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O primeiro ilustrador a gente não esquece

15/07/2011 por Spacca

– Você quer ser ilustrador mesmo, ou é mais um desses bundões que só "gostam de desenhar"?
Foi assim que Brasílio Tsuguo Matsumoto me recebeu, ele no volante e eu no banco de trás, com mais alguns alunos do Ismael.
Ora, eu disse, claro que eu não era um desses bundões…
Eu desenhava o tempo todo, estudava anatomia desde os 13, queria ser animador na Disney e, afinal de contas, estava disposto a madrugar todo sábado para frequentar o futuro "Núcleo de Arte" do professor Ismael dos Santos, na Lapa, distante duas conduções do meu bairro na zona leste de São Paulo.
Mas era só nisso que eu não era bundão. No mais, nossa diferença era abismal, a que existe entre um moleque e um Homem.
Cronologicamente, éramos dois moleques: eu tinha 15 anos e o Brasílio ia fazer 18.
Mas Brasílio tinha carro, emprego, estúdio e talvez namorada – ele casou no ano seguinte, 1980.
Dali a pouco, num cruzamento perto da N.Sra. da Lapa, uma moça de vestidinho curto e cabelos esvoaçantes cruza a faixa de pedestres à nossa frente. Brasílio:
– Olha que perfeitinha, parece aquelas meninas do Frazetta.
Parecia mesmo. Eu já havia copiado aquele rosto de maçãs salientes e nariz arrebitado de um álbum de pinturas do Frank Frazetta, capista de Conan e Vampirella. O corpo era menos hercúleo e voluptuoso, mas as proporções faziam jus à comparação, que só um desenhista podia fazer para outro.
– Vamos almoçar?
Comemos coxinha e guaraná num balcão, ali na Clélia, perto do futuro Sesc Fábrica Pompéia – tudo ainda era futuro nesse tempo!
Brasílio não deixou que eu pagasse. Achei o máximo: ganhar dinheiro com desenho, ter independência, comer coxinha com guaraná no boteco em vez do almoço na casa dos pais e ainda pagar pros amigos!
Dali, fomos ao seu estúdio, um sobradinho que ele dividia com um outro colega japonês, o nome me fugiu agora (seria Fugio? brincadeira…).
Numa salinha apertada havia duas pranchetas, um gaveteiro cheio de copos com pincéis, uma parede inteira revestida de cortiça cheia de esboços, recados, caricaturas, alguns trabalhos em andamento.
O sócio estava aerografando um ser bizarro, um frango com cabeça de leitão. Era para um anúncio de limpa-forno.
O desenho de base havia sido feito minuciosamente a lápis por Brasílio, a pele arrepiada do frango, gotas de gordura na cabeça do leitão e o reflexo preciso na baixela de prata, onde o "leitango" estava repousado.
Podia já ser uma arte-final, com sombras e brilhos muito bem definidos; mas estava sendo duplicado nos mínimos detalhes pelo japa do aerógrafo, que respeitava cada brilho e sombra realizados pelo Brasílio.
Eu não sabia o que admirava mais: se a perfeição do desenho original, ou a capacidade de recriá-lo em cor, sem perder nada do que foi determinado.
Ali perto, algumas fotografias de leitão e frango assados, recortes de revista com objetos de prata – "referências", como aprendi a chamar desde então.
Aquela pilha de Playboys no canto também eram "referência":
– Essas Playboys estão cheias de ilustradores bonzões, não é pra sacanagem, não – garantiu com sorriso cúmplice.
Além de tudo o que via, meus ouvidos estavam bem abertos para captar as novíssimas palavras que eu logo aprenderia a usar:
"Gráfico", para se referir à qualidade sintética de certas ilustrações, misto de economia com elegância, que as faziam próximas de uma marca ou logotipo, e que as tornavam excelentes para comunicar, simbolizar e ainda boas para impressão em qualquer tamanho, e para serem vistas à distância. Exemplo: "esta capa ficou bem gráfica".
"Solto", característica que certos desenhos possuem, ao aparentarem terem sido feitos com maestria, leveza e quase nenhum esforço. Exemplo: "Fulano tem um desenho bem solto".
(Claro que ninguém me explicou "gráfico" e "solto" nestes termos – isso a gente pegava na conversa, na prática, olhando a coisa na realidade e a expressão que lhe cabia, como tantas outras: frila, mancha, layout, storyboard, trincha, godê, ecoline, cola benzina, michilim, estilete, schoeller, prisma, mesa-de-luz.)
Não, ilustradores não eram bundões! Pegavam seus "frilas" e varavam a noite em cima da prancheta, queimando a retina nas mesas de luz e a cabeça sob a luminária, os dedos sujos de nanquim, guache ou ecoline, e sabiam cobrar.
Muita gente dependia dessa garra e profissionalismo, lá no mundo ainda desconhecido para mim das agências de publicidade.
Anoiteceu muito rápido, e as 5 ou 6 horas que fiquei lá escorreram num instante.
Quem viaja sabe que, nos primeiros dias em uma terra estranha, a gente não quer perder nada e, assim, com os sentidos super-aguçados, capta tanta informação que a gente tem a sensação de viver ali há muito tempo.
Foi isso o que experimentei. O primeiro ilustrador e o primeiro estúdio de verdade que conheci, e quis aprender tudo num só dia, de uma só vez.
Mas essa voracidade de aprender teve um preço…
Brasílio pegou o carro e me deixou na avenida Rebouças, para que eu pegasse um ônibus para casa.
Eram umas vinte horas, a Rebouças meio deserta, vento meio frio da noite já soprando.
Veio o primeiro buzão. Mas meus olhos estavam cansados, eu não conseguia distinguir o letreiro.
Precisei parar o ônibus e perguntar o motorista: passa na Celso Garcia?
Não me lembro se passava, ou se peguei o segundo; mas fui até o largo do Belém, e lá a mesma coisa, o letreiro parecia borrado.
Uma mulher com crianças teve que me dizer que era o Vila Formosa, subi e logo mais cheguei ao Tatuapé.
Esse foi o preço do imenso "download" de informações e impressões daquela tarde: piora momentânea da visão.
O saldo, porém, positivíssimo: havia entrado na Terra dos Ilustradores, em breve seria um deles.
Poucos meses depois, Brasílio deixa a Young & Rubicam para voltar à DPZ e me indica para ocupar a sua vaga.
– Spacca, leva o teu portfólio lá, eu falei pra eles que você é bom pra caralho. Você não vai furar, vai?
Sempre desafiando.
Consegui a vaga.
É a marca dos Escorpiões: tive três me incentivando, no começo de carreira: Ismael, Brasílio e Natan.
Para eles, artista tem que ser "macho" (seja de que sexo for), buscar e aceitar desafios.
Ilustração não é para bundões…

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SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D.João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge Amado. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com/

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