokane e seu colega de trabalho (faziam a edição de um programa de TV no Chile) – para um jantar na casa do pai. Foi de fato um encontro muito agradável e animado, com o inevitável assunto do cartum e do desenho permeando as conversas, enriquecidas pelas lembranças daquele simpático senhor de 74 anos. Ele me mostrou originais e muitas publicações, colocando-me a par de sua produção, que eu até então desconhecia. Disse que para sobreviver também trabalhou como diretor de arte de revistas. Logo fui apresentado a vários de seus personagens, como Ponchito, Insolencio, Pelusita, Cachupín e muitos outros. Alguns não haviam sido criados por ele, como o náufrago Toribio, cujas inúmeras tirinhas publicadas na revista Can Can, no entanto, tentavam me convencer de que era Nato seu inventor.

Ponchito, original de Nato.

Ponchito, original de Nato.

Não demorei para perceber que seu desenho seguia um padrão definido, sem grandes variações, expressionismos e arroubos experimentais: o traço era comportado, calculadamente finalizado sobre o rascunho, e estava a serviço das piadas. Achei interessante o cartunista comentar que havia ingressado na profissão por acaso e aprendido a desenhar através de um curso por correspondência, pois antes disso “desenhava muito mal”. Notei também que ele colaborou, ao longo da carreira, para muitas revistas de humor chilenas como a Barrabases, El Peneca, Simbad, Estadio e El Pingüino. Algumas dessas publicações traziam trabalhos de Pepo, o criador do Condorito, e constatei a admiração de Nato por seu famoso amigo. Na ocasião, o cartunista ainda me presenteou com algumas revistas e livros de sua autoria, cuidadosamente autografados por uma mão fragilizada pelo tempo.

Toribio: tira de Nato publicada na Can Can n.64, 1966.

Toribio: tira de Nato publicada na Can Can n.64, 1966.

Tira de Toríbio criada por Nato para a Can Can n. 80, 1966.

Tira de Toríbio criada por Nato para a Can Can n. 80, 1966.

Não perdi o contato com a Claudia Valeria (hoje em dia uma escritora) e comecei a receber esporadicamente, ao longo do tempo, material sobre o Nato. Eram presentes generosos: livros e revistas com autógrafos e dedicatórias, fotos e originais do artista. Mesmo após sua morte, em setembro de 2006, continuei a receber pacotes da Valeria. Há, por exemplo, um livro e originais de Ponchito, personagem autobiográfico, um típico garotinho do campo chileno. Assim como seu personagem, o cartunista nasceu e viveu até os doze anos no campo, na pequena San Javier, situada na região do Maule e conhecida por sua produção vinícula.

Pituto, original de Nato.

Pituto, original de Nato.

Alguns dos originais enviados apresentam uma página com o desenho a traço, e sobre ele um vegetal com indicações das cores, que acabam, sem querer, gerando um belo efeito gráfico. Dentre as relíquias recebidas está uma edição da revista El Cabrito lançada em 1944. Logo na primeira página há uma tirinha do artista, ainda assinada “Renato”, um exemplo de seu início de carreira. A El Cabrito é justamente a primeira revista de humor a publicar os trabalhos do cartunista após sua contratação pelo diário La Hora, no início daquela década.

Original de Nato.

Original de Nato.

Tira de Nato na primeira página de El Cabrito n.153,  1944.

Tira de Nato na primeira página de El Cabrito n.153, 1944.

Nem todas as revistas enviadas incluem trabalhos de Nato, sendo algumas apenas exemplares de coleção. Em seu conjunto, de qualquer modo, expõem uma rica amostragem da produção de humor da época. São também muito pertinentes pela edição e projeto gráfico que apresentam. Muitas trazem páginas em tons monocromáticos ou com poucas e inusitadas cores. Além de divertidas propagandas, da visualidade retrô típica dos anos 50 e 60 permeando todas as publicações, chama a atenção os ensaios com mulheres de biquíni das páginas da revista chilena Can Can e El Pingüino.

À esquerda, tira de Toribio feita por Nato. Revista Can Can n. 85, 1966.

À esquerda, tira de Toribio feita por Nato. Revista Can Can n. 85, 1966.

Página dupla com desenhos de Nato, Can Can n. 80, 1966.

Página dupla com desenhos de Nato, Can Can n. 80, 1966.

Com todo esse material em mãos, resolvi mostrar não apenas as informações e o trabalho desse cartunista chileno que tive a honra de conhecer, como também um pouco da cultura visual dessas revistas. Uma retribuição à generosidade de Nato e sua filha, e um modo de colocar em circulação ricas informações que correram o risco de ficar relegadas às minhas lembranças e estantes.

Tira de Insolencio criada por Nato para Nato a El Pingüino n. 262, 1962.

Tira de Insolencio criada por Nato para Nato a El Pingüino n. 262, 1962.

 

PÁGINAS SELECIONADAS

Página dupla da Can Can n. 80, 1966.

Página dupla da Can Can n. 80, 1966.

Capa de Odduard para a El Cabrito n.153 ,1944.

Capa de Odduard para a El Cabrito n.153 ,1944.

Capa de Pepo para a El Pingüino n. 262, 1962.

Capa de Pepo para a El Pingüino n. 262, 1962.

Terceira capa Rico Tipo n.34, 1945.

Terceira capa Rico Tipo n.34, 1945.

Terceira capa El Cabrito n. 153, 1944. Autor não identificado.

Terceira capa El Cabrito n. 153, 1944. Autor não identificado.

Terceira capa de Rico Tipo n. 320, 1951. Autor não identificado.

Terceira capa de Rico Tipo n. 320, 1951. Autor não identificado.

Quarta capa de El Cabrito n.153, 1944. Autor não identificado.

Quarta capa de El Cabrito n.153, 1944. Autor não identificado.

Quarta capa da Rico Tipo n.34 julho de 1945. Desenho de Juan Dell Acqua.

Quarta capa da Rico Tipo n.34 julho de 1945. Desenho de Juan Dell Acqua.

Capa de Pepo para a Can Can n. 64, 1966.

Capa de Pepo para a Can Can n. 64, 1966.

Página com cartuns de Oski,  Rico Tipo n. 320, 1951.

Página com cartuns de Oski, Rico Tipo n. 320, 1951.

Contracapa da revista El Cabrito n. 153, 1944.

Contracapa da revista El Cabrito n. 153, 1944.

Capa de Divito para a Rico Tipo n. 320, 1951.

Capa de Divito para a Rico Tipo n. 320, 1951.

Capa de Divito para a Rico Tipo n. 34, 1945.

Capa de Divito para a Rico Tipo n. 34, 1945.

PS – Foi lançado em 2012 o livro “Nato, La sonrisa imborrable”, escrito pela Claudia Valeria e por Jorge Montealegre, jornalista e pesquisador do humor gráfico chileno.

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Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo. http://www.buenozine.com.br

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