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Trevas Adormecidas

27/06/2016 por Daniel Bueno

David segurando a cabeça de Golias (1610)

Em meio à penumbra, o facho de luz incide de modo seletivo sobre um nada exultante David e expõe o instante em que o herói segura a cabeça do gigante Golias. As pinceladas não poupam a dramaticidade da cena: estão à mostra todo o horror da face de quem acabou de ser decapitado, o olhar do homem diante da morte. A disposição das figuras, a inclinação do corpo e dos elementos, tudo sugere um momento que foi congelado, como em uma fotografia. A obra David segurando a cabeça de Golias, de 1610, expressa o compromisso com a verdade e a aversão aos vícios acadêmicos. Trata-se de uma das muitas pinturas do artista barroco Michelangelo Merisi (1571-1610), conhecido como Caravaggio – nome da sua aldeia natal perto do Bérgamo, na Lombardia.

De postura revolucionária, seus trabalhos costumavam provocar escândalo, sendo por vezes recusados por quem os encomendava. O artista, inclusive, teve que fazer uma segunda versão de algumas obras encomendadas pela Igreja Católica. Chocava, por exemplo, a obscenidade de determinadas expressões e situações. Mas sua vida pessoal não era menos controversa, imersa em confusões, rumores de crimes, fugas e perseguições. Com 18 anos, foi para Roma e lá desenvolveu parte de sua obra, alternando as sessões de trabalho com as de bebida.

Capaz de trabalhar em velocidade incrível diretamente na tela, sem mesmo ter esquematizado suas personagens, o pintor, criador de obras como A vocação de São Mateus (1599-1600), passou sua existência desesperada e violenta – chegou a confessar um homicídio – de calabouço em calabouço, dos quais foi sendo arrancado por protetores poderosos, cada vez com maior dificuldade. Estilo de vida que o levou à morte com apenas 40 anos, vítima de provável assassinato.

A mesma postura dissonante, no trabalho e na vida, fez com que sua obra fosse esquecida por séculos, apesar da enorme difusão da escola “caravaggesca” no começo dos anos 1600 e de ter influenciado artistas como Velázquez e Rembrandt. É possível considerar Caravaggio uma descoberta do século 20, resgatado pelo historiador Roberto Longhi em sua tese universitária, escrita em 1911, e na versão definitiva da monografia, de 1968. “Foi esquecido, mas sem ele não teria havido Ribera, Vermeer, La Tour, Rembrandt. Delacroix, Coubert e Manet teriam pintado de outra forma”, escreveu o estudioso.

CLARO E ESCURO

Em suas telas, o pintor utilizava o contraste, o jogo de luz e sombra para tornar ainda mais reais suas personagens, todas recrutadas das ruas, mesmo para as cenas sagradas. Personagens da vida que podem ser identificadas em várias pinturas, como o instrumentista do Tocador de lira (1596-97), presente ainda em Concerto de jovens, também chamada de Os músicos (1594-95). Inspirado, inicialmente, apenas pelos jovens garotos, não tardou, todavia, para que a Madalena arrependida nascesse de seus pincéis. Caravaggio teve como modelo preferida a jovem Fillide Melandroni, que posou para Judite e Holofernes (1599), Santa Catarina de Alexandria (1598) e para Marta em A conversão de Madalena (1598).

Judite e Holofernes (1599)

Chama a atenção, no entanto, a presença do próprio artista como personagem em algumas obras. Para produzir os autorretratos, ele utilizava espelhos, os mesmos que serviam para retratar outros modelos vivos, com iluminação artificialmente dirigida. Há ainda a possível hipótese, estudada por David Hockney e Charles Falco, do uso de instrumentos óticos para projetar imagens sobre a tela. Ao pintar o que aparece no espelho, a imagem é simplesmente um recorte daquilo que se vê em determinado momento, como um fotograma.

O pequeno Baco doente, detalhe (1593-1594)

No autorretrato de O pequeno Baco doente (1593-1594), pintado após seis meses em um hospital, as olheiras profundas e o aspecto da pele sugerem a doença – a febre romana ou a peste – que nunca chegará a passar totalmente. Em outro, o amor mostra-se presente. É o caso de Os músicos. Na tela, Caravaggio é o cantor do fundo, à direita.

Os Músicos, também conhecido como Conserto de Jovens, detalhe (1594-1595)

Recentemente, restauradores descobriram outro autorretrato, dessa vez no interior do jarro de vinho da tela Baco (1596-1597), no qual o artista pintou a silhueta de um homem de pé, com um braço estendido. Mas ele ainda aparece em outros trabalhos, como no quadro O Martírio de São Mateus (1599-1600), quando é uma das testemunhas da cena, de rosto atormentado.

Baco, detalhe (1596-1597)

MEMÓRIAS

Pintada durante a estada de cinco meses na Ilha de Malta, após fugir da condenação à pena capital, em Roma, por assassinato, a tela Degolação de S. João Batista (1608) é uma das obras que evocam rebatimentos do artista com sua vida. Sobre a cena, composta por um carrasco que acaba de dar um golpe com espada em um mártir degolado, Pietro Ambrogiani escreveu: “Não podemos nos impedir de pensar que o pintor se inspirou em recordações pessoais”. É a única tela assinada por Caravaggio com o nome aparentemente traçado com o sangue que sai do pescoço, sugerindo uma identificação com a vítima. Nesse sentido, a cabeça cortada do gigante, em David segurando a cabeça de Golias, seria igualmente mais um autorretrato seu. Segurada por um David pouco triunfante, a cabeça de Golias ilustra o profundo tumulto de um pintor atormentado pela perseguição inclemente dos adversários. E foi o próprio Caravaggio que, pouco antes de morrer, atacado e abandonado na rua em Nápoles, ficou com uma cicatriz no rosto como a do seu personagem. A arte imita a vida e vice-versa.

Degolação de São João Batista (1608)

(Artigo publicado originalmente na Revista da Cultura edição 59, junho de 2012)

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Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo. http://www.buenozine.com.br

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