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Steinberg: os portfólios na New Yorker

02/04/2014 por Daniel Bueno
Manassas, Virginia (1978)

Manassas, Virginia (1978)

Em 1973 o artista Saul Steinberg passa a criar com freqüência desenhos de temática urbana para a The New Yorker, ao mesmo tempo em que retoma na revista os “portfólios”. O agrupamento de desenhos, publicados em seqüência de páginas totalmente dedicadas ao artista, haviam sido comuns em seu começo de carreira na importante revista americana, como os relatórios de guerra. Depois de 1945, tornaram-se esporádicos, como nos trabalhos “The Coast”, de 1952. Os ensaios com sons gráficos, publicados em fevereiro de 1955, e o portfólio sobre a viagem à Samarcanda, de 1956, rompem um longo período em que os desenhos de Steinberg ficaram confinados quase que estritamente ao espaço para pequenos cartuns e vinhetas. A partir de então, essas páginas com dois ou mais desenhos viriam a ser freqüentes, como as seqüência com interrogações objetualizadas (1961), os números como objetos (1962), a seqüência de seis páginas com carimbos (1966), as ruas de Nova York (1968), as brincadeiras com o significado de palavras-objeto (1969), dentre outras. De 1973 em diante, praticamente todos os seus trabalhos na New Yorker viriam a ser publicados no formato portfólio, com exceção de ilustrações para artigos. Seriam privilegiados, em significativa parcela, os desenhos sobre a cidade e arquitetura. Alguns períodos sem publicação de trabalhos ocorreriam, um deles significativo, entre 1985 e 1990.

Steinberg com seu gato Papoose e inúmeros desenhos na parede. Casa e estúdio em Amagansett, 1974

Steinberg com seu gato Papoose e inúmeros desenhos na parede. Casa e estúdio em Amagansett, 1974

"Street War" (1972-74)

“Street War” (1972-74)

De modo geral, os portfólios apresentavam uma subdivisão de página em duas partes, seguindo o procedimento de escolher desenhos pregados na parede, aos pares. Estes trabalhos, muitos deles sobre cidades, mostravam vertentes e pesquisas variadas, e eram todos feitos originalmente a cores, mesmo que fossem ser impressos em preto e branco – o que durou até 1989. Era um formato que induzia Steinberg a escolher um tema e selecionar imagens de acordo com interesses diversos: gráficos, de composição e correlação de ideias. O desenho, nessa situação, acaba não sendo lido de modo isolado, sendo compreendido também dentro do contexto da página. Àquela altura leitor de quadrinhos underground, Steinberg criava, ao seu modo, narrativas desconexas com quadros. Tal processo de trabalho, sem o planejamento prévio e meticuloso da totalidade da página, provavelmente conferia uma agradável liberdade ao artista, que podia deixar a resolução do conjunto para o final. Havia também o exercício particular de edição, ou seja, o de experimentar soluções a partir de inúmeros elementos à mostra – e de refletir sobre os resultados mais interessantes tendo em conta as inúmeras possibilidades de combinação. Steinberg chamava esses trabalhos de cadavres exquis (Cadáver Esquisito), nome conferido ao método criativo praticado pelos Surrealistas em que os participantes passam de mão em mão um papel dobrado, adicionando um desenho ou poema que é revelado em sua totalidade apenas quando a página está completa.

Página com desenhos urbanos de 1973

Página com desenhos urbanos de 1973

Alguns dos portfólios apresentam os desenhos de ambientes urbanos violentos e degradados que Steinberg desenvolveu com vigor durante os anos 1970: cenários povoados por personagens de tribos e grupos urbanos das metrópoles, caracterizados por estilos inusitados do universo pop, da mass media, dos quadrinhos, etc. Mas as abordagens não se resumem à Nova York daquela década. Portfólios como “Itália – 1938” (1974), e “Primos” (1979) promoviam uma volta ao passado imersa em lembranças remotas, referências estilísticas e elementos surreais. Nas cenas italianas, soldados desfilam tendo ao fundo pesadas construções fascistas e obras cubistas valorizadas pela Regio Politecnico. Na primeira página de “Itália”, aparece um solitário Bar Grillo – sobre o qual Steinberg chegou a morar, em Milão. Em “Primos”, Steinberg tira proveito de seu olhar atento dos tempos da infância, para mesclar suas lembranças da Romênia às experiências com estilos, desenvolvendo caricaturas de fotografias e seus personagens.

"Itália – 1938" (1974)

“Itália – 1938″ (1974)

"Primos" (1979)

“Primos” (1979)

Também são muito freqüentes os postcards: portfólios com dois “cartões-postais” por página, cada qual referente a um lugar. São obras que costumam exibir um desenho mais preciso no delineamento retilíneo de ruas e construções, e no sombreamento que os aproximam da realidade. De aparência sóbria, sugerem a visão oficialesca da cidade, mescladas a clichés e estilos que geram estranheza e humor. No cartão da cidade de Colton, presente na série publicada em 1978, um olhar atento pode perceber que as pequenas silhuetas que caminham pela cidade são de seres cartunizados, de ratos, pássaros. Abaixo, na imagem de Henderson, o céu escuro e a lua cheia conferem um tom surreal a uma típica e padronizada ruazinha de cidade americana. Enquadramentos de lugares das cidades, semelhantes aos cartões-postais, seguiriam sendo produzidos na revista. Em “Country Traffic” (1980) é potencializada a exploração de estilos e clichês, que passam a povoar o que seriam visões austeras de construções e ruas.

Cartões-postais de Counton e Henderson

Cartões-postais de Colton e Henderson

"Country Traffic" (1980)

“Country Traffic” (1980)

Em outras vertentes, a atenção à arquitetura fica explícita nos títulos: “Arquitetura – Habitação” (1983), “Arquitetura – Villas”, (1983). Nesta última, a peculiaridade de cada diferente construção é evidenciada pelo próprio estilo empregado para desenhá-la. Já em “Habitação”, conjuntos de edifícios, cujos habitantes minúsculos conferem ao ambiente a impressão de lugares desabitados, traduzem a visão esquemática presente na construção da cidade.

"Arquitetura – Habitação" (1983)

“Arquitetura – Habitação” (1983)

Arquitetura – Villas (1983)

Trabalhos com anotações e legendas também viriam a compor os portfólios sobre a cidade, como em “Manhattan” (1994). As frases reforçam, em muitos casos, o humor de Steinberg e o absurdo captado na reflexão daquilo que o artista observa. Algumas de suas anotações seriam agrupadas em certos trabalhos, com a arquitetura sendo deixada de lado: em “Notebook”, sua experiência com o Zen Budismo, uma conversa sobre arte e carpintaria, ou mesmo o comportamento de um gato passam a ser o foco para divagações, que levam muitas vezes seu pensamento de volta aos temas de sua obra.

"Manhattan" (1994)

“Manhattan” (1994)

Nesta fase, além dos cartões-postais e trabalhos sobre a cidade, os portfólios também se voltariam algumas vezes para outras explorações, nos jogos entre palavras e expressões gráficas de “Body English”, “Directions”, e “Inventory”, criadas nos anos 1980. A divisão das páginas destes trabalhos em quadrinhos mostrava que Steinberg nutria interesse por esse tipo de estruturação da página, capaz de promover diálogos entre os desenhos de modo a reforçar uma ideia e evidenciar suas possibilidades e desdobramentos.

"12 Variations" (anos 80)

“12 Variations” (anos 80)

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Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo.

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