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Um texto e duas ilustrações

04/12/2013 por Fábio Sgroi

É curioso como nos livros infantis a ilustração consegue acrescentar nuanças ao texto.

Na minha coluna anterior chamei a atenção para o caso do livro Leo the late bloomer, no qual a mensagem contida na imagem contradiz a mensagem contida no texto, nascendo desse confronto uma terceira leitura. Conforme afirmei, não tenho conhecimento se o escritor e o ilustrador daquela obra combinaram previamente que uma linguagem estaria em oposição à outra e se o resultado disso foi intencional ou apenas acidental.

Não deixa de ser interessante, porém, observar como uma linguagem consegue contribuir com a outra, podendo inclusive resultar numa mensagem diversa daquela que seria apreendida lendo-se somente uma delas.

Outro bom exemplo, que consigo colher da minha prateleira aqui do estúdio a respeito dessa construção de mensagem a partir de duas linguagens distintas, são as duas edições do livro Chapeuzinho Amarelo, escritas por Chico Buarque.

A versão mais recente foi lançada em 1997 pela José Olympio Editora e ilustrada por Ziraldo.

A primeira é um pouco mais complicada de identificar, porque não traz a data da publicação nem o crédito das ilustrações; credita apenas o escritor (Chico Buarque) e o responsável pelo projeto gráfico do livro, a designer gráfica e jornalista Donatella Berlendis, falecida em 2002. Uma pesquisa rápida pela internet me conduziu ao site da Berlendis & Vertecchia Editores, onde consta a informação de que o livro foi publicado pela primeira vez em 1979 por essa mesma editora (o exemplar que tenho consta como uma publicação do Círculo do livro, e imagino que se trate de uma edição específica para a venda por meio do sistema de clube de compras, pelo qual a empresa ficou conhecida nos anos 1970-80). Quanto às ilustrações, tenho bons motivos para supor que foram feitas pela própria Donatella Berlendis (alguns sites de busca de livros a creditam ao lado de Chico Buarque na referida edição, o que dá mais consistência a essa hipótese). É, entretanto, apenas um palpite; caso alguém tenha uma outra informação, por favor, compartilhe comigo.

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O livro conta a história da Chapeuzinho Amarelo, uma menina que tinha medo de tudo e por isso vivia parada no lugar. Existia, porém, algo que ela temia mais do que tudo: o LOBO! De tanto temer o bicho e pensar nele, certo dia a Chapeuzinho Amarelo acaba mesmo topando com um. Contudo, a menina descobre que aquele LOBO não dava tanto medo assim porque a palavra LO-BO bem que podia se transformar na palavra BO-LO e se tornar uma outra coisa.

A ideia proposta pelo texto é brincar com as palavras, tal como ocorre com a transformação da palavra LOBO, que dá nome à criatura tão temida pela menina, em outra palavra que define algo bem menos terrível de se enfrentar e que a ajuda a superar seus medos.

Por meio da transformação das palavras, dos significados que carregam e das ideias e conceitos que transmitem, Chapeuzinho Amarelo muda seu jeito de pensar e passa a viver de uma outra maneira, brincando com as demais crianças, correndo, subindo em árvores e fazendo uma porção de coisas que antes evitava.

O curioso ao observarmos as duas edições é a contribuição que cada ilustrador dá ao texto (observação extensiva ao projeto gráfico e à diagramação).

Minha impressão é que a edição ilustrada por Ziraldo procura a concretização da palavra por meio da imagem, exemplificando com formas e cores as construções e brincadeiras que o texto propõe com as palavras.

Já a edição da Berlendis & Vertecchia Editores prioriza a palavra escrita e valoriza o branco das páginas, sugerindo o silêncio como um mergulho numa certa introspecção presente também no texto (visto que a história permite a interpretação, entre outras possíveis, ao acompanhamos um momento de reflexão e amadurecimento da menina). As imagens, mais esparsas se comparadas à edição de 1997, buscam mais sugerir do que explicitar as ideias contidas no texto.

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Um bom exemplo está na aparição do lobo.

Ziraldo preocupa-se em materializá-lo, em perfeita sintonia com o fato de ele ser um personagem concreto, ainda que possivelmente imaginário, interagindo com a protagonista. O lobo é personalizado de maneira divertida, e confere uma atmosfera de humor à história.

A edição de 1979 parece ir mais de encontro à ideia de que o lobo possa ser apenas fruto da imaginação da Chapeuzinho Amarelo, uma representação e uma personificação de todos os seus medos. Ele nunca é mostrado em sua totalidade. O que se vê são apenas partes e a construção do desenho, apoiado em linhas sinuosas e sugestivas e sem cores, que reforçam essa sugestão de imaterialidade.

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Enquanto as ilustrações da versão de 1997 marcam a presença do lobo pela sua concretização em todas as páginas onde é citado, as da versão de 1979 reconhecem, no contexto da história, que a palavra LOBO deve ser a portadora principal da representação da criatura, parecendo sugerir ao próprio leitor que se encarregue de ilustrá-lo conforme sua própria imaginação.

Tais opções distintas (e igualmente válidas) me parecem ainda mais evidentes na passagem a seguir.

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Ziraldo na edição de 1997 traduz a transformação da palavra LO BO em BO LO por meio de uma divertida brincadeira com a representação de seus respectivos desenhos em positivo e negativo, parodiando os conceitos da Gestalt.

A edição de 1979 assume a repetição da própria palavra LO-BO (separada silabicamente com hífen) como uma “ilustração”; repete a palavra seguidas vezes até que numa das separações, na quebra de uma linha, a mágica se opera: LO-BO vira BO-LO. A princípio não há ilustração, mas na mente do leitor inevitavelmente se formam as imagens correspondentes às palavras. É como se o livro dissesse: “Ra-rá! Te peguei!”

Para terminar devo frisar que, ao reler a edição de 1979, a imagem que ilustra o que acontece depois que a Chapeuzinho Amarelo supera o seu medo do LOBO chamou muito a minha atenção por dois motivos: primeiro porque é a única imagem do livro que possui outras cores que não amarelo e o preto (ela está impressa em verde e vermelho); segundo porque me fez remeter diretamente à passagem bíblica em que Adão e Eva comem o fruto da árvore proibida.

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Será que essa associação foi intencional ou a ilustração pretendeu somente sublinhar a passagem onde se diz que a Chapeuzinho Amarelo passou a trepar em árvores e roubar frutas? Assim como aconteceu com Leo the late bloomer desconfio que nunca terei certeza da intenção da ilustradora (Donatella Berlendis?) na concepção dessa imagem. Ainda assim, pelo menos para mim, a leitura sugere o amadurecimento da personagem.

Enfim, são leituras…

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Fábio Sgroi é ilustrador, escritor e designer gráfico. Formado em Desenho Industrial, atua na área de livros infantis e juvenis, tendo mais de 100 obras ilustradas publicadas. Contato: fsgroi@terra.com.br. http://www.fabiosgroi.blogspot.com.br

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