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Em 1934, J. Carlos imperava como grande capista da revista Fon-Fon. Havia ocupado o posto após alguns anos de predomínio absoluto de um artista hoje pouco conhecido, cuja assinatura era composta pelas iniciais “M.C.” Este era colaborador desde meados dos anos 1920, e foi com o passar do tempo se afirmando com uma presença cada vez mais marcante e freqüente na revista. Assinava “M. Constantino” em alguns dos primeiros trabalhos para a publicação. M.C. criava capas impactantes, cujas composições conciliavam certo realismo com as influências do Art Noveau. Estranhamente, não é possível encontrar menção ao seu nome em livros sobre o assunto, sequer no História da Caricatura no Brasil de Herman Lima, talvez por suas ilustrações não terem forte vínculo com o universo do cartum e da caricatura. Voltemos a J. Carlos: começou aquele ano com uma seqüência surpreendente de capas, sendo responsável, em certas ocasiões, por cinco edições seguidas. Alternou, por vezes, com umas poucas capas fotográficas, daquelas colorizadas com retoques. Era esse, portanto, o panorama geral da Fon-Fon na época.

[caption id="attachment_6833" align="alignnone" width="400"]Autor desconhecido, edição 39 de 1934. Autor desconhecido, edição 39 de 1934.[/caption]

A capa da edição n. 39 daquele ano, no entanto, apresentou uma arte estranha àqueles tempos da revista. Contornos geométricos rigorosos e consideravelmente sintéticos, pautados pelo Art Déco, definiam amplas e robustas áreas coloridas, preenchidas em alguns momentos por estampas. Linhas circulares – algumas de cor vermelha - prevaleciam nesse estilo, sugerindo o rosto, bochechas, os olhos, o corpo, os contornos do terreno e uma estilizada palmeira. A tipografia do invólucro seguia a lógica do desenho, com abordagem geométrica. Definitivamente não era um trabalho de J. Carlos. Tratava-se, de qualquer modo, de uma surpresa bem-vinda, com uma qualidade gráfica capaz de enriquecer a sofisticada Fon-Fon. Nada seria mais natural, portanto, do que atentar para o nome desse artista, de modo a acompanhar sua produção, buscar outros de seus trabalhos em diferentes veículos etc. Infelizmente, nem todas as capas da Fon-Fon traziam a assinatura do ilustrador, e esse foi mais um desses casos. Para complicar, a revista nunca mencionava os colaboradores no miolo da publicação. Identificar a autoria desse desenho de estilo inusitado passou a ser, desse modo, uma tarefa complicada.

[caption id="attachment_6835" align="alignnone" width="195"]Autor desconhecido, edição 39 de 1934. Autor desconhecido, edição 39 de 1934.[/caption]

Pra reforçar ainda mais o mistério, o mesmo estilo se fez presente em outras duas capas da Fon-Fon, em janeiro e março de 1935. Ambas repetem a mesma situação: sem assinatura e créditos. A abordagem geométrica marcante do estilo não deixa dúvida, as três capas foram feitas pelo mesmo artista. Estão lá, novamente, os elementos circulares, os olhos com pupilas negras grandes, mãos de formato retangular com tracinhos iguais e paralelos para definir os dedos. O miolo da revista também trouxe, algumas vezes, desenhos de estilo semelhante, sem assinatura – podem ser desse ilustrador, ou não. Faltam pistas, desse modo, sobre o nome desse interessante artista.

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Alguns palpites podem nos levar a nomes como o de Andrés Guevara, Théo, Edy, Di Cavalcanti. O paraguaio Guevara, que naquela época morava na Argentina, costumava assinar seus trabalhos e não criou nenhuma capa assinada nos primeiros anos da década de 1930 para Fon-Fon. Além disso, seu estilo “cubístico”, com influência do Art Déco, usualmente mesclava contornos variados, muitas vezes dotados de certa volumetria realçada por sombreamento, em figuras de maior complexidade. Extremamente influente naqueles anos no Brasil, foi referência para uma fase mais sintética e geometrizada de Théo, responsável por capas belíssimas para a revista O Malho criadas em 1933, por exemplo. Mas Théo, quando não assinava as capas, recebia crédito pelo trabalho. O ilustrador Edy também poderia ser lembrado, tendo feito capas para a Fon-Fon, mas sua geometrização era ainda refém de certo realismo e da perspectiva. O versátil Di Cavalcanti explorou ao longo do tempo seu repertório pautado pelas vanguardas modernas e pelo cubismo, e poderia ter colaborado para a Fon-Fon. Mas não faz muito sentido pensar numa eventual recusa desse artista em assinar os trabalhos.

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Na quinta edição do ano de 1935 aparece no miolo da revista uma propaganda – dessas que eventualmente podem ter sido desenhadas pela própria equipe da publicação - sobre a Loção Carmela, elaborada em traço moderno. Junto à nuca de uma moça consta a assinatura de um desconhecido “Erico”. Uma pista?

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Ficam as indagações: seria o ilustrador algum membro da equipe da revista? Um desenhista esporádico, indiferente à divulgação de seu nome? As especulações não param por aí, mas pouco avançam pela falta de informações precisas. E pela ausência de um estilo conhecido que apresente similaridades contundentes. A ilustração nacional incorpora ao seu conjunto de referências, desse modo, um belo e consistente estilo geométrico, um lampejo pontual cujo mistério pode encobrir importantes pontos de contato com outras obras da época.

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ps – agradecimentos aos amigos Diane Wanek e Norman Schmidt, cujas conversas e postagens no facebook foram fundamentais para esse artigo.

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Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo. http://www.buenozine.com.br

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Conheci o trabalho do mexicano Miguel Covarrubias e do paraguaio Andrés Guevara por volta de 2007, quando minhas ilustrações já tinham um estilo definido, caracterizado pelas formas geométricas, colagem e texturas. Foi durante a pesquisa da minha dissertação de mestrado sobre o trabalho de Saul Steinberg que encontrei os desenhos de Covarrubias nas páginas das primeiras edições da revista The New Yorker, e as caricaturas de Guevara em alguns livros sobre o assunto, como o “História da Caricatura no Brasil” de Herman Lima. Ambas obras – assim como a do italiano Paolo Garretto – chamaram minha atenção pelo impacto e força das formas depuradas. O acabamento, com sombreamento de modo a realçar a volumetria dos elementos sintéticos, lembrava até certo ponto minhas colagens, em que peças soltas eram pintadas com tinta acrílica.

[caption id="attachment_4369" align="alignnone" width="212"]Caricatura de Covarrubias para a edição de estréia da The New Yorker, 1925. Caricatura de Covarrubias para a edição de estréia da The New Yorker, 1925.[/caption] [caption id="attachment_4374" align="alignnone" width="209"]Desenho do livro “Método de dibujo. Tradición, resurgimiento y evolución del arte mexicano”, com ilustrações que podem ser de Covarrubias ou de Adolfo Best Maugard, 1923. Desenho do livro “Método de dibujo. Tradición, resurgimiento y evolución del arte mexicano”, com ilustrações que podem ser de Covarrubias ou de Adolfo Best Maugard, 1923.[/caption] 5b

Passei a investigar cada vez mais a produção desses artistas, impressionado pela mestria com que resolviam a composição, e por suas escolhas na hora de trabalhar as formas. Além disso, era interessante observar como esse estilo era atual: as capas do artista mexicano, por exemplo, poderiam ser impressas hoje numa revista sem causar qualquer estranhamento.

[caption id="attachment_4371" align="alignnone" width="231"]Miguel Covarrubias: caricatura de Paul Whiteman, 1924. Miguel Covarrubias: caricatura de Paul Whiteman, 1924.[/caption]

Foi curioso vislumbrar pela primeira vez esses desenhos com contornos geométricos, pois parecia que esses artistas tinham sido muito importantes na formação do meu estilo, quando na verdade só chegaram ao meu conhecimento tardiamente. Imagino que isso ocorra com alguma freqüência com outros ilustradores também. Não deixa de ser um prazer especial encontrar referências tão significativas no meio do caminho. Surge uma certa sensação de cumplicidade, através da percepção de tantas afinidades, de interesses e buscas comuns.

[caption id="attachment_4376" align="alignnone" width="227"]Miguel Covarrubias: “Black woman”, 1927. Miguel Covarrubias: “Black woman”, 1927.[/caption] [caption id="attachment_4377" align="alignnone" width="300"]Covarrubias: caricatura de Van Vechten publicada no livro “Meaning No Offense”, 1928. Covarrubias: caricatura de Van Vechten publicada no livro “Meaning No Offense”, 1928.[/caption]

Como se não bastasse a qualidade e expressividade dos desenhos de Covarrubias e Guevara, com o tempo percebi que ambos haviam sido também pioneiros em dois grandes países do continente americano. Estados Unidos e Brasil receberam, curiosamente no mesmo ano de 1923, artistas importantes por disseminar a caricatura e ilustração com influência cubista nos seus novos mercados editoriais: enquanto o mexicano Covarrubias foi para Nova York, o caricaturista paraguaio Guevara, com 19 anos, chegou ao Rio de Janeiro. Miguel foi importante para o estilo de Al Hirschfeld, Jim Flora e outros; e Andrés influenciou Théo, Nássara, Augusto Rodrigues, Alvarus, e até J. Carlos.

[caption id="attachment_4382" align="alignnone" width="394"]Andrés Guevara: caricatura de Prado Júnior para a capa Andrés Guevara: caricatura de Prado Júnior para a capa[/caption]

Há tempos que queria escrever algo sobre os dois desenhistas. Foi muito oportuno, portanto, o convite feito pela tradutora Maria Aparecida Barbosa, professora doutora de Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina, para escrever para a seção temática sobre imagens do Anuário de Literatura da UFSC. Além do artigo, fiz também a capa dessa edição da publicação científica lançada no começo de julho. Os interessados no assunto podem conferir o texto “Miguel Covarrubias e Andrés Guevara: a influência do Cubismo na ilustração editorial do início do século XX” aqui.

[caption id="attachment_4385" align="alignnone" width="354"]Andrés Guevara: caricatura de Sergei Voronov, 1928. Andrés Guevara: caricatura de Sergei Voronov, 1928.[/caption] ________________________________________________________________________________________________________________________________

Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo. http://www.buenozine.com.br

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Em 1934, J. Carlos imperava como grande capista da revista Fon-Fon. Havia ocupado o posto após alguns anos de predomínio absoluto de um artista hoje pouco conhecido, cuja assinatura era composta pelas iniciais “M.C.” Este era colaborador desde meados dos anos 1920, e foi com o passar do tempo se afirmando com uma presença cada vez mais marcante e freqüente na revista. Assinava “M. Constantino” em alguns dos primeiros trabalhos para a publicação. M.C. criava capas impactantes, cujas composições conciliavam certo realismo com as influências do Art Noveau. Estranhamente, não é possível encontrar menção ao seu nome em livros sobre o assunto, sequer no História da Caricatura no Brasil de Herman Lima, talvez por suas ilustrações não terem forte vínculo com o universo do cartum e da caricatura. Voltemos a J. Carlos: começou aquele ano com uma seqüência surpreendente de capas, sendo responsável, em certas ocasiões, por cinco edições seguidas. Alternou, por vezes, com umas poucas capas fotográficas, daquelas colorizadas com retoques. Era esse, portanto, o panorama geral da Fon-Fon na época.

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Pra reforçar ainda mais o mistério, o mesmo estilo se fez presente em outras duas capas da Fon-Fon, em janeiro e março de 1935. Ambas repetem a mesma situação: sem assinatura e créditos. A abordagem geométrica marcante do estilo não deixa dúvida, as três capas foram feitas pelo mesmo artista. Estão lá, novamente, os elementos circulares, os olhos com pupilas negras grandes, mãos de formato retangular com tracinhos iguais e paralelos para definir os dedos. O miolo da revista também trouxe, algumas vezes, desenhos de estilo semelhante, sem assinatura – podem ser desse ilustrador, ou não. Faltam pistas, desse modo, sobre o nome desse interessante artista.

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Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo. http://www.buenozine.com.br

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O misterioso ilustrador de três capas da Fon-Fon

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Miguel Covarrubias e Andrés Guevara: o cubismo na ilustração

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