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Ilustrador também assiste novela!

23/06/2014 por Fábio Sgroi

Quando eu era pequeno assistia muita novela. Era hábito da família jantar e depois ir todo mundo pra frente da TV acompanhar a “novela das oito”, que era como a gente chamava na época a novela que começava depois do Jornal Nacional. Não que eu fosse assíduo espectador. Me lembro de ficar na sala, mas em vez de assistir, rabiscava meus desenhos na mesinha de centro.

Hoje assistir novelas parece coisa de outro mundo pra mim. Não consigo nem me imaginar sentado em frente à TV toda noite para acompanhar aquelas tramas excessivamente arrastadas, com dezenas de cenas repetitivas e intermináveis, e diálogos que na maioria das vezes me parecem pura enrolação. É um compromisso árduo demais para quem já está de saco cheio de compromissos e deseja apenas relaxar. Nesse sentido, prefiro as séries enlatadas norte-americanas, ainda que sejam semanais e exijam menos comprometimento. Apelação por apelação, Revange, com seus capítulos semanais divididos em 22 episódios por temporada, me parece mais palatável do que os 200 capítulos diários de Em família, só para ficar num exemplo.

Que um dia eu já fui noveleiro, isso não dá pra esconder. Também não posso negar que as novelas são um verdadeiro patrimônio da dramaturgia brasileira e que, mesmo de maneira destrambelhada, oferecem algumas reflexões sobre os valores, costumes e tabus da nossa sociedade.

Uma novela que me marcou pra caramba foi Pecado Capital (a versão de 1976, não a refilmeagem de 1998, que já não é da minha época de noveleiro). Porém, o que ficou mesmo em minha memória foi a abertura. A música do Paulinho da Viola, as imagens das notas de dinheiro voando e o logotipo com o nome da novela me causavam grande impressão. Depois que eu vi a cena final da novela, com o Carlão caindo no meio daquela construção abraçado à mala de dinheiro, as cenas das notas voando ficaram ainda mais fortes. Tanto que as imagens passaram a se confundir na minha cabeça. Até rever a cena no Youtube, eu podia jurar que após a sua queda as notas saíam voando pelo céu. Nada a ver. Aliás, do jeito que a cena se remontou na minha memória, seria necessário uma baita equipe de efeitos especiais e tecnologia de ponta para executá-la. Mas foi engraçado perceber como as imagens da abertura complementaram certinho a mensagem do enredo, tudo costurado como uma única cena. A mensagem estava clara e afinada tanto na história quanto na sua tradução na abertura, de modo que uma acabou complementando a outra na memória.

Foi pensando nisso que percebi a baita responsa que é uma abertura de novela: representar em um minuto o mote central de uma história de 200 capítulos, fornecer uma contextualização ao espectador, colocá-lo no clima. E não só: o logotipo vai representar o folhetim em várias outras mídias, de modo que ele precisa ser direto e certeiro. Assim como qualquer outro logotipo que não comunica o conceito correto, e erra o alvo, as pessoas acabam não captando a mensagem e não comprando o produto. Ou, no mínimo, se sentindo enganadas. Nem todas as aberturas de novela acertam, portanto. Uma ou outra chega até a ser sofrível (na boa, embora bem produzida, a abertura de Negocio da China parece um mero recorte de filmes do Jackie Chan, não diz nada e o logotipo é genérico demais, parece coisa de aprendiz de Corel Draw). Outras, no entanto, são muito boas. Tão boas que as guardo na memória, mesmo quando não me fazem lembrar de absolutamente nada sobre as novelas propriamente ditas.

Quase sempre me parece que a abertura consiste na constução da mensagem que irá culminar na conceitualização do logotipo, como sugere a abertura de Plumas & Paetês (1980) e Dancin’ Days (1978). Mesmo que você não tenha assistido nenhuma das duas, aposto que é fácil perceber que a trama da primeira se passa no mundo da alta costura e a da segunda, em meio ao fervor das dicotecas. Convenhamos que ambas, aberturas e logotipos, comunicam suas respectivas mensagens com perfeição.

Há, porém, outras aberturas que me parecem apresentar uma mensagem diversa daquela proposta pelo logotipo. Sempre tive tal impressão sobre a abertura de Roque Santeiro (1985). O logotipo remete à questão do personagem Roque Santeiro ser ou não um santo, conforme o espectador saberá no desenrolar da novela. Mas as imagens apresentadas na abertura me parecem tecer um comentário diferente, a respeito da situação dos trabalhadores rurais e o grau de importância que têm aos olhos da sociedade frente à riqueza que produzem. É uma leitura pessoal, é claro, feita a partir do meu repertório cultural. Sinta-se à vontade para divergir, mas acho que esse é o grande barato da imagem: ser direta e ao mesmo tempo ambígua na comunicação, por fornecer uma determinada leitura e sugerir outras mais. Uma imagem, tenho dito, permite essa multiplicidade. E depende de cada leitura, conforme a bagagem, a época e o repertório cultural.

De volta à abertura de Roque Santeiro, a inversão de tamanhos percebida pelo afastamento da câmera, sugere que as pessoas estão presentes, mas que a riqueza gerada pelo seu trabalho é tida como algo mais importante do que elas próprias, que o avanço tecnológico motivado pelo trabalho se presta sobretudo para produzir mais riquezas e não necessariamente para o bem-estar dos trabalhadores. Em outras palavras, as pessoas são relegadas à insignificância! Tanto é que a abertura termina justamente com um congestionamento dentro de uma vitória-régia que, para pelo menos para mim, parece uma piada sobre o desenvolvimento gerado a partir da riqueza, não obrigatoriamente reversível às pessoas, e mesmo insignificante diante da natureza. O fino da ironia é que a logomarca que aparece na moto é justamente a de uma fabricante de tratores, que na época também fabricava motos. Teria sido essa empresa uma das patrocinadoras da novela? Embora eu não disponha de tal informação, aposto que sim. Será então que esse patrocinador não interpretou que o maquinário mostrado na historinha de abertura não serve para gerar bem-estar, que o desenvolvimentismo pode estrangular pessoas feito um congestionamento? É provável que não. Como diria a Perpétua, de Tieta do agreste, personagem de outra novela de sucesso: “Mistééééério…”


Fábio Sgroi é ilustrador, escritor e designer gráfico. Formado em Desenho Industrial, atua no segmento de livros infantis e juvenis, tendo mais de 100 obras ilustradas publicadas.

Contato: fsgroi@terra.com.br

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