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Kactus Kid: o Oeste chinfrim de Renato Canini

18/11/2013 por Spacca

quadrinho kactus

Renato Canini (1936  – 2013), o desenhista que tornou o Zé ainda mais Carioca, também marcou presença na HQ brasileira como criador do pistoleiro Kactus Kid, publicada nos seis números da revista “Crás” (fevereiro de 1974 – dezembro de 75).

Consultando a ficha de Canini no diretório mundial da HQ Disney – o INDUCKS – constatamos que o artista estava na plenitude de seu estilo, desenhando Zé Carioca como se fosse seu, na mesma época em que fazia o Kactus com praticamente os mesmos grafismos.

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A “Crás” foi uma experiência da editora Abril na fase mais pujante de sua produção de quadrinhos, a chamada “Era Pato”. As tiragens variavam de 200 a 500 mil exemplares num tsunami de 4 milhões de revistas por mês, e os patos, cães e camundongos também invadiam manuais, enciclopédias e edições nostalgia de capa dura. Parte respeitável do material era feita no departamento de infanto-juvenis da Abril que empregava 130 pessoas, das quais 30 eram desenhistas e roteiristas.

Foi então – nos informa Gonçalo Júnior em seu minucioso “O Homem Abril” – que o editor Cláudio de Souza, desde 1971 no comando dos infanto-juvenis, propôs a criação de uma revista só de autores nacionais e suas criações, nos moldes das europeias “Linus” e “Pilote”. A “Crás” era uma verdadeira salada de estilos e personagens, misturando veteranos e novatos, temas folclóricos e internacionais, desenho realista e cartum, e vários participantes eram prata da casa.

Na visão de Cláudio a “Crás” não precisava dar lucro, seria uma revista-laboratório cujos personagens eventualmente poderiam ganhar revista própria (como aconteceu com Satanésio, de Ruy Perotti).

Primórdios da “Crás”: os movimentos pela HQ nacional

De certa forma, Cláudio de Souza, por vias editoriais, atendeu aos anseios dos movimentos pelo quadrinho nacional de uma década atrás, quando foi criada a Cooperativa e Editora de Trabalho de Porto Alegre (CETPA), em 1962. Naquela experiência Canini também participava fazendo o cartum em tiras “Zé Candango” – candango era o migrante que construiu Brasília – criação do diretor da CETPA, Zé Geraldo. De cunho marcadamente ideológico, a tira sacaneava os arquétipos do “imperialismo ianque”, representado por heróis e “mocinhos” do faroeste (ideia reaproveitada por Ziraldo nos “Zeróis” em 1967 no JB e depois no Pasquim).

caricatura de Gene Barry do seriado Bat Masterson, na tira "Zé Candango"

caricatura de Gene Barry do seriado Bat Masterson, na tira “Zé Candango”

Mas em 1974, no final do governo Médici, é claro que Canini não iria fazer um libelo anti-americano com Kactus Kid. Ele até que tentou sutilmente assinalar sua rebeldia: o nome original do pistoleiro era Koka Kid, porém mudaram o nome para Kaktus sem consultar o autor (estranhíssimo esse “Koka” – conotações políticas à parte, “Kactus” ficou muito melhor). Mas Kactus, ainda que tivesse permanecido Koka, jamais poderia personalizar a arrogância imperialista atribuída aos americanos, seu papel de xerife do mundo, guardião da lei e da ordem. Kaktus Kid, aliás, Zeca Funesto, é um dos personagens mais indigentes da HQ, ao lado de Rango e Zeferino.

Como Zé Carioca, atormentado pelos cobradores da Anacozeca (Associação Nacional dos Cobradores do Zé Carioca – criação do roteirista Paulo Paiva, editor e cartunista de “Chico Peste”), o pacato e esfomeado coveiro Zeca Funesto também é “perseguido pelos credores”. Tudo na HQ é penúria, miserê; na parede de tábuas, contas e mais contas; nada funciona como devia, até a cidade estagnada tem o nome de “Deskansas City”. O remédio de Zeca Funesto é se transformar em Kactus Kid para matar uns bandidos e conseguir “fregueses”.

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Da mesma forma que outros personagens da revista – o Lobisomem (Julio/Herrero) que não assustava ninguém, o diabo (Satanésio de Ruy Perotti) que não superava a maldade dos viventes – Kactus Kid é mais um fracassado, um pistoleiro numa cidade em que até os bandidos resolveram ser honestos e fundaram a ABR – Associação dos Bandidos Regenerados (Canini é chegado numa associação…).

Se brincar com a miséria sempre foi uma tradição brasileira (“de dia falta água / de noite falta luz”, cantava a marchinha), depois que o aclamado Milagre Econômico sucumbiu à crise internacional do petróleo, fazer humor com a crise tornou-se endêmico. Por causa da censura, ocupada em zelar pelo respeito às autoridades e aos bons costumes, e também por influência das análises socioeconômicas da pobreza feitas pelos intelectuais, o humor econômico torna-se o dominante, e os temas preferidos eram a inflação e custo de vida – obsessão monotemática que dominou os programas de humor televisivo até os anos 90.

A tradição do miserê

Assim, lanço a tese de que o faroeste de Zeca Funesto/Kactus Kid – longe de ser uma sátira do velho oeste e menos ainda dos Estados Unidos enquanto potência – na verdade representa, por meio e por trás dos batidos clichês do western, o velho Brasil chinfrim de sempre; a afirmação da “chinfrineidade” no humor nacional cumpre a função de ressaltar o artificialismo de todos os discursos nacionalistas de sempre, do Brasil Ame-o ou Deixe-o dos militares ao Brasil Bola-da-Vez do lulismo.

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Em matéria de western brasileiro com humor, Kactus Kid tem antecedentes ilustres: as chanchadas “Matar ou Correr” (1954) e “Pistoleiro Bossa Nova” (1960), as músicas do “Kid Morengueira”, de Miguel Gustavo na voz de Moreira da Silva (“Eu atirei, ele atirou, e nós trocamos tantos tiros / Que até hoje ninguém sabe quem morreu”), o filme “Uma Pistola para Djeca” (1969) de Mazzaropi e outros.

A piada básica de Kactus – ser coveiro numa terra onde até os mortos são raros – é semelhante ao drama do prefeito Odorico Paraguassu, na telenovela de Dias Gomes “O Bem Amado” de 1973, que não conseguia inaugurar o cemitério e para isso teve de contratar o pistoleiro Zeca Diabo.

O Velho Oeste já foi Novo

O gênero do western nasceu contemporâneo às histórias que conta. Já no tempo da corrida do ouro nos Estados Unidos havia farta literatura popular, em livrinhos de papel vagabundo e capa chamativa chamados “dime novels” (novela de dez cents), continuadores das sagas dos “leatherstockings”, os caçadores de chapéu de castor como Daniel Boone e que usavam as tais “meias de couro” de onde saiu o nome. O western já tinha ultrapassado as fronteiras dos EUA mesmo antes do cinema, e autores como Júlio Verne e o alemão Carl May já faziam “euro-westerns”.

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O primeiro filme mudo narrativo foi “O Grande Roubo de Trem” de 1903, e o cinema desenvolveu e cristalizou os ingredientes básicos do gênero: o xerife, o saloon, os duelos, a cavalaria e os peles-vermelhas, a ferrovia, o rancho, o latifundiário, os ladrões de gado, a vingança. Mas apesar de seus elementos constantes, o western não permaneceu homogêneo e tomou caminhos diversos. O pesquisador e quadrinhista Primagio Mantovi (“Cem Anos de Western”, 2003) distingue o western classe A (os adultos, mais sérios e elaborados) e o classe B (“você sabe que é um western classe B quando o cavalo do mocinho tem nome”).

É comum dizer que o western revisionista – o que faz uma autocrítica do maniqueísmo ”pele vermelha mau X cara pálida bom” – surgiu nos anos 60, na esteira da contracultura que demolia os valores tradicionais e o “american way of life”. Mas cumpre destacar que o conservador John Wayne já havia estrelado em 1948 “Forte Apache”, filme de John Ford em que o coronel almofadinha Henry Fonda trai o acordo de paz com os índios, obtido por Wayne e um sargento hispânico, e a cavalaria é justamente massacrada pelos peles-vermelhas.

Mesmo “Matar ou Morrer” (High Hoon, 1952) mostra Gary Cooper como um xerife vacilante numa cidadezinha de covardes, um western muito criticado onde nada funciona como deveria, como a “Deskansas City” de Canini.

Tiros e clichês pra todo lado

O western, à época de Kactus Kid, estava na sua fase italiana – um velho oeste mais pobre e poeirento, sem deixar de ser épico – mas era possível ver no cinema e nas reprises de TV todas as suas vertentes, dos clássicos de John Wayne às comédias de Trinity, passando pelo 007-western-steampunk de James West. Também nas bancas de jornal eram onipresentes os livros de bolso de “farveste”, com capas de Carlos Chagas e Benício. Portanto, os estereótipos do gênero eram do conhecimento de todos, o que é fundamental para a existência e compreensão de um trabalho satírico baseado nesses lugares comuns.

A história em quadrinhos cômica do velho oeste por excelência é “Lucky Luke”, de Morris e Goscinny, com todos os chavões do gênero. Mas é na arte da animação que encontramos, quanto ao estilo de desenho, um parente mais próximo de Kactus Kid: é “West and Soda”de Bruno Bozzetto, longa metragem de 1965.

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A revista “Crás” chegou “somente” a 80 mil exemplares (esperava-se pelo menos cem mil – outros tempos…) e, sem Cláudio de Souza para defendê-la – ele deixou os infanto-juvenis no final de 74 e saiu da editora Abril em 75 –, o projeto foi considerado inviável e encerrado, sobretudo por questões de produção, pois poucos autores conseguiam entregar o material em tempo de garantir a periodicidade. E com a “Crás” encerrou-se também a saga de Kactus Kid.

Quando criador e criatura se encontram

Mas, cinco anos depois, o ator Kirk Douglas, cujos traços marcantes e o famoso furinho no queixo inspiraram o pistoleiro de Canini, estrelou uma comédia chamada… “Cactus Jack, o Vilão” (1979) junto com Arnold Schwarzenegger, com piadas que pareciam saídas dos desenhos de Bip Bip. Até então, Douglas só havia feito faroestes sérios como “Sem Lei e Sem Alma” (Gunfigh at the O.K. Curral, 1957) e “Duelo de Titãs” ( Last Train from Gun Hill, 1959). Não é muita coincidência que, quando resolveu fazer uma comédia western, seu personagem se chamasse “Cactus”, assim como o anti-herói de Canini?

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O que poucos sabem é que Kirk Douglas é um grande fã de quadrinhos (*), especialmente os do Brasil. E quando caiu em suas mãos o primeiro número da revista “Crás” e ele se viu caricaturado nos traços de Canini, o ator ficou maluco. Não descansou enquanto não conseguiu levar a idéia para as telas, estrelando ele mesmo o papel. Canini até foi convidado para escrever o roteiro, mas como se recusou a sair dos pagos riograndenses para morar em Hollywood – se  nem o Rio de Janeiro ele quis conhecer -  o jeito foi contratar outro argumentista, trocar o K por C para evitar problemas com direitos autorais, e saiu aquele pastelão meia-boca.

Ah, se Canini tivesse escrito o roteiro…

(*PS – Depois de consultar meu editor, resolvi informar aos leitores que algumas afirmações deste parágrafo não são muito confiáveis. Na verdade, não sei se Kirk Douglas lia quadrinhos, mas certamente assistiu muitos desenhos da Warner e Picapau, como parece indicar esse barril de cola fornecido pela Acme; que ele tenha eventualmente folheado um exemplar de “Crás”, também me parece duvidoso; e, vaidoso como ainda é, que reconhecesse a si próprio na cara do Kactus Kid, é difícil de acreditar. Aliás, nem Kirk Douglas se chama Kirk Douglas, mas Issur Danielovitch… A única coisa verdadeira desse parágrafo é que Canini, de fato, não roteirizou “Cactus Jack, o Vilão” e nem se mudou para a Califórnia, isto posso garantir. O resto são lendas do Velho Oeste, conversa para cowboy dormir.)

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SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D.João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com

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