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Raios do Céu: dos santos medievais aos heróis do gibi

30/09/2014 por Spacca
pintura de Giotto

Pintura de Giotto

Ajoelhado, o monge ergue mãos e contempla o céu: uma figura celeste com três pares de asas paira sobre a paisagem montanhosa.  Das mãos, pés e flanco do personagem voador, partem raios que atingem as mãos, pés e flanco do monge, que não parece assustado: antes, parece colocar-se em posição receptiva, disposto a sofrer o impacto dos raios.

Raios? Foi a primeira coisa em que pensei, mas agora me dou conta de que não podem ser raios. Não são relâmpagos como os disparados por Zeus, e não havia raio laser na baixa Idade Média… Talvez sejam fios de ouro, ou simples linhas de correspondência entre as feridas do monge e as chagas de Cristo.

A pintura é do florentino  Giotto di Bondone (1267-1337), foi pintada por volta de 1295 com óleo e ouro sobre madeira, está no Louvre e pretende retratar um acontecimento real da vida de S. Francisco de Assis – um fenômeno místico, na interface do plano temporal com a eternidade, conhecido como “estigmatização”.

Em 14 de setembro de 1224, Francisco meditava no monte Alverno e teve a visão de um serafim de seis asas, e no centro a figura de Cristo; ao final da meditação, as marcas da crucificação haviam ficado impressas em seu corpo, o que lhe causava muita vergonha e sofrimento físico. Segundo a “Legenda Dourada” de Jacopo de Varazze, o santo procurou ocultar de todos esses estigmas, cuja existência real, vista por poucos durante sua vida, foi testemunhada por muitos após sua morte (este mesmo fenômeno ocorreu com outros santos, sendo o mais recente o santo Padre Pio de Pietrelcina, em 1918, cujas chagas se mantiveram frescas e sem corrupção por 50 anos).

Padre Pio recebe a Transverberação

Padre Pio recebe a Transverberação

Padre Pio, assim como Santa Teresa d’Ávila (1515-1582), relataram que um anjo lhes atirou algo parecido com um finíssimo dardo de ouro com fogo na ponta. A ferida não fechava, não infeccionava e exalava cheiro de flores. Assim, talvez com S. Francisco também fosse algo que se arremessasse.

Êxtase de Santa Teresa, escultura de Bernini

Êxtase de Santa Teresa, escultura de Bernini

Giotto posicionou de forma didática seus personagens, de forma que todos os pontos de emissão e recepção dos raios ficassem visíveis. Porém, nenhum “efeito especial” indica que o serafim está sendo visto apenas pelos “olhos da inteligência” ou que é uma realidade espiritual; o anjo parece tão corpóreo quanto uma águia; o único elemento que evoca transcendência é a aura dourada, presente tanto no anjo como no monge.

Contudo, na parte de baixo do painel vemos uma série de três quadros. O primeiro representa um sonho: o papa Inocêncio III sonha com Francisco escorando a igreja de Latrão que ameaça desmoronar. Os outros são o papa autorizando a criação da ordem, e Francisco pregando aos pássaros.

painel de São Francisco, Giotto (detalhe)

Painel de São Francisco, Giotto (detalhe)

Tanto a visão mística como o sonho são desenhados com o mesmo naturalismo; não temos “nuvens de pensamento” ou qualquer recurso gráfico que indique sua natureza onírica ou transcendente. Enquanto o papa dorme, o que ele sonha aparece do lado de fora do quarto, como num teatrinho; e a experiência mística, por definição apenas perceptível nos derradeiros graus da contemplação religiosa, parece flutuar na paisagem como um OVNI.

Figuras celestes emitindo raios se tornaram figuras populares nos comics do século XX. Remetem, porém, a utopias científicas: são raios de energia, às vezes acionados por aparelhos nos punhos.

Space Ghost

Space Ghost

HQ heróis

HQ heróis

É curioso ver as reminiscências religiosas que acompanham os super-heróis e seus poderes. Seria interminável listar as inspirações ou coincidências desses mitos modernos com os ícones religiosos de todos os tempos. Vejamos apenas um caso: o Homem de Ferro, talvez uma atualização do Homem de Lata do Mágico de Oz, com seu coração ameaçado por estilhaços de bomba e mantido vivo por um reator, e o Sagrado Coração de Jesus, envolto por espinhos e soltando labaredas. Desde os egípcios, que representavam o coração como um vaso contendo energia vital, este órgão é visto como o “sol do corpo”, sede da vitalidade, da energia criadora e do amor, significado não inteiramente apagado da imaginação coletiva e da linguagem, por mais que se implantem pontes de safena para prolongar sua existência.

É a persistência do sagrado nos mitos modernos? Ou a aspiração da ciência a se tornar a próxima religião?

o simbolismo solar do coração, no Homem de Ferro e no Sagrado Coração de Jesus: centro de energia irradiante, centro do ser

O simbolismo solar do coração, no Homem de Ferro e no Sagrado Coração de Jesus: centro de energia irradiante, centro do ser

 

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SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, As Barbas do Imperador e D.João Carioca (ambos em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com

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