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Exposição Brasil-África

Exposição apresenta um amplo painel sobre quadrinhos na África.

Exposição na Biblioteca Pública Municipal de Campinas apresenta um amplo painel sobre quadrinhos na África. Fotos: Martinho Caires

Por José Pedro Martins, para a Agência Social de Notícias

Os mitos, os preconceitos, vão sendo construídos a partir de narrativas social e historicamente determinadas. Pois muitas das visões preconcebidas em relação ao continente africano são fraturadas a partir de uma exposição de quadrinhos que começou no Memorial da América Latina, em São Paulo, e que se encontra até o dia 23 de abril, quinta-feira, em Campinas, na Biblioteca Municipal “Prof.Ernesto Manoel Zink”.

É a Exposição Brasil-África, que apresenta ao público brasileiro o que há de mais representativo nos quadrinhos africanos. Muitos quadrinhistas brasileiros estão presentes.

Bira Dantas é um deles. Ele é o curador da exposição pelo lado brasileiro. O congolês Jeremie Nsingi é o curador pelo lado africano. “Aqui no Brasil temos muito pouco contato com os Quadrinhos africanos, apesar de termos muita troca em outros setores sócio-culturais e políticos. Esta exposição mostra um pouco da África real, aquela que é desenhada e satirizada por seus artistas no dia-a-dia”, comenta Bira.

De fato, o desconhecimento em relação ao que é produzido em histórias em quadrinhos na África ainda é muito grande no Brasil, apesar das relações seculares com o continente africano, de onde vieram milhões de escravos que ajudaram a forjar a identidade brasileira. Na realidade, é mais uma página do desconhecimento generalizado no país quanto à realidade africana, apesar de mais da metade da população brasileira ser de afrodescendentes.

Nova história sendo escrita – Mas esse hiato começa a ser superado, como observa o próprio Bira Dantas. Ele nota que em 2008 o quadrinhista e fanzineiro paraense Eduardo Pinto Barbier – que vive na França – foi convidado para a primeira edição do Festival Internacional de Quadrinhos da Argélia (Fibda). “Ele foi pioneiro neste contato cultural entre Brasil e África, no campo dos quadrinhos”, diz Bira. Marcelo D´salete foi outro brasileiro a participar do Fibda naquele ano.

Em 2009 a revista “La Bouche du Monde” – publicada por Eduardo Barbier em francês – fez parte da seleção oficial do Fibda e em 2011 ganhou como Melhor Fanzine. No Brasil, observa Bira, a professora e pesquisadora Sonia Luyten foi curadora da Mostra de Quadrinhos Africanos no Museu Afro, em SP, em 2009, com a participação de 19 artistas de 16 países, e 2010, quando foi lançado o livro “Afro HQ: História e Cultura Afro-brasileira e Africana em Quadrinhos”, de autoria de Danielle Jaimes, Roberta Cirne e Amaro Braga.

Obra do associado da SIB Junião, um dos brasileiros na exposição.

Obra do associado da SIB Junião, um dos brasileiros na exposição.

Em 2011, Eduardo Barbier apresentou o próprio Bira Dantas a Dalila Nadjen, presidente do Fibda, durante o festival de Angouleme na França. Também em 2011, a L&PM Editores publicou o álbum de Quadrinhos Aya (Costa do Marfim) de Marguerite Abouet e Clément Oubrerie. Enquanto isso, André Diniz e Mauricio Hora lançavam “Morro da Favela”, que seria publicado na França, Portugal e Inglaterra. André Diniz também lançou  “Negrinho do Pastoreio” e “O Quilombo Orum Aiê”.

Em 2012, o jornalista e cartunista Mauricio Pestana lançou a coleção “Mãe África” e o cartunista Bira foi selecionado no Fibda, tendo sido o seu D.Quixote  indicado na categoria Melhor Projeto do festival argelino em 2013. Bira foi então convidado para a Argélia, onde lançou seu BiraZine 2 com legendas em francês. Neste mesmo ano, o quadrinhista congolês Jérémie Nsingi veio ao Brasil, a convite do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos de BH). Foi quando Bira e Nsingi se conheceram.

Mais intercâmbios – Os intercâmbios aumentaram em intensidade nos últimos dois anos. Em 2014, o Brasil foi o país homenageado do Fibda e Bira fez parte do juri de premiação. O festival teve um estande só do Brasil com: – Linha do tempo “145 anos de Quadrinhos brasileiros” (montada por Bira e Laurent Melikian). – Quadrinhos brazucas com Bira, André Diniz, Ana Luiza Koehler, Rafael Coutinho, Fábio Moon e Gabriel Bá (organizado por Eduardo Barbier). – Mauricio de Sousa e seus Quadrinhos, Quadrões e Esculturas (montado por Jacqueline Mouradian, presente no festival com Bira, Fábio e Gabriel). Pela primeira vez a ministra da cultura participou da abertura e o embaixador brasileiro também. Ainda no ano passado, Marcelo D’salete lançou “Cumbe”, projeto de Quadrinhos com raízes africanas, aprovado pelo edital paulista ProaC.

Em 2015, o Memorial da América Latina abriu -mais uma vez- as portas para a Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo (AQC) entregar o Troféu Angelo Agostini. E desta vez com a exposição Brasil- África. Jérémie Nsingi foi a estrela internacional na Exposição, da qual foi curador pelo lado africano.

O trabalho do marroquino Omar Ennaciri sobre Chico Mendes: solidariedade (Foto José Pedro Martins).

O trabalho do marroquino Omar Ennaciri sobre Chico Mendes: solidariedade (Foto José Pedro Martins).

Quebra de mitos –  Desde o dia 23 de março e até a próxima quinta, 23 de abril, a Exposição Brasil-África fica em Campinas, na Biblioteca Pública Municipal. Uma exposição para quebrar mitos e o primeiro deles é o de que a África não teria história em quadrinhos.

Tem e de alta qualidade, com temáticas que ajudam a superar outros pré-conceitos com relação ao território africano, como o de que não haveria vida urbana naquele continente. Não é o que mostram os trabalhos dos quadrinhistas africanos presentes na exposição, como Popa Matumula, da Tanzânia, e Bibi Benzene, de Camarões.

Mas a realidade tribal também está presente, como no trabalho de Youmbi Narcisse, também de Camarões. Omar Ennaciri, do Marrocos, apresenta uma bela obra sobre a realidade mediterrânea de vários países africanos.

O mesmo Omar Ennaciri assina uma das curiosidades marcantes da Exposição Brasil-África: é o seu trabalho sobre o líder ecologista e seringueiro brasileiro Chico Mendes, assassinado em 1988. Mais um sinal da ligação íntima, sentimental, afetiva entre Brasil e África.

Outros quadrinhistas africanos com trabalhos na Exposição são Pahé (Gabão), Georges Pondy, Kangol e Joelle Ebongue (Camarões), Gihèn (Tunísia), Benjamin Kouadio (Costa do Marfim), Mokdad Amirouche (Argélia), Didier Kasai (República centro-africana), Massiré Tounkara (Mali), Brahim Rais  (Marrocos), Sylvestre (Burkina Faso), Dwa de Eric (Madagascar) e Al Mata (Congo).

Pelo lado brasileiro, estão trabalhos de Marcelo D’salete, Flavio Luiz, André Diniz, Pestana, Junião, Pedro Franz, Marcos Franco, Hélcio Rogério, Alisson Affonso, Eloyr Pacheco, Fernando Damasio, Janio Garcia, Alves, Orlando Pedroso e o próprio Bira Dantas.

“A exposição permite muitos questionamentos, muitas discussões, é muito rica”, resume a bibliotecária Suze Elias, responsável pela Gibiteca da Biblioteca Pública Municipal de Campinas, co-promotora da exposição. “Os quadrinhos africanos, de grande influência franco-belga, são de alta qualidade”, nota ela.

A questão racial, da identidade, da cultura negra, muito presentes e gerando reflexões importantes. O Brasil começa a redescobrir a África. Os amados quadrinhos, linguagem universal que diverte, encanta e questiona, estão contribuindo para consolidar esse diálogo interatlântico.

LINKS PARA CONHECER MAIS SOBRE HQ DA ÁFRICA

JÉRÉMIE NSINGI (Congo)

BIBI BENZO (Camarões)

Kangol LedroïD (Camarões)

YOUNA Narcisse Youmbi (Camarões)

DUTA Ebene (Camarões)

JOELLE Ebongue (Camarões)

PONDY (Camarões)

MOKDAD amirouche (Argélia)

SYLVESTRE ZOUMABE Gringo (Burkina Faso)

PAHÉ (Gabão) 

www.pahebd.blogspot.com

AL MATA (Congo) 

DIDIER kassai (Sibut, República Centro-africana)

KOUADIO Kouakou Benjamin (Costa do Marfim) 

Gihèn (Tunisia)

POPA (Tanzania)

Massiré Tounkara (Mali)

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O QUE: Exposição Brasil-África (quadrinhos brasileiros e africanos)

ONDE: Biblioteca Municipal Prof.Ernesto Manoel Zink, Campinas, SP

QUANDO: Até o dia 23 de abril, quinta-feira, em Campinas,

É a , que apresenta ao público brasileiro o que há de mais representativo nos quadrinhos africanos. Muitos quadrinhistas brasileiros estão presentes.

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