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Livro impresso é interativo?

21/01/2014 por Fábio Sgroi

Hoje em dia muito se fala a respeito da interatividade nos livros eletrônicos, mas a gente quase nunca lembra que essa qualidade não é exclusiva do mundo digital. Aliás, os livros impressos – em especial, os infantis – podem ser muito interativos! Basta olharmos para o suporte (isto é,  tudo o que compõe um livro impresso: tipo de papel, formato, encadernação, cores etc) e observarmos suas características para logo enxergarmos várias possibilidades.

Eu mesmo tive uma experiência muito interessante com um livro, cujas ilustrações e projeto gráfico são meus, chamado O caso enrolado do menino calado, escrito pelo Jonas Ribeiro e publicado pela editora Suinara. A história fala de uma pulga chamada Amélia que resolve ir morar na orelha esquerda do Beto, um garoto bastante tímido. Embora não seja o foco da história, a questão da pulga morar na orelha do garoto permeia todo o enredo e no fim das contas eu senti que precisava valorizar esse ponto de alguma maneira. Pensando nisso, imaginei duas orelhas diferentes para o livro… No formato de orelhas!

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Adoro dizer que o livro tem orelhas. Mas o que me surpreendeu mesmo foi que um dia cheguei em casa e encontrei minha filha de nove anos com o livro aberto atrás da nuca, preso na gola da camiseta, de modo que aquelas orelhas enormes pareciam ser as suas! Pensei, então: “Taí um tipo de interatividade que eu não previ”.

Evidentemente o uso das especificidades técnicas do livro não se limita a brincar com a narrativa, pode também ajudar no desenvolvimento e  provocar experiências a partir das associações. Por exemplo, o papel do miolo dos livros costumam ter uma certa transparência. Lendo o livro Funções da linguagem (Samira Chalhub, Editora Ática, 2001) me deparei com a releitura que o artista Omar Khouri fez de um poema de Oswald de Andrade, valendo-se justamente da transparência.

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Fiquei tão entusiasmado com essa sacada que até fiz uma brincadeira parecida que batizei de Abra a janela: tal como no poema relido por Omar Khouri, só vemos o que está na janela quando apontamos o papel contra a luz.

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As páginas do livro e a encadernação também oferecem grandes possibilidades como, por exemplo, a deliciosa brincadeira que Leo Lionni faz em Tico y las alas doradas (Editorial Kapelusz, 1975): ao abrir e fechar o livro, compartilha-se com o pássaro o bater de suas asas douradas.

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No livro Um garoto chamado Rorbeto (Gabriel o pensador,CosacNaify, 2005), ilustrado pelo meu colega de ColunaSIB Daniel Bueno, há, em especial, uma passagem que faz uso do ato de virar a página para provocar no leitor a mesma surpresa que arrebata o protagonista da história ao constatar que possui seis dedos em uma mão em vez de cinco.

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Bruno Munari criou várias obras explorando a materialidade dos livros. Um bom exemplo é Nella nebbia di Milano no qual, a partir de um papel semelhante ao nosso papel-manteiga, o artista cria a sensação de se estar andando em meio à neblina.

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Para finalizar, não posso deixar de citar a famosa obra de Peter Newell, O livro inclinado, na qual o autor faz uso de um formato que remete à inclinação da ladeira que provoca toda a confusão da história e dá nome ao livro. Simples, mas muito engraçado.

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Esses são apenas alguns exemplos de interatividade, que tiram proveito do suporte impresso do livro. As possibilidades, é claro, assim como no mundo digital, são ilimitadas…

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Fábio Sgroi é ilustrador, escritor e designer gráfico. Formado em Desenho Industrial, atua na área de livros infantis e juvenis, tendo mais de 100 obras ilustradas publicadas. Contato: fsgroi@terra.com.br. http://www.fabiosgroi.blogspot.com.br

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