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Os murais de Steinberg

12/02/2014 por Daniel Bueno

O artista Saul Steinberg, tão conhecido pelos desenhos e cartuns para a revista The New Yorker, fez alguns significativos murais ao longo de sua carreira. Sua produção foi especialmente intensa entre 1947 e 1949, com quatro murais criados. O artista gráfico, acostumado a resolver trabalhos dentro das proporções e modo de produção das revistas, teve que enfrentar desafios e encontrar novas soluções técnicas para escalas maiores, compensando a pouca experiência com sua inventividade. A primeira encomenda veio em 1947, quando desenhou uma cena eqüestre de Central Park no sétimo andar da loja de departamentos do Bonwit Teller em Nova York. O desenho original foi feito na escala habitual, na metade de um papel de desenho Strathmore, e foi preciso um “exército de hooligans” – nos dizeres de Steinberg – para passá-lo ao tamanho final.

Saul Steinberg no estúdio de Gjon Milli, trabalhando no mural do hotel Terrace Plaza em Cincinnati

Saul Steinberg no estúdio de Gjon Milli, trabalhando no mural do hotel Terrace Plaza em Cincinnati

Mural do Terrace Plaza Cincinnati, foto publicada na revista Architecture Review em 1948

Mural do Terrace Plaza Cincinnati, foto publicada na revista Architecture Review em 1948

Como o método se provou imperfeito, Steinberg providenciou para o próximo trabalho, feito naquele mesmo ano, um estúdio alugado de seu amigo fotógrafo Gjon Mili, e fez oito pinturas a óleo sobre lona. A obra foi criada para a sala de jantar do Terrace Plaza Hotel, em Cincinnati, Ohio. Um artigo sobre este projeto de Skidmore,Owings & Merrill, publicado na revista The Architectural Review em 1948, comentou a adequação do traço de Steinberg ao espaço da sala: “o (…) desenho de linha de Steinberg se ajusta muito bem ao comprido restaurante, onde qualquer coisa mais pesada poderia ser opressiva”. Apesar do esforço técnico e de estar mais satisfeito que no trabalho anterior, o desenhista se mostrou esgotado ao término do processo.

Detalhe de desenho para mural da American Export Lines, 1948

Detalhe de desenho para mural da American Export Lines, 1948

Finalmente, em 1948, Steinberg chegou a uma solução apropriada: tratar o mural como uma página de publicação. Com o objetivo de criar uma série de murais de bar para os navios Four Aces da American Export Line, o cartunista cruzou o oceano e enviou de Paris uma quantidade de desenhos sobre a vida a bordo de um navio. Estes desenhos foram fotograficamente ampliados em vinil, cada qual sendo aplicado em um navio. Como resultado, quatro murais e quatro pagamentos, pelo esforço de um.

An exhibition for Modern Living, 1949. Detalhe do mural de Steinberg.

An exhibition for Modern Living, 1949. Detalhe do mural de Steinberg.

O artista empregou a mesma técnica em 1949, em um mural para a marcante mostra de design de interiores modernista de Alexander Girard, An Exhibition for Modern Living. Imagens fotográficas gigantes de seus desenhos, retocadas com cor segundo suas especificações, mostravam uma cidade em vistas fragmentadas, em interiores repletos de produtos da vida moderna como tostadeiras aerodinâmicas. Instalada no The Detroid Institute of Arts e no J.L. Hudson Department Store, e expondo dentre seus duzentos participantes trabalhos como os de Charles e Ray Eames, Florence Knoll, Alexander Calder e Mark Tobey, Steinberg comentava seu papel com humor: “Os arquitetos estão mostrando as coisas boas que têm feito (em sua opinião) nos últimos vinte anos. E eu mostro…as coisas horríveis ou idiotas que têm sido feitas”. Joel Smith considera, no livro Illuminations – Saul Steinberg, que a mostra serviu para reforçar a imagem de Steinberg no contexto do modernismo: “A exibição, para a qual Steinberg aceitou um pagamento simbólico, selou sua identidade nos círculos do design e arquitetura como o desenhista-laureado do modernismo”.

O labirinto da décima Trienal de Milão, 1954.

O labirinto da décima Trienal de Milão, 1954.

Móbile de Calder no centro do labirinto de Milão

Móbile de Calder no centro do labirinto de Milão

Fragmento de "The Line", um dos desenhos que compõem o mural do labirinto de Milão, 1954

Fragmento de “The Line”, um dos desenhos que compõem o mural do labirinto de Milão, 1954

Cinco anos depois, Saul realizou o seu mais ambicioso mural, para uma exposição de arquitetura e design, a 10th Trienal de Milão. Os desenhos de Steinberg compuseram as paredes do um labirinto para crianças idealizado pela firma BBPR (Belgiojoso, Peressutti e Rogers). Eram seis muros abertos, sem cobertura, que configuravam uma formação semelhante à de um trevo de três folhas – com um Calder disposto no meio -, situadas em um jardim ao lado do Palazzo dell´Arte de Milão. Steinberg realizou os desenhos em longos rolos de papel, imaginando situações para serem dispostas nas três folhas. Como observa Smith, “cada desenho era ampliado para um papel na escala dos muros, e então repousado sobre uma camada fresca de argamassa úmida nas paredes. Os artesãos, em uma técnica conhecida como sgraffito, gravaram os desenhos e tiraram o papel”. Steinberg, então, improvisava desenhando sobre as imagens gravadas no muro, acrescentando elementos como a torre do castello Sforzesco, visível daquela posição. A relação do labirinto com o parque à sua volta foi explorada também quando, “em um ponto, um par de deliciosas sereias steinbergnianas parecem ter uma contraparte, de ferro fundido do século dezenove, em uma ponte vista através de um vão ladeado por elas”, segundo artigo de Ian McCallum publicado na Architecture Review em 1954. Este trabalho foi atração e teve ótima recepção de público – adultos e crianças –, agradando mesmo os céticos do design contemporâneo.

Steinberg trabalhando no mural "The Americans", exposto no pavilhão americano da Feira Mundial de Bruxelas em 1958

Steinberg trabalhando no mural “The Americans”, exposto no pavilhão americano da Feira Mundial de Bruxelas em 1958

The Americans. The Road – South and West”, 1958

The Americans. The Road – South and West”, 1958

The Americans. Cocktail Party, 1958

The Americans. Cocktail Party, 1958

Quatro anos depois, em 1958, Steinberg fez o mural The Americans, para a Feira Mundial de Bruxelas. No livro Illuminations, Joel Smith descreve as peculiaridades do trabalho: seções do mural foram montadas em um grupo de paredes auto-portantes no andar aberto do pavilhão americano. Antes de chegar a Bruxelas, Steinberg enviou uns quinze desenhos em linha, feitos em caneta e tinta, de arquétipos das paisagens americanas. Estas cenas provinham de anotações visuais feitas pelo artista em suas muitas viagens pelo país. Fotograficamente aumentadas a aproximadamente 10 pés de altura, as cenas foram colocadas juntas para produzir paisagens, cada uma assumindo uma faceta da “América” segundo a imaginação que a Europa tinha dela: A Estrada, Rua Principal – Cidade Pequena; Centro da Cidade – Grande Cidade; Farmácia; Coquetel; Beisebol; e, em uma simplificada fusão de Estados de clima quente, Califórnia, Flórida, e Texas. Estas serviram como panos de fundo para um elenco de personagens de papel craft criados por Steinberg e sobrepostos no próprio local. Segundo Smith, os “americanos” representados no painel – de face inexpressiva, com camisetas e óculos -, eram moralmente e culturalmente tão próximos da vida real que havia a esperança do diretor de arte do pavilhão para uma “considerável controvérsia”. The Americans se tornou um dos murais de maior expressão de Saul Steinberg, com uma diversidade plástica caracterizada pelas inusitados contornos e formas das figuras humanas sobrepostas ao seu traço mais conhecido de cartunista e mestre da linha fina. O uso de papel craft viria a ser explorado nas inúmeras experimentações com máscaras que passaram a ser feitas a partir de 1959. Anos depois, em 1966, Steinberg recorreu ao material no painel da exposição Le Masque, desenhando diversas situações do mundo das artes. Tanto nesse como em murais anteriores, o artista deixou evidente seu talento na ocupação de grandes superficies com desenhos de envolvente continuidade, tais como a linha ambígua e em permanente transformação de The Line, exposta na obra de Milão.

Steinberg e o mural Le Masque, Galeria Maeght, Paris, 1966

Steinberg e o mural Le Masque, Galeria Maeght, Paris, 1966

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Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo. http://www.buenozine.com.br

 

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