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Charge de Chico Caruso A exposição Traço Livre - do limite do humor à liberdade de expressão está aberta desde 05/03. Especialmente concebida, pelos curadores Ana Pinta e o Ricky Goodwin, para o novo e amplo espaço da Galeria Scenarium, a mostra reúne 24 artistas: Claudius, Cau Gomes, Aroeira, Cavalcante, Miran, Millôr (homenageado), Jaguar, Ziraldo, Nani, Cesar Lobo, Miguel Paiva, Hippert, Alvim, Chico Caruso, Paulo Caruso, Liberati, Rubem Grilo, Ique, Claudio Duarte, Gilmar, Allan Sieber, Antônio Antunes (de Portugal), Loredano e Romero Cavalcanti.
Quais são os papéis e os limites do humor nos dias de hoje? Estas e outras questões fazem parte da exposição entre chargistas e ilustradores/artistas gráficos, de diversas gerações e estilos, trazendo uma reflexão sobre o papel do humor no mundo atual. A motivação central da exposição são os fatos relacionados com o atentado ao jornal francês Charlie Hebdo, ocorrido no começo do ano em Paris. “O atentado teve grande repercussão em todo o mundo, o que gerou um impacto profundo entre a classe dos humoristas gráficos brasileiros, que mantém relações com a redação do Charlie desde os tempos do Pasquim. Muitos artistas brasileiros foram influenciados pelo humor cáustico e o traço anárquico de artistas como Wolinski (assassinado nesse atentado), Reiser e Siné”, afirma Ricky. O objetivo da exposição é ir além do noticiário imediato, apresentando temas peculiares à própria criação e publicação do humor gráfico, como a linguagem da sátira, a liberdade de expressão, a força de uma piada, os limites do humor, etc. De acordo com os curadores, a mostra possui um caráter histórico, onde o visitante pode conhecer o registro de uma classe de artistas atingida em seu cerne e que reage através do humor e da criação.
TRACO
Charge de Chico Caruso
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O QUE: Exposição Traço Livre - do limite do humor à liberdade de expressão 

QUANDO: De 5 de março a 25 de abril de 2015

                      de terça a sábado, das 13h às 19h

ONDE: Térreo Galeria Scenarium - Rua do Lavradio, 15 – Rio de Janeiro

CONTATO: (21) 2252-9138

www.galeriascenarium.com.br

Entrada Franca

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Um atentado terrorista na sede do jornal Charlie Hebdo matou 12 pessoas e feriu 10. Entre os mortos, além de uma psicanalista, um economista, um revisor e dois policiais, os cartunistas Charb, Cabu, Wolinski, Tignous e Honoré. O atentado foi em represália às frequentes charges satirizando o profeta Mohamed e a religião islâmica, na linha extremamente mordaz que caracteriza o semanário.

Os cartunistas do Charlie, assim como aquele dinamarquês que também fez desenho semelhante há alguns anos, tinham uma estranha crença: a de que desenhos satíricos não desencadeiam efeitos concretos no mundo real - como se as críticas desenhadas circulassem apenas no plano das ideias ou do discurso.

Há anos, no programa "Saca-Rolha", entrevistado por Marcelo Tas, Mariana Weickert e Lobão, fui confrontado com a questão que opõe binariamente dois lados irredutíveis: o humor deve ter limites? a religião deve ser respeitada? Respondi que uma charge ofensiva aos radicais islâmicos não seria respondida com outra charge, mas da forma terrorista: explodindo uma estação do metrô e matando pessoas a esmo. Vale a pena praticar o humor sem limites e lavar as mãos, se o atingido revidar de forma violenta e indiscriminada? Cabe ao artista, e ao jornalista, avaliar os efeitos possíveis da publicação no mundo real. Errei o foco da vingança, que foi mais preciso.

"A tolerância é uma virtude burguesa", dizia um amigo publicitário, ex-militante comunista. Enquanto o ofendido pertencer ao mesmo mundo das liberdades democráticas, típico da época histórica em que a classe dominante é a econômica, a pior represália que pode receber um cartum é um processo judicial e uma multa. O Charlie Hebdo vive num mundo iluminista, burguês e racionalista, ainda que animado por uma iconoclastia revolucionária. Não teria sido possível fazer charge com Robespierre no tempo do Terror, mas o ambiente legal e cultural disto que chamam "civilização do Ocidente" permite críticas extremamente violentas à própria estrutura da civilização ocidental, sem que ela se abale muito com isso e até as transforme em negócio rentável e expressão cultural absolutamente aceita.

Como lembra Walter Benjamin: "o aparelho burguês de produção e publicação é capaz de assimilar uma quantidade surpreendente de temas revolucionários e, inclusive, de propagá-los, sem pôr em risco sua própria permanência e a classe que o controla" (citado por Heloísa Buarque de Holanda, "Impressões de Viagem", Editora Brasiliense, pag. 31).

Graças à essa "tolerância burguesa", ativistas do grupo Femen puderam exercer a liberdade de pensamento comemorando a renúncia de Bento XVI de topless na Catedral de Notre Dame de Paris; as militantes foram processadas, mas absolvidas.

Porém, quando o atingido é o radicalismo islâmico, abre-se um fosso civilizacional entre o chargista e seu alvo. Não existe, envolvendo ambos, ambiente legal e cultural que estabeleça as normas polidas que obrigam a responder uma ofensa midiática com outra ofensa midiática. Os cartunistas do Charlie não possuíam poder algum para estabelecer limites à resposta dos ofendidos, moderar sua intensidade, foco e natureza. Não apenas a cultura e a religião são outras; além disso, entre os ofendidos – todos os muçulmanos – havia terroristas.

O terrorismo do radicalismo islâmico não é, como costuma ser interpretado no Ocidente, a expressão exagerada da religião islâmica, mas uma criação do século XX, do pensador Said Kutb, uma das principais influências do Al-Qaeda.

Said Kutb estudou em universidades nos Estados Unidos por dois anos, o que lhe deu subsídios para criar uma obra deplorando a decadência ocidental nos aspectos que lhe pareceram mais repulsivos, como a violência do boxe, o mau gosto nas artes, o apelo sexual no jazz etc. Para tanto, colaboraram intelectuais críticos do Ocidente da esquerda e da direita, como Marx, Nietzsche, Heidegger e o eugenista Alexis Carrel, defensor da pureza racial.

( https://listenandobey.wordpress.com/category/refutations/sayyid-qutb/ )

Muitos muçulmanos não hesitariam em qualificar a doutrina da Fraternidade Muçulmana como herética, um desvio do islamismo. Porém, é a forma que se tornou politicamente dominante, tanto nos governos teocráticos quanto nos grupos terroristas. Por ter como alvo preferencial os Estados Unidos, é a face do Islã que conta com mais admiradores nos meios progressistas ocidentais (o que é bastante bizarro e contraditório, considerando suas leis repressivas contra as mulheres e homossexuais).

O Terrorismo, ensina Lênin, é a "propaganda armada". Não visa derrotar o inimigo militarmente, mas provocar o caos, intimidar a população, manter as forças do inimigo dispersas e ocupadas e utilizar a ação como manifesto ideológico, ou para desviar a atenção do público em determinado momento.

Assim, é ilegítimo atribuir tanto a motivação quanto os meios de ação ao "fundamentalismo religioso". Explodir, metralhar e cortar cabeças não são ações de proselitismo evangelizador, mas a forma de comunicação essencial dos terroristas.

Por isso, interpretar, generalizando, o ataque de cunho nitidamente terrorista, praticado por radicais islâmicos, de modo a abranger as religiões ocidentais devido à irracionalidade que aparenta unir os dois fenômenos, é a utilização desonesta e maniqueísta que busca a todo custo tirar proveito político de uma tragédia, que se inicia com a ingenuidade de artistas que acreditavam estar protegidos pela civilização ocidental (que lhes serve tanto de alvo como de abrigo) para exercitarem a crítica franco-atiradora e anárquica do cartum - e debitar uma chacina de cunho ideológico anti-ocidental, na conta das religiões ocidentais há muito pacificadas e até, em grande parte, parceiras na tarefa demolidora de abalar os pilares do Ocidente.

A inibição de criticar especificamente os radicais islâmicos se deve ao ódio aos Estados Unidos, considerado a quinta-essência da Civilização Ocidental e da Nova Ordem Mundial, que une progressistas e radicais islâmicos. Isto leva a nossa mídia e intelectualidade a procurar bodes expiatórios menos vingativos, do tipo que oferece a outra face e se deixa sacrificar de forma mais cordata.

Quando o cartunista Glauco e seu filho Raoni foram estupidamente assassinados por um frequentador da seita do Santo Daime, ninguém acusou o "fundamentalismo religioso" de ser o mandante do crime. Foi obra de um louco ou de alguém que se fez de louco (para depois racionalmente fugir em direção à fronteira, como faria qualquer assassino são). De fato, o assassino foi preso novamente ano passado, envolvido em roubo de carro e latrocínio. Dizer que Glauco foi morto pelo "fundamentalismo religioso" seria mentira ou estupidez.

Da mesma forma, quem matou Charb, Cabu, Wolinski, Tignous, Honoré e as outras sete pessoas não foi "a fé", mas um enxerto ideológico na fé  – do qual tomou parte a tradição anti-ocidental que o próprio Ocidente ajudou a criar. E não foi uma ideia, foram pessoas e armas, que decidiram materializar sua "crítica radical" não com um lápis, mas da forma como se viu. Execrável e brutal.

Os radicais islâmicos aprenderam a lição que o "Ocidente anti-Ocidental" lhes ensinou; esperar que eles tivessem respondido apenas com as "armas da crítica" é esquecer que a Fraternidade Islâmica não inclui a "Fraternité" gaulesa, apesar do radicalismo que os aproxima em torno do inimigo comum:

"As armas da crítica não podem, de fato, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apossa dos homens. A teoria é capaz de prender os homens desde que demonstre sua verdade face ao homem, desde que se torne radical. Ser radical é atacar o problema em suas raízes. Para o homem, porém, a raiz é o próprio homem. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã e, portanto, de sua energia prática, consiste em saber partir decididamente da superação positiva da religião."

(Karl Marx, "Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel")

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"Naquilo!"[/caption] ________________________________________________________________________________________________________________________________

SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, As Barbas do Imperador e D.João Carioca (ambos em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com

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Traço Livre – do limite do humor à liberdade de expressão

Exposição em homenagem à Wolinski e Millôr reúne grandes artistas e promove o debate sobre os limites do humor e da liberdade de expressão. De 05/03 a 25/04, Galeria Scenarium, Rio de Janeiro.

Não foi a fé, foi o terror que matou Wolinski

É ingenuidade acreditar que o ofendido de uma charge, se pertencer a um grupo terrorista, irá responder dentro das normas polidas do debate cultural vigente na Civilização Ocidental que desejam destruir. O assassinato brutal dos cartunistas franceses mostra que as idéias circulam e desencadeiam efeitos muito concretos no mundo real.