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Desenho que vira verdade que vira desenho

26/08/2011 por Spacca

A palestra já estava quase no fim, a criançada estava numa algazarra.
Depois de desenhar Monicas e Picapaus, eu já me preparava para me despedir e agradecer, quando a professora lembrou-se de uma pergunta importantíssima, e deu um toque nada discreto a um aluno para que a recitasse:
- Qual-foi-a-influência-dos-seus-pais-na-escolha-da-sua-profissão?

Ora, disse eu, essa pergunta era de fato MUITO importante.
Há muitos casos de artistas que não receberam apoio dos pais, por ignorância ou falta de recursos, e que valentemente venceram os obstáculos e preconceitos e, por assim dizer, fizeram-se a si mesmos. Lembro-me de um filme que vi na infância, de um pastorzinho que desenhava a carvão nas pedras, e tornou-se um grande pintor.
Bem, eu não tenho essa espécie de biografia heróica.
Tive não só o apoio dos meus pais, como um desenhista dentro de casa.
Assim, não há vocação que não decole.

Meu pai, o Seu João, se parece comigo: careca desde jovem, cara redonda, canceriano nascido no mesmo dia – mas é baixo e troncudo.
Traz no nariz quebrado a recordação dos dias de pugilismo amador no Palmeiras, além da patinação artística.
Éramos – e somos – parecidos, na aparência e no temperamento, mas também, desde cedo, nos distinguíamos no desenho:
ele, usando régua e compasso, fazendo plantas e projetos em perspectiva; e eu, desde cedo orientado para o desenho de humor.

Competíamos, é claro. Ou eu competia com ele. Era fácil sair uma briga – por motivos bestas, um filme, uma ordem que eu questionava.
No desenho, eu fazia questão de me afirmar na minha especialidade, bem diferente da dele.

Lembro-me dele tentando me dar umas dicas de desenho, que eu sempre repelia com raiva e enfado.
Ele implicava comigo porque eu "segurava errado" o lápis ou caneta; dizia que, quando um dia eu fosse a uma escola de desenho, iam me obrigar a corrigir a má postura.
Quando comecei a estudar desenho realista, ele dizia "não adianta, mesmo desenhando sério, o desenho sai com um toque humorístico".
Mas nunca me obrigou a mudar nada: fazia a sua crítica, e eu continuava do meu jeito.

Eu passava longas manhãs na enorme prancheta com régua T e coberta de plástico azul, que ele só usava quando trazia serviço para casa.

Seu João era vendedor e projetista em uma firma de refrigeração, que fabricava balcões frigoríficos.
Ele visitava os clientes – o português que queria abrir um bar ou uma padaria (e morava no andar de cima), o chinês que estava montando uma pastelaria, e tantos outros que fariam açougues, restaurantes e lanchonetes – media o local com metro dobrável e fazia ali mesmo na hora um esboço em perspectiva do futuro estabelecimento. O freguês ficava encantado, vendo o seu comércio se materializar nos traços rápidos do meu pai, e fechava o negócio.
Então meu pai ia à fábrica e fazia outro desenho, em planta, mais técnico e preciso, para orientar a produção: o espaço para o compressor, o acabamento em aço e fórmica, os detalhes dos encaixes, a circulação dos funcionários.
Os dois desenhos, o artístico ou arquitetônico, e o técnico, eram completamente comprometidos com a realidade das operações e do atendimento ao público: tinham que funcionar na prática: eram DESENHO QUE VIRA VERDADE.

E a terceira etapa punha isto à prova: meu pai acompanhava os montadores, junto com um pedreiro, para instalar os balcões.
Sempre tinha surpresa: uma parede fora de ângulo, um balcão maior do que o projeto – e os instaladores tinham que adaptar, fazer ajustes, às vezes até quebrar uma parede para completar a montagem.

Enquanto isso, eu viajava no mundo irreal do humor e da fantasia: lia as histórias em quadrinhos de Walt Disney, e os filmes e programas de TV; sonhava em conhecer a Disneylândia, em me tornar eu mesmo um desenhista de animação; todos os desenhos e programas de humor me fascinavam, de Abbot e Costello a Chico Anísio, do Scubidu à Princesa e o Cavaleiro.
O "humor crítico" dos cartunistas eu só ia conhecer na adolescência… Meu humor, então, era puro escapismo.
Minha habilidade manual só ia até os limites do papel, cola e tesoura; já meu pai era o rei dos consertos domésticos e reformas, estava sempre consertando a TV, um chuveiro, pintando metade da casa ou botando azulejo, quando não estava no telhado.
Assim fomos nos diferenciando: eu, desenhista de humor e meio intelectual; ele, desenhista técnico e super prático.
Contudo, os álbuns de Asterix nos uniam.
Assim que eu comprava um exemplar, que a Cedibra publicava mensalmente, nós líamos em no máximo dois dias e depois ficávamos rindo e lembrando qual a passagem que achou mais engraçada.
Meu pai gostava muito do preciosismo dos cenários, a arquitetura, a anatomia: "não é aquela pobreza dos cenários do Maurício, aquelas casinhas, matinho, que qualquer um desenha".

Revendo isso tudo, o que posso dizer da importância do meu pai na minha profissão, na minha vida?
Foi uma influência enorme, tanto pelo que nos unia, como pela diferença que insisti em cultivar.
Até minha mania astrológica nos anos oitenta deve algo aos estudos esotéricos de meu pai, filiado à "Antiga e Mística Ordem Rosa-Cruz", que procura abordar os fenômenos místicos com espírito científico.

Seu João foi um desenhista vendedor; um projetista, um designer, cujos desenhos auxiliavam a vender e ainda tinham que funcionar no mundo do cliente.
Ora, eu também me tornei algo assim. Meus layouts e storyboards eram isso, antecipações do produto pronto, que ajudavam a agência a vender para o cliente, e o cliente aos seus consumidores. O meu desenho sempre está "a serviço de", é sempre "para alguém".
E nos álbuns de HQ que faço hoje – reminiscência dos Asterix que devorávamos aos risos – sempre faço questão de me ater à realidade, à História, às coisas que aconteceram, como aconteceram: cenários reais, figurinos reais, personagens reais.
É VERDADE QUE VIRA DESENHO – o oposto simétrico do meu pai, DESENHO QUE VIRA VERDADE.

E, no entanto, começamos de forma parecida: ele também gostava de quadrinhos quando era criança.
E copiava os personagens de seu tempo, Capitão Marvel, o Amigo da Onça…
Mas desviou-se da fantasia: seguiu as exigências do mundo prático e comercial: pintou letreiros de portas de escritório, aviões em cursos de instrução na Aeronáutica, decorou vitrines de lojas, e finalmente criou raízes do ramo das instalações comerciais.

Sua vida foi, eu sei, bem menos confortável que a minha.
Se ele tivesse os pais como os que eu tive, e recebesse mais apoio e condições materiais, teria seguido a carreira do desenho sem compromisso, do humor e da fantasia?

Coube a mim completar o ciclo: VERDADE QUE VIRA DESENHO QUE VIRA VERDADE – e construir, seguindo os passos do Seu João, meu desenho de criança, com alicerces bem plantados no mundo maduro da realidade.

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SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D.João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com/

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