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É claro que todos nós abominamos a violência fundamentalista na França. Assim como repudiamos as granadas de retaliação, efeito colarteral, na mesquita parisiense. Tanto quanto o sórdido atentado aos quatro judeus na mesma cidade luz, por vezes um tanto gris. Assim como são odiáveis as dezenas, centenas ou milhares de mortos na Nigéria. Tanto quanto é hedionda a violência que vitimiza 83 negros por dia no Brasil. Assim como é detestável comparar e relativizar massacres e tragédias como essas. Importante, e complicado, é compreender as circunstâncias em que tudo isso ocorre. Caberia uma finta na presunção de nossa cultura ocidental, laica, racionalista, liberal e cientificista. Em 1554, aos ameríndios dizia assim a pedagogia missionária, burguesamente atual: "Esqueça quem você é, quem são os seus pais e de onde veio. Isso tudo não vale nada. Livre-se da sua alma. Olhe para mim. Espelhe-se em mim. Fale como eu. Queira e seja igual a mim."

Importante, e difícil pacas, é fazer arte, humor e religião sem pesar a mão. Quando um artista se sai realmente bem, dizemos que foi sublime. Pela capacidade de transcender a dor, a injustiça, a fome, a violência, a invisibilidade. Nesses momentos provoca até a epifania, tal qual a experiência religiosa. Pois se fé e liberdade são sagrados, talvez jamais devessem profanar um ao outro. (Ah, sim. A ideia de sagrado, que para mim é importante, soa quase como uma afronta intelectual para muitos. Vide, por exemplo, a opinião de Contardo Galligaris no artigo Porque eu sou Charlie, publicado em 15/01/2015, na Folha de São Paulo).

Os melhores humoristas e sacerdotes, cá para nós, conhecem os segredos da cozinha. Muitos humoristas contemporâneos são, porém, useiros e vezeiros da mão pesada. Não rezam, mas exigem que a gente se ajoelhe acriticamente. E certos adeptos do politicamente incorretos também dão blitz. Talvez porque se sentem desobrigados, na época do vale-tudo liberal geral. Charb, o diretor do Charlie Hebdo, chegou a dizer que um lápis não degola ninguém. (Maomé)nos, certo? E quanto a nova capa da revista pós-atentado? Era mesmo preciso continuar a provocação? Como assim, está tudo perdoado? Em nome de quem? Em nome do quê? Livre pensar, livre pesar. Graça e desgraça, de repente, vizinhas. Quando o humor é ilimitadamente libertário, vira incendário. Convém riscar o fósforo? E aí, quem apaga o fogo? Deus ex machina? Até que ponto vale perder amigos, ou mesmo "inimigos", para não perder a piada?

E tem mais. Até o slogan de uma campanha contra o fumo dá conta da essência: "A liberdade termina quando começa a liberdade do outro."

Já para o filósofo, linguista e ensaísta búlgaro Tzvetan Todorov, radicado em Paris, "a liberdade de expressão e o seu corolário, a liberdade de imprensa não podem ser ilimitadas, e seria errôneo reduzir os recente acontecimentos (a movimentação popular na França, motivada pelo atentado ao Charlie Hebdo) nesta semana a esse combate." Sugiro a leitura da sua entrevista à Céline Rouden, publicada no jornal La Croix, 14-01-2015. 

''Uma liberdade sem limites não seria legítima.''

Tzvetan Todorov

Lembrei também do Samba da Benção, do Vinicius de Moraes. O poetinha dá conta do assunto numa única estrofe:

"Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração"

 JE SUIS LASSANA BATHILY, até segunda ordem, mais do que qualquer outro argumento. No freezer, para futuras consultas, que fique conservado.

ele

________________________________________________________________________________________________________________________________

Mauricio Negro é ilustrador, escritor, designer, consultor editorial, palestrante e autor de vários livros, muitos dos quais relacionados às raízes ancestrais brasileiras, às temáticas ameríndias, africanas, afro-brasileiras, mestiças e populares, ambientais e mitológicas, tais como A palavra do grande chefe (em parceria com Daniel Munduruku), Jóty, o tamanduá (em parceria com Vãngri Kaingáng), Zum Zum Zum, Por fora bela viola, entre outras publicações.

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Importante, e difícil pacas, é fazer arte, humor e religião sem pesar a mão. Quando um artista se sai realmente bem, dizemos que foi sublime. Pela capacidade de transcender a dor, a injustiça, a fome, a violência, a invisibilidade. Nesses momentos provoca até a epifania, tal qual a experiência religiosa. Pois se fé e liberdade são sagrados, talvez jamais devessem profanar um ao outro. (Ah, sim. A ideia de sagrado, que para mim é importante, soa quase como uma afronta intelectual para muitos. Vide, por exemplo, a opinião de Contardo Galligaris no artigo Porque eu sou Charlie, publicado em 15/01/2015, na Folha de São Paulo).

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E tem mais. Até o slogan de uma campanha contra o fumo dá conta da essência: "A liberdade termina quando começa a liberdade do outro."

Já para o filósofo, linguista e ensaísta búlgaro Tzvetan Todorov, radicado em Paris, "a liberdade de expressão e o seu corolário, a liberdade de imprensa não podem ser ilimitadas, e seria errôneo reduzir os recente acontecimentos (a movimentação popular na França, motivada pelo atentado ao Charlie Hebdo) nesta semana a esse combate." Sugiro a leitura da sua entrevista à Céline Rouden, publicada no jornal La Croix, 14-01-2015. 

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Há risco no rabisco

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