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Máscaras: olhe e vista

23/12/2013 por Daniel Bueno
Bruno Munari: um dos desenhos de "Guardiamoci negli occhi"

Bruno Munari: um dos desenhos de “Guardiamoci negli occhi”

Três furos circulares no papel foram o ponto de partida para os inúmeros rostos que o designer Bruno Munari elaborou na publicação Guardiamoci negli occhi (Olhe nos meus olhos), cuja primeira edição data de 1970. Dois furinhos no alto e outro maior centralizado mais abaixo – os olhos e uma boca – sugerem uma face, como aquelas que vemos, inesperadamente, em tomadas elétricas e outros objetos do cotidiano. Uma vez estabelecida essa sutil interferência no suporte, e Munari teve à disposição um campo aberto para inúmeras experimentações e possibilidades gráficas. Ao redor dessas referências circulares, demarcadas sempre na mesma posição em uma série de papéis soltos de mesmo formato – deixando claro o gesto inaugural da empreitada –, o designer italiano desenhou finas linhas circulares, manchas, blocos retangulares, caminhos feitos de pontinhos, sucessões de traços paralelos, pontos agrupados em áreas, etc. O resultado são desenhos, por vezes quase abstratos, que logo remetem a um rosto por estarem relacionados às peculiaridades do contexto.

Bruno Munari: os diferentes tamanhos de furo geram olhos multicoloridos quando sobrepomos as folhas

Bruno Munari: os diferentes tamanhos de furo geram olhos multicoloridos quando sobrepomos as folhas

Conhecedor dos recursos de ilusão, Munari evidencia nesse trabalho como é possível mudar o significado dos elementos gráficos a partir de mínimas interferências no desenho. Num papel sem perfurações, por exemplo, retângulos pretos sobre fundo verde poderiam aludir a uma composição abstrata de formas geométricas, ou a edificações, se quisermos usar a imaginação; o artista, no entanto, conduz essas manchas à condição de sobrancelhas, nariz e cabelo, relacionando-as aos três buracos. Alguns desenhos, é verdade, parecem rostos sem a necessidade dos furos, mas tal variedade de soluções é parte da graça da experimentação. Há também dois casos de rostos com olhos sem furos, cuja cor ou pupilas desenhadas podem aparecer no fundo do túnel de olhos das folhas sobrepostas. Com praticamente uma mesma situação inicial para todos os desenho, o conjunto dos trabalhos reforçam a inspiradora sensação de infinitas soluções gráficas para um único tema, por mais trivial que ele seja.

Os grafismos de "Guardiamoci negli occhi" / "Olhe nos meus olhos"

Os grafismos de “Guardiamoci negli occhi” / “Olhe nos meus olhos”

Ao empilhar e sobrepor todos os papéis, Bruno Munari incita comparações entre os desenhos, não mais vistos isoladamente. E no manuseio aparecem surpresas, como os olhos de duas ou mais cores, resultantes das diferenças de tamanho dos furos.

Munari: papel sobre uma folhas sem furos, de cor laranja

Munari: papel sobre uma folhas sem furos, de cor laranja

No dia em que terminava esse texto visitei na Funarte a exposição Rostos à procura de um rosto, do ilustrador brasileiro Marcelo Cipis. Foi uma feliz coincidência poder apreciar uma variação dessa investigação gráfica de representações do rosto. No caso da mostra, fica evidente que o tema serviu para amarrar diversos trabalhos criados ao longo da carreira pelo artista, feitos nos mais diversos suportes e técnicas. Um dos atrativos da obra de Cipis é o modo como ela não fica restrita ao papel, passeando por outras abordagens – por vezes tridimensionais e inseridas num determinado espaço. A mostra inclui trabalhos em tinta a óleo, acrílica sobre tela, impressão digital sobre metacrilato, fibra de vidro pintada e até bordado sobre tecido. São vários os veículos, de cadernos a transmissões televisivas. Também chama a atenção seu estilo marcante a serviço de idéias resolvidas de modo “gráfico”, com exploração dos recursos de ilusão e ambigüidade do desenho.

"Guardiamo negli occhi": folha sem furo nos olhos

“Guardiamo negli occhi”: folha sem furo nos olhos

Nesses trabalhos, muitas vezes, é uma silhueta, um contorno, que aparece como primeira sugestão de rosto. De modo sintético, alguns se insinuam como uma face misteriosa, sem precisar de olhos e bocas. Mas um agrupamento dessas silhuetas pode constituir um verdadeiro “exército de rostos à procura de rostos”, que aceita inusitados grafismos e garatujas: de olhos oblíquos posicionados na altura adequada a formas amebóides soltas e dispostas a esmo, é bonito constatar como enxergamos, em todos os casos, rostos.

Munari: folha de "Olhe nos meus olhos" (vista sem sobreposições)

Munari: folha de “Olhe nos meus olhos” (vista sem sobreposições)

A variedade de soluções sobre essa série de faces depuradas também nos leva a entender tais intervenções como máscaras, “como expressões e caretas que vestimos em nossos encontros do dia-a-dia, às vezes sem querer”, como observa o crítico Tobi Maier num dos textos do catálogo. Máscaras de estilos que nos remetem aos desenhos e vestimentas de papelão criadas por Saul Steinberg e, novamente, às peças de Munari, que com seus furinhos calculadamente dispostos na posição real dos olhos humanos podem ser efetivamente usadas como tal.

Marcelo Cipis: "Exército de rostos à procura de um rosto" (fragmento), 2013

Marcelo Cipis: “Exército de rostos à procura de um rosto” (fragmento), 2013

Olhe nos meus olhos. Nós somos todos diferentes”, disse o designer italiano. Cada grafismo é também diferente um do outro, cada rosto desenhado ilustra uma pessoa imaginária com especificidades. Ao serem observadas, comparadas umas às outras, vestidas, as máscaras de Munari nos fazem brincar de enxergar com os olhos dos outros. São peças que nos estimulam, também, a sermos mais abertos às possibilidades do desenho, de modo a mergulhar num jogo de formas onde as mais diversas informações gráficas são bem-vindas.

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Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo. http://www.buenozine.com.br

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