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Rian: uma mancha pioneira

02/11/2011 por Daniel Bueno

“Expressão feminil do modernismo” é apenas um dos vários termos usados pelo estudioso Herman Lima para definir Rian (1886-1981), por muitos considerada a primeira mulher caricaturista do mundo. Seu texto sobre a artista, presente no antológico livro “História da Caricatura no Brasil” – publicação de quatro volumes lançada em 1963 – não economiza nos adjetivos ao longo das 23 páginas dedicadas a ela. Lima é consciente do pioneirismo de Rian, não apenas uma mulher caricaturista no Brasil da primeira década do século passado, mas também representante no país do inovador traço sintético encontrado na arte gráfica francesa do período. Merecedora de uma condição de destaque na história da caricatura brasileira, o fato é que a desenhista é atualmente pouco conhecida e mencionada. É possível que isso venha a ser corrigido mais à frente, com o aprofundamento de pesquisas sobre o desenho de humor no Brasil e o lançamento de um maior número de livros sobre o assunto. Pois o trabalho de Nair de Teffé – seu verdadeiro nome – é daqueles que saltam aos olhos pela força de seu grafismo, contrastante com o traço de seus contemporâneos colegas de ofício do Brasil. Enquanto alguns desses artistas se destacam pelo apuro e domínio do desenho desenvolvido ao longo de uma persistente trajetória no meio editorial brasileiro, a carreira de Rian é curta e seu trabalho pouco variado, merecendo atenção por apresentar de modo contundente e particular características representativas do desenho moderno europeu daquela época.

Rian, publicada na Fon-Fon!, 1910

Nascida em Petrópolis em 10 de junho de 1886, Nair não era uma moça qualquer: filha dos Barões de Teffé e neta do conde Von Hoonholtz, pertencia à alta elite carioca, se tornando em 1913 esposa do Marechal Hermes da Fonseca, então Presidente da República. Cresceu no sul da França e recebeu educação na Europa. Freqüentou os melhores conventos da região e aos 11 anos ingressou no Curso Vivaudy, uma fechada escola da Riviera que só recebia 36 alunas, passando três anos depois a aperfeiçoar os estudos em Paris. Com amplo repertório cultural e domínio do canto, pintura, teatro e piano, esta mulher moderna e vivaz era elegante na vida e no traço: como observa Herman Lima, Nair de Teffé era “pertencente à mesma alta roda mundana que seu claro instinto de caricaturista nata iria celebrar”. Tinha, portanto, a vantagem do olhar de quem vivencia o meio, capaz de captar minúcias e a personalidade do indivíduo, adequadas às crônicas visuais e desenhos de costumes da sociedade do Rio de Janeiro do começo do século XX. Mas, ao mesmo tempo, essas caricaturas – de pessoas que conhecia pessoalmente, inclusive – evitavam a afronta. Faziam sorrir, sem ferir. Como bem assinala texto da Revista da Semana, em junho de 1921, sobre a artista: “surpreendem-se por vezes, nos traços de certas caricaturas, indícios de várias personalidades evidentes, conhecidas nas letras, na política, nas reuniões mundanas. Essa ligeira nota de verdade aumenta o real interesse dos desenhos, que cresce apenas pela simpatia que eles refletem, e não pelas cruéis indiscrições que poderiam tantas vezes sugerir. Não chegando a ser uma sátira, são mais maliciosos que malignos”.

Rian, publicada na Fon-Fon!, 1910

O trabalho de Rian representa de modo direto um estilo de caricatura – de traço ágil, sintético e elegante – que vinha sendo desenvolvido na França durante a Belle Époque, com influência inegável de Mitch, De Losques, Faivre e Georges Goursat – mais conhecido como Sem. No Brasil, dividia tal herança com Cardoso Ayres, cartunista de origem pernambucana morto aos 26 anos, outro admirador de Sem. Ambos foram imunes à influência de Julião Machado, dotado de um estilo de linhas definidas que seguia a tradição de Bordallo Pinheiro. Para Rian, Sem era o maior caricaturista de todos os tempos, mas a grande influência foi recebida de De Losques, artista morto precocemente em 1915 na Primeira Guerra Mundial, cujos trabalhos a deixavam fascinada quando ainda morava em Paris. A artista buscava, como ele, uma arte simples e precisa, combinando traços essenciais com freqüentes planos negros.

Sem

Adepta da sutileza, era contrária à deformação total do caricaturado. “Sou o contrário de um Rouveyre, por exemplo. Este transformava as pessoas quase que em macacos. Eu sou diferente. Os meus bonecos não provocam gargalhadas, despertam sorriso. Sou francamente pelo sorriso em matéria de caricatura”, confessou uma vez. Rian, portanto, não era propriamente original, mas seu estilo era praticamente único naquele tempo no Brasil. Havia decerto uma certa monotonia e alguma limitação em seu desenho, calcado na excessiva predileção por figuras voltadas para a esquerda. De qualquer modo, apresentava um trabalho de qualidade, hábil na seleção e síntese de elementos marcantes da personalidade do caricaturado, tendo sido publicado também em revistas francesas como Le Rire, Excelsior, Fémina e Fantasio. As influências são visíveis, mas a força gráfica da mancha espessa e solta que define algumas silhuetas é uma marca particular e inovadora de sua obra, que adquire impacto ainda maior se vista no contexto da produção nacional daquelas décadas.

A carreira de Rian foi breve, com produção significativa entre 1906 e 1913. Em 1906 seus originais já chamavam a atenção e corriam de mão em mão a partir da Pensão Central, ponto chique de Petrópolis. Eram muitas as encomendas de caricaturas, limitadas à circulação restrita do grand monde, chegando a artista a desenhar até vinte por dia. Depois de receber a admiração do Barão, até então avesso aos desenhos, passou a participar de exposições. Foi em julho de 1909 que teve publicada sua primeira caricatura no meio editorial, um portrait-charge da artista Réjane, na revista Fon-Fon! Participou também da Careta, Gazeta de Notícias, e seguiu com trabalhos e mostras até 1913, quando teve sua carreira praticamente interrompida aos 27 anos após se casar com o amigo de família e então Presidente do Brasil Hermes da Fonseca, o “seu Dudu”.

Rian, primeira caricatura, Artista Réjane, 1909

Este estava viúvo há pouco tempo e era 31 anos mais velho, fato que foi valorizado por seus opositores na época com chacotas e piadas. Conhecida por uma certa extravagância e por atitudes anticonformistas, a jovem primeira-dama provocou celeuma e indignação em Rui Barbosa quando prestigiou a compositora Chiquinha Gonzaga, então ostracizada devido à sua agitada vida pessoal, com uma apresentação de seu “tango-maxixe” no Palácio do Catete. Em outra ocasião, em uma reunião do Ministério, desenhou na roda de seu vestido de gala as caricaturas de todos os Ministros da República. Após o termino do mandato, o casal viajou para a Europa e morou na Suíça durante seis anos. Depois do casamento os trabalhos da artistas chegaram a ser publicados esporadicamente, como as charges criadas em 1922 para o livro de crônicas “Petrópolis, a Encantadora”, de Otto Prazeres. Após a morte do marido, em 1923, Nair se confinou em um pequeno sitio nos arredores de Niterói, vivendo de uma modesta pensão militar. No fim da vida escreveu sua biografia, com o título “A verdade sobre a revolução de 22”.

A postura afirmativa de Rian chacoalhou convenções, mas não foi suficiente para impedir o rompimento abrupto de sua carreira em 1913. Ao que parece, a mesma condição privilegiada que permitiu o surgimento da primeira mulher caricaturista acabou, mais à frente, coibindo seu desenvolvimento. As artes gráficas brasileiras têm motivos para comemorar o pioneirismo de Rian, e também para lamentar o precoce abandono de ofício dessa marcante desenhista da mancha sintética.

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Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo. http://www.buenozine.com.br

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