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Texto e ilustração: dois caminhos e uma mensagem

13/11/2013 por Fábio Sgroi

Na minha última coluna falei um pouco sobre a relação que o texto e a imagem constroem nos livros infantis para narrar uma história, e de que maneira a imagem pode complementar o que o texto está dizendo. Vou retomar essa ideia para falar de um outro tipo de relacionamento que o texto e a imagem podem estabelecer para contar histórias: uma relação de contradição.

À primeira vista pode parecer estranho e incoerente que a imagem contradiga o que diz o texto, mas quando bem conduzida essa contradição pode acrescentar nuanças interessantes ao sentido das palavras.

Lendo o livro de Sophie Van der Linden Para ler o livro ilustrado (Cosac Naify, 2011), encontrei uma referência a um livro cuja narrativa fazia uso justamente desse tipo de relação e, movido pela curiosidade, fui atrás. Trata-se de um livro infantil escrito por Robert Kraus e ilustrado por  José Aruego chamado  Leo the Late Bloomer (Inglaterra, Windmiee Books, 1971).

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O livro conta a história de Leo, um tigre que demora mais que seus amiguinhos para aprender coisas como ler, escrever, desenhar e falar. O pai, ansioso para ver o filho se desenvolver tal como as outras crianças, permanece o tempo todo observando Leo e fica muito preocupado com essa demora. Mas a mãe nem se importa, pois acredita que Leo conseguirá fazer todas essas coisas quando estiver preparado. Segundo o entendimento dela, ficar ansiosamente observando se o filho apresenta algum sinal de progresso só vai fazer com que aquilo pareça demorar mais para acontecer.

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Em certa passagem, o texto diz que o pai finalmente resolve escutar o conselho da mãe e decide assistir televisão em vez de ficar o tempo todo observando Leo.

A imagem (abaixo), no entanto, mostra que ele continua preocupado e observando o filho.

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A partir daí, o texto segue dizendo que o tempo passou e que ninguém mais ficou olhando o que Leo estava fazendo. Mas a ilustração insiste em mostrar o pai, ainda que empenhado em outros afazeres, acompanhando as ações do filho, mesmo que de longe.

A dissonância entre texto e imagem, vista a partir da passagem do sofá, é interessante porque, isoladas, as linguagens apontam caminhos opostos. Se lermos a história exclusivamente pelo texto, diremos que o pai de fato deixou de observar Leo e não se preocupou mais; lendo a história exclusivamente pela imagem, diremos que o pai de Leo não foi capaz de seguir o conselho da mãe e continuou a observar o filho. A leitura que resulta da imagem e do texto juntos, porém, é a de que o pai segue o conselho da mãe (afinal, o texto afirma isso), mas que essa não foi uma decisão fácil, e que ele continuou preocupado e buscando, sempre que possível, observar o filho. A imagem, ainda que sutilmente contradizendo o texto, acrescenta o sentido de que o pai está deixando o filho desenvolver-se por conta própria, mas sem deixar de zelar por ele. Na imagem anterior à da cena do sofá o pai se dedica exclusivamente a olhar o filho e, depois, como é visto na imagem abaixo, apesar de continuar tentando observar, ele aparece fazendo outras coisas.

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A pergunta que me fiz quando folheei este livro foi se houve uma combinação prévia entre o escritor e o ilustrador para que a mensagem fosse construída dessa maneira. Será que eles combinaram previamente que o texto afirmaria uma coisa e a imagem sugeriria outra, resultando em uma terceira mensagem? Ou será que a atitude do pai a partir da imagem do sofá foi uma contribuição do ilustrador, que sugeriu acrescentar essa nuança à leitura?

Tal pergunta surgiu porque a maioria dos livros que ilustro são intermediados pela editora e é muito raro o contato com o escritor antes de o livro estar pronto.

Evidentemente, sempre que pertinente, posso discutir e sugerir ao editor nuanças à história por meio das imagens, mas, conforme disse, é muito rara a troca de ideias com o escritor antes de produzir.

Todavia, isso não impede que um escritor conte com a parceria do ilustrador de uma maneira mais efetiva, como num jogo de futebol onde um passa a bola para o outro marcar o gol.  Isso aconteceu comigo no livro escrito por Ruth Rocha que tive a honra de ilustrar, Borba, o gato (Editora Salamandra, 2009).

Recebi o texto e, como é de costume no segmento de literatura, a editora me deixou muito à vontade para ilustrar (nos livros didáticos, por exemplo, é frequente que o ilustrador seja pautado, isto é, recebe da editora instruções bastante detalhadas sobre o que deve ser desenhado).

Lendo a história tive uma grata surpresa: em determinada passagem o texto dizia que o gato Borba havia aprontado uma bela trapalhada, mas não descrevia qual. Dizia apenas que ele havia feito a trapalhada, e pronto: a ilustração que mostrasse do que se tratava. Fiquei muito feliz em perceber que nenhuma recomendação havia sido dada, de modo que eu estava absolutamente livre para criar a trapalhada que eu quisesse (desde que fosse, é evidente, coerente com o restante do texto). Não sei dizer se foi exatamente por isso, pois nunca conversei com ela a respeito, mas imagino que Ruth Rocha escreveu o texto daquela maneira justamente contando com a participação da imagem, prevendo que, naquela passagem, a piada poderia funcionar de maneira mais eficiente se mostrada por meio visual do que descrita com palavras.

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Voltando a Leo the late bloomer, como citei anteriormente, não tenho conhecimento se o escritor e o ilustrador combinaram previamente o modo como o texto e a imagem colaborariam na narrativa, mas é evidente que o resultado dessa parceria bem articulada tornou a leitura muito mais rica.

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Fábio Sgroi é ilustrador, escritor e designer gráfico. Formado em Desenho Industrial, atua na área de livros infantis e juvenis, tendo mais de 100 obras ilustradas publicadas. Contato: fsgroi@terra.com.br. http://www.fabiosgroi.blogspot.com

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