SIBSIB

WP_Query Object ( [query_vars] => Array ( [tag] => meu-guru-acidental [error] => [m] => [p] => 0 [post_parent] => [subpost] => [subpost_id] => [attachment] => [attachment_id] => 0 [name] => [static] => [pagename] => [page_id] => 0 [second] => [minute] => [hour] => [day] => 0 [monthnum] => 0 [year] => 0 [w] => 0 [category_name] => [cat] => [tag_id] => 219 [author] => [author_name] => [feed] => [tb] => [paged] => 0 [comments_popup] => [meta_key] => [meta_value] => [preview] => [s] => [sentence] => [fields] => [menu_order] => [category__in] => Array ( ) [category__not_in] => Array ( ) [category__and] => Array ( ) [post__in] => Array ( ) [post__not_in] => Array ( ) [tag__in] => Array ( ) [tag__not_in] => Array ( ) [tag__and] => Array ( ) [tag_slug__in] => Array ( [0] => meu-guru-acidental ) [tag_slug__and] => Array ( ) [post_parent__in] => Array ( ) [post_parent__not_in] => Array ( ) [author__in] => Array ( ) [author__not_in] => Array ( ) [ignore_sticky_posts] => [suppress_filters] => [cache_results] => 1 [update_post_term_cache] => 1 [update_post_meta_cache] => 1 [post_type] => [posts_per_page] => 6 [nopaging] => [comments_per_page] => 50 [no_found_rows] => [order] => DESC ) [tax_query] => WP_Tax_Query Object ( [queries] => Array ( [0] => Array ( [taxonomy] => post_tag [terms] => Array ( [0] => meu-guru-acidental ) [include_children] => 1 [field] => slug [operator] => IN ) ) [relation] => AND ) [meta_query] => WP_Meta_Query Object ( [queries] => Array ( ) [relation] => ) [date_query] => [post_count] => 1 [current_post] => -1 [in_the_loop] => [comment_count] => 0 [current_comment] => -1 [found_posts] => 1 [max_num_pages] => 1 [max_num_comment_pages] => 0 [is_single] => [is_preview] => [is_page] => [is_archive] => 1 [is_date] => [is_year] => [is_month] => [is_day] => [is_time] => [is_author] => [is_category] => [is_tag] => 1 [is_tax] => [is_search] => [is_feed] => [is_comment_feed] => [is_trackback] => [is_home] => [is_404] => [is_comments_popup] => [is_paged] => [is_admin] => [is_attachment] => [is_singular] => [is_robots] => [is_posts_page] => [is_post_type_archive] => [query_vars_hash] => 5608a9ed18fd043565ab050f02f4844a [query_vars_changed] => [thumbnails_cached] => [stopwords:private] => [query] => Array ( [tag] => meu-guru-acidental ) [queried_object] => stdClass Object ( [term_id] => 219 [name] => meu guru acidental [slug] => meu-guru-acidental [term_group] => 0 [term_taxonomy_id] => 222 [taxonomy] => post_tag [description] => [parent] => 0 [count] => 1 [filter] => raw ) [queried_object_id] => 219 [request] => SELECT SQL_CALC_FOUND_ROWS sib_posts.ID FROM sib_posts INNER JOIN sib_term_relationships ON (sib_posts.ID = sib_term_relationships.object_id) WHERE 1=1 AND ( sib_term_relationships.term_taxonomy_id IN (222) ) AND sib_posts.post_type = 'post' AND (sib_posts.post_status = 'publish') GROUP BY sib_posts.ID ORDER BY sib_posts.post_date DESC LIMIT 0, 6 [posts] => Array ( [0] => WP_Post Object ( [ID] => 2260 [post_author] => 2 [post_date] => 2013-12-12 07:56:01 [post_date_gmt] => 2013-12-12 09:56:01 [post_content] => [caption id="attachment_2275" align="alignnone" width="960"] HQ-cartão em parceria de Céu e Spacca, para algum Natal dos anos oitenta[/caption]

Quem me conhece, sabe que não é fácil me convencerem a fazer algo diferente do que estou fazendo.

No entanto, alguns pitacos do meu eventual guru Céu d’Ellia foram aceitos quase instantaneamente:

“Desenhista trabalha com símbolos, você precisa conhecer Jung”

E lá ia eu estudar Jung.

“Me diz tua data de nascimento; como vamos trabalhar juntos neste projeto, minha mãe vai fazer teu horóscopo. Ela faz um mapa astral legal”

E lá ia eu estudar astrologia.

“Achei a atividade física que eu queria. É uma arte corporal indiana”

E lá ia eu praticar Kempô.

“Vou estudar anatomia no IML, que nem o Da Vinci fazia”

E não é que eu fui??

(esta história prometo contar no próximo Halloween).

Conheci Céu, então Celso Iazzeti d’Ellia, na premiação do Concurso Ford de Arte Infantil, que aconteceu no Ginário do Ibirapuera, em São Paulo, em 1977.

Cerca de 4.000 crianças e adolescentes, divididos em duas turmas de 8 a 10 e de 11 a 14 anos (eu estava entre estes), tinham que fazer um desenho numa folha A3 sobre o tema “Esportes”, no intervalo de uma hora.
Assim que recebi meu estojo de canetinhas Sylvapen ouvi a lista dos jurados (que incluía o pintor Aldemir Martins, informa o Google) e, entre eles, estava o Maurício de Sousa.
A partir dali, desenhei só para ele – enchi a folha com Mônica, Jotalhão e cia.. em dez modalidades esportivas.
Dias depois saiu o resultado. Ganhei o terceiro lugar. Celso, o primeiro. O desenho vencedor era um cartum cheio de sujeitos mal-encarados de capote, com cadernetas de apostas. Era um desenho politizado! Os sinistros bookmakers também sugeriam agentes da repressão, conspiradores, ou mais diretamente a corrupção nos esportes.
Meu pai não gostou, “cadê o esporte?”. Mas eu tinha entendido, percebi que aquilo era o tal “humor” que os cartunistas faziam, e que eu viria a fazer quase uma década mais tarde. Celso tinha quatorze anos e eu treze; a diferença de idade não era grande, mas comparado à minha olimpíada da Turma da Mônica, seu trabalho era surpreendentemente adulto.

No dia da entrega dos prêmios um sorridente Maurício nos convidou para agendarmos uma visita ao estúdio.

Alguns anos depois eu já era ilustrador publicitário na Young & Rubicam, e o diretor de arte Wilson da Nóbrega, juntando referências de anuários, “criou” um personagem para o chicle de bola Ping Pong, do qual fiz o primeiro storyboard e os seguintes. O “Pongão” foi redefinido e animado na produtora Daniel Messias e foi um sucesso imediato.
Não sei quanto aos primeiros filmes, mas logo quem passou a animar o personagem foi o Celso d’Ellia. A gente era parceiro na mesma linha de produção: eu fazendo os storyboards do Pongão na Young, ele dando vida nos comerciais que iam para a TV – e também na ilustração de pôsteres, anúncios e álbuns de figurinha. A nossa amizade nasceu daí.
[caption id="attachment_2272" align="alignnone" width="700"] Pongão, do storyboard para o mundo, no meu traço e no traço do Céu[/caption]
Em 1982 Celso saiu da Daniel Messias e criou sua produtora, Cigarra Inquietante, que passei a frequentar para longos papos sobre animação, quadrinhos, projetos, sonhos e misticismo. Talvez Celso já fosse “Céu” (num anúncio da Cigarra no anuário Talento de 1984 ele já se apresenta como “Céu I. d’Elia”, com um L só).
“Cel” também era o nome das folhas de acetatos usadas em animação.
Foi ele quem sugeriu, em 1983, que eu procurasse o Luiz Briquet, dono da quarta maior produtora de animação de São Paulo, onde animei os primeiros filmes do Bond Boca.
Céu vinha realizando o curta “Adeus” (que pode ser vista no site  http://www.ailhadoceu.com.br/), obra-prima densa e belíssima, que levou sete anos para ficar pronta. Assisti a várias montagens provisórias, versões inacabadas – o nome ainda era “A Criação do Mundo”, e recebeu a instigante trilha do compositor Dioni Moreno.
O estúdio da Cigarra condensava diferentes mundos, e todos me interessavam: o alto profissionalismo das produções publicitárias, a riqueza e profundidade do quadrinhos europeus (BD) e alternativos, a animação tradicional Disney e as de vanguarda, rock progressivo, música de meditação e Premê, e a cultura alternativa-hippie-mística que permeava aquilo tudo.

O desenho do Céu tinha aquela qualidade ao mesmo tempo concreta e esotérica do Moebius, e ele mesmo às vezes se vestia como aquele flautista do Jethro Tull.

images2PA4WQZY

Quando o Jair da Folha de São Paulo me ligou para dizer que eu tinha sido premiado no concurso da Folha, em 1985, não me achou em casa - não existia celular; deram o telefone da Cigarra, e foi em frente ao Céu que recebi a notícia. O trabalho na Folha acentuou o aspecto ligeiro e jornalístico do meu desenho, quase o oposto da arte do Céu; mas continuei bastante conectado àquela sucursal da Terra Média.
Em 1986 participei do curta coletivo “Planeta Terra”, coordenado por Céu e Marcos Magalhães e oferecido à ONU, por ocasião do “Ano Internacional da Paz”:
http://iludente.blogspot.com.br/2011/08/eppur-si-muove.html
Por dois anos e pouco treinei junto com ele Kempô, arte corporal indiana baseada nos movimentos dos animais, ensinada por Joo Brito. Depois saí do Kempô, e Céu saiu pelo mundo: morou na Inglaterra, trabalhou em An American Tail 2 (foi animador sênior da irmã de Fievel), cruzou a Índia de moto e animou Pateta em Paris. Céu parece se sentir à vontade em qualquer lugar do planeta, mas também desconfortável em todos os lugares, sempre sensível ao desequilíbrio e à loucura da civilização moderna. O seu interesse pelas dimensões transcendentes da realidade transborda no profundo envolvimento com as questões ecológicas.
Em 1994 vai ao Acre, onde filma o material utilizado no documentário “Expedição Yandú” (1996).

Um projeto de que participei e não foi pra frente exemplifica o embasamento sólido e abrangente que caracteriza seus trabalhos. Céu foi contratado para recriar em animação a “Turma Do Lang-Lang” (uns bonecos marionetes que, acionados por gatilho, davam soco). Mas ele foi além: criou todo um um universo para eles, uma mitologia, um mundo ficcional estruturado e coerente de dar inveja a Tolkien. Era muito mais do que requeria aquele trabalho, simples criação publicitária, mas foi fascinante ter acompanhado de perto as reuniões de criação.

Minha participação mais recente num projeto coordenado pelo Céu foi o roteiro que fiz em 2010 para um curta do Núcleo Paulistano de Animação (NUPA), sobre Mário de Andrade.

Na virada do milênio, colaborei com os três números da revista ecológica Super Eco (1998-2000). Céu me chamou para ilustrar com vinhetas uma seção de curiosidades – aquele meu estilo bidimensional de cartum, que lhe pareceu adequado à agilidade daquela seção. O resto da revista é um show de “biodiversidade gráfica”: duas HQs seriadas, tira de humor (Ana Banana), infográficos, contos ilustrados, reportagens e um pôster central em estilo realista, este desenhado por Ângelo “Gafanhoto” Bonito.

Uma dessas HQs em capítulos, então chamada “Super Eco”, foi completada e rebatizada de Zu Kinkajú, lançada neste dia 09 de dezembro de 2013.
supereco reduz
Reparo agora que o layout do animal misterioso Super Eco / Zu Kinkajú mudou enormemente nos 13 anos que separam as duas publicações. A atualização deveu-se à mudança de concepção do personagem; na versão da revista o Super Eco parecia uma divindade hindu em forma de bicho fofinho, um Krishna de pelúcia.
O nome significava um animal capaz de se adaptar a todos os ambientes – ele também tinha membranas entre as patas dianteiras e traseiras, como o esquilo voador.
Conta Céu (http://iludente.blogspot.com.br/2013/08/zu-kinkaju-o-que-voce-realmente-sabe.html) que em certo momento se deu conta de que esse conceito era “exatamente o contrário do que a Natureza nos ensina”. E sentiu que precisava trazer o bicho mais de volta à terra; ei-lo como um tipo de quati, com orelhas que lembram orquídeas (mas não ficaria surpreso em saber que o Zu Kinkajú, em nosso plano da existência, corresponde ao Poligato Supereco no plano das fadinhas e elementais).
Nota-se também no álbum uma alfinetada em certos tipos humanos, que parasitam a atividade ecológica ou idealizam demais a Natureza.
Agora que li o álbum, posso rever os desenhos e admirar uma vez mais como Céu tem um profundo respeito pelas coisas como elas são: as paisagens são as de um certo lugar, as plantas e animais conservam sua morfologia. A suçuarana tem cara de suçuarana, o lobo-guará tem cara de lobo-guará.
Esta BD – Bande Dessinée, porque se insere na tradição caprichada e autoral dos quadrinhos franco-belgas – é uma das que mais tem cara de Brasil que já vi. Céu precisou recuar para olhar à distância, num zoom-out que o levou até o Oriente; depois deu um zoom-in até o Acre, para captar o detalhe no universal e vice-versa.

Nossos olhos, acostumados à visão de sempre desde o litoral, podem estranhar, e é bom que estranhem; afinal, é o Brasil visto do Céu...

[caption id="attachment_2270" align="alignnone" width="560"] pôster dos Beatles feito a traço por Céu, que tentei pintar com cores psico-d'Ellicas[/caption] ________________________________________________________________________________________________________________________________ SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D.João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com [post_title] => Céu d'Ellia, meu guru acidental [post_excerpt] => Spacca fala de sua amizade milenar com o animador, quadrinhista e ilustrador Céu d'Ellia, autor de "Zu Kinkajú". [post_status] => publish [comment_status] => closed [ping_status] => open [post_password] => [post_name] => ceu-dellia-meu-guru-acidental [to_ping] => [pinged] => [post_modified] => 2014-01-28 19:08:34 [post_modified_gmt] => 2014-01-28 21:08:34 [post_content_filtered] => [post_parent] => 0 [guid] => http://sib.org.br/?p=2260 [menu_order] => 0 [post_type] => post [post_mime_type] => [comment_count] => 0 [filter] => raw ) ) [post] => WP_Post Object ( [ID] => 2260 [post_author] => 2 [post_date] => 2013-12-12 07:56:01 [post_date_gmt] => 2013-12-12 09:56:01 [post_content] => [caption id="attachment_2275" align="alignnone" width="960"] HQ-cartão em parceria de Céu e Spacca, para algum Natal dos anos oitenta[/caption]

Quem me conhece, sabe que não é fácil me convencerem a fazer algo diferente do que estou fazendo.

No entanto, alguns pitacos do meu eventual guru Céu d’Ellia foram aceitos quase instantaneamente:

“Desenhista trabalha com símbolos, você precisa conhecer Jung”

E lá ia eu estudar Jung.

“Me diz tua data de nascimento; como vamos trabalhar juntos neste projeto, minha mãe vai fazer teu horóscopo. Ela faz um mapa astral legal”

E lá ia eu estudar astrologia.

“Achei a atividade física que eu queria. É uma arte corporal indiana”

E lá ia eu praticar Kempô.

“Vou estudar anatomia no IML, que nem o Da Vinci fazia”

E não é que eu fui??

(esta história prometo contar no próximo Halloween).

Conheci Céu, então Celso Iazzeti d’Ellia, na premiação do Concurso Ford de Arte Infantil, que aconteceu no Ginário do Ibirapuera, em São Paulo, em 1977.

Cerca de 4.000 crianças e adolescentes, divididos em duas turmas de 8 a 10 e de 11 a 14 anos (eu estava entre estes), tinham que fazer um desenho numa folha A3 sobre o tema “Esportes”, no intervalo de uma hora.
Assim que recebi meu estojo de canetinhas Sylvapen ouvi a lista dos jurados (que incluía o pintor Aldemir Martins, informa o Google) e, entre eles, estava o Maurício de Sousa.
A partir dali, desenhei só para ele – enchi a folha com Mônica, Jotalhão e cia.. em dez modalidades esportivas.
Dias depois saiu o resultado. Ganhei o terceiro lugar. Celso, o primeiro. O desenho vencedor era um cartum cheio de sujeitos mal-encarados de capote, com cadernetas de apostas. Era um desenho politizado! Os sinistros bookmakers também sugeriam agentes da repressão, conspiradores, ou mais diretamente a corrupção nos esportes.
Meu pai não gostou, “cadê o esporte?”. Mas eu tinha entendido, percebi que aquilo era o tal “humor” que os cartunistas faziam, e que eu viria a fazer quase uma década mais tarde. Celso tinha quatorze anos e eu treze; a diferença de idade não era grande, mas comparado à minha olimpíada da Turma da Mônica, seu trabalho era surpreendentemente adulto.

No dia da entrega dos prêmios um sorridente Maurício nos convidou para agendarmos uma visita ao estúdio.

Alguns anos depois eu já era ilustrador publicitário na Young & Rubicam, e o diretor de arte Wilson da Nóbrega, juntando referências de anuários, “criou” um personagem para o chicle de bola Ping Pong, do qual fiz o primeiro storyboard e os seguintes. O “Pongão” foi redefinido e animado na produtora Daniel Messias e foi um sucesso imediato.
Não sei quanto aos primeiros filmes, mas logo quem passou a animar o personagem foi o Celso d’Ellia. A gente era parceiro na mesma linha de produção: eu fazendo os storyboards do Pongão na Young, ele dando vida nos comerciais que iam para a TV – e também na ilustração de pôsteres, anúncios e álbuns de figurinha. A nossa amizade nasceu daí.
[caption id="attachment_2272" align="alignnone" width="700"] Pongão, do storyboard para o mundo, no meu traço e no traço do Céu[/caption]
Em 1982 Celso saiu da Daniel Messias e criou sua produtora, Cigarra Inquietante, que passei a frequentar para longos papos sobre animação, quadrinhos, projetos, sonhos e misticismo. Talvez Celso já fosse “Céu” (num anúncio da Cigarra no anuário Talento de 1984 ele já se apresenta como “Céu I. d’Elia”, com um L só).
“Cel” também era o nome das folhas de acetatos usadas em animação.
Foi ele quem sugeriu, em 1983, que eu procurasse o Luiz Briquet, dono da quarta maior produtora de animação de São Paulo, onde animei os primeiros filmes do Bond Boca.
Céu vinha realizando o curta “Adeus” (que pode ser vista no site  http://www.ailhadoceu.com.br/), obra-prima densa e belíssima, que levou sete anos para ficar pronta. Assisti a várias montagens provisórias, versões inacabadas – o nome ainda era “A Criação do Mundo”, e recebeu a instigante trilha do compositor Dioni Moreno.
O estúdio da Cigarra condensava diferentes mundos, e todos me interessavam: o alto profissionalismo das produções publicitárias, a riqueza e profundidade do quadrinhos europeus (BD) e alternativos, a animação tradicional Disney e as de vanguarda, rock progressivo, música de meditação e Premê, e a cultura alternativa-hippie-mística que permeava aquilo tudo.

O desenho do Céu tinha aquela qualidade ao mesmo tempo concreta e esotérica do Moebius, e ele mesmo às vezes se vestia como aquele flautista do Jethro Tull.

images2PA4WQZY

Quando o Jair da Folha de São Paulo me ligou para dizer que eu tinha sido premiado no concurso da Folha, em 1985, não me achou em casa - não existia celular; deram o telefone da Cigarra, e foi em frente ao Céu que recebi a notícia. O trabalho na Folha acentuou o aspecto ligeiro e jornalístico do meu desenho, quase o oposto da arte do Céu; mas continuei bastante conectado àquela sucursal da Terra Média.
Em 1986 participei do curta coletivo “Planeta Terra”, coordenado por Céu e Marcos Magalhães e oferecido à ONU, por ocasião do “Ano Internacional da Paz”:
http://iludente.blogspot.com.br/2011/08/eppur-si-muove.html
Por dois anos e pouco treinei junto com ele Kempô, arte corporal indiana baseada nos movimentos dos animais, ensinada por Joo Brito. Depois saí do Kempô, e Céu saiu pelo mundo: morou na Inglaterra, trabalhou em An American Tail 2 (foi animador sênior da irmã de Fievel), cruzou a Índia de moto e animou Pateta em Paris. Céu parece se sentir à vontade em qualquer lugar do planeta, mas também desconfortável em todos os lugares, sempre sensível ao desequilíbrio e à loucura da civilização moderna. O seu interesse pelas dimensões transcendentes da realidade transborda no profundo envolvimento com as questões ecológicas.
Em 1994 vai ao Acre, onde filma o material utilizado no documentário “Expedição Yandú” (1996).

Um projeto de que participei e não foi pra frente exemplifica o embasamento sólido e abrangente que caracteriza seus trabalhos. Céu foi contratado para recriar em animação a “Turma Do Lang-Lang” (uns bonecos marionetes que, acionados por gatilho, davam soco). Mas ele foi além: criou todo um um universo para eles, uma mitologia, um mundo ficcional estruturado e coerente de dar inveja a Tolkien. Era muito mais do que requeria aquele trabalho, simples criação publicitária, mas foi fascinante ter acompanhado de perto as reuniões de criação.

Minha participação mais recente num projeto coordenado pelo Céu foi o roteiro que fiz em 2010 para um curta do Núcleo Paulistano de Animação (NUPA), sobre Mário de Andrade.

Na virada do milênio, colaborei com os três números da revista ecológica Super Eco (1998-2000). Céu me chamou para ilustrar com vinhetas uma seção de curiosidades – aquele meu estilo bidimensional de cartum, que lhe pareceu adequado à agilidade daquela seção. O resto da revista é um show de “biodiversidade gráfica”: duas HQs seriadas, tira de humor (Ana Banana), infográficos, contos ilustrados, reportagens e um pôster central em estilo realista, este desenhado por Ângelo “Gafanhoto” Bonito.

Uma dessas HQs em capítulos, então chamada “Super Eco”, foi completada e rebatizada de Zu Kinkajú, lançada neste dia 09 de dezembro de 2013.
supereco reduz
Reparo agora que o layout do animal misterioso Super Eco / Zu Kinkajú mudou enormemente nos 13 anos que separam as duas publicações. A atualização deveu-se à mudança de concepção do personagem; na versão da revista o Super Eco parecia uma divindade hindu em forma de bicho fofinho, um Krishna de pelúcia.
O nome significava um animal capaz de se adaptar a todos os ambientes – ele também tinha membranas entre as patas dianteiras e traseiras, como o esquilo voador.
Conta Céu (http://iludente.blogspot.com.br/2013/08/zu-kinkaju-o-que-voce-realmente-sabe.html) que em certo momento se deu conta de que esse conceito era “exatamente o contrário do que a Natureza nos ensina”. E sentiu que precisava trazer o bicho mais de volta à terra; ei-lo como um tipo de quati, com orelhas que lembram orquídeas (mas não ficaria surpreso em saber que o Zu Kinkajú, em nosso plano da existência, corresponde ao Poligato Supereco no plano das fadinhas e elementais).
Nota-se também no álbum uma alfinetada em certos tipos humanos, que parasitam a atividade ecológica ou idealizam demais a Natureza.
Agora que li o álbum, posso rever os desenhos e admirar uma vez mais como Céu tem um profundo respeito pelas coisas como elas são: as paisagens são as de um certo lugar, as plantas e animais conservam sua morfologia. A suçuarana tem cara de suçuarana, o lobo-guará tem cara de lobo-guará.
Esta BD – Bande Dessinée, porque se insere na tradição caprichada e autoral dos quadrinhos franco-belgas – é uma das que mais tem cara de Brasil que já vi. Céu precisou recuar para olhar à distância, num zoom-out que o levou até o Oriente; depois deu um zoom-in até o Acre, para captar o detalhe no universal e vice-versa.

Nossos olhos, acostumados à visão de sempre desde o litoral, podem estranhar, e é bom que estranhem; afinal, é o Brasil visto do Céu...

[caption id="attachment_2270" align="alignnone" width="560"] pôster dos Beatles feito a traço por Céu, que tentei pintar com cores psico-d'Ellicas[/caption] ________________________________________________________________________________________________________________________________ SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D.João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com [post_title] => Céu d'Ellia, meu guru acidental [post_excerpt] => Spacca fala de sua amizade milenar com o animador, quadrinhista e ilustrador Céu d'Ellia, autor de "Zu Kinkajú". [post_status] => publish [comment_status] => closed [ping_status] => open [post_password] => [post_name] => ceu-dellia-meu-guru-acidental [to_ping] => [pinged] => [post_modified] => 2014-01-28 19:08:34 [post_modified_gmt] => 2014-01-28 21:08:34 [post_content_filtered] => [post_parent] => 0 [guid] => http://sib.org.br/?p=2260 [menu_order] => 0 [post_type] => post [post_mime_type] => [comment_count] => 0 [filter] => raw ) )

Céu d’Ellia, meu guru acidental

Spacca fala de sua amizade milenar com o animador, quadrinhista e ilustrador Céu d’Ellia, autor de “Zu Kinkajú”.