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Como entrar no mercado, ou: é fazendo que se aprende

28/01/2014 por Spacca
Fotografado por Lori Stein, Y & R do Brasil, 1979.

Fotografado por Lori Stein, Y & R do Brasil, 1979.

“Aquilo que não me destrói me torna mais forte.”
(frase de Nietzsche no início de “Conan, o Bárbaro”)
Sempre surge, em palestras com jovens desenhistas, a pergunta: “como entrar no mercado?”.

Eu não era diferente quando estava começando. O tal mercado não era apenas o lugar para iniciar uma carreira e ganhar meu próprio dinheiro, mas onde meu aprendizado de desenho finalmente iria decolar. Era sair da teoria para a prática.

O Núcleo de Arte do professor Ismael dos Santos era, essencialmente, uma escola profissionalizante, e treinava jovens artistas para o mercado editorial e publicitário. Ali havia profissionais voluntários que vinham ensinar past-up e outras técnicas de estúdio. E o próprio Ismael convocava alunos para ajudar em suas ilustrações pedagógicas, como nas velhas corporações de ofício, o ambiente mais estimulante para aprender (hoje isso é considerado “exploração do trabalho infantil” pelos que querem impedir que os adolescentes cresçam como pessoas independentes e sadias).

Antes que o Brasílio Matsumoto me indicasse para a vaga de ilustrador na Young & Rubicam, em setembro de 1979 (eu tinha 15 anos), eu já tinha ido procurar emprego em dois lugares: na TV Tupi (que fechou meses depois) e na Maurício de Sousa Produções, com o veterano Jayme Cortez (que me aconselhou a estudar mais e decidir se eu queria ser ilustrador, quadrinhista ou animador).

O estúdio da Young & Rubicam do Brasil, em um dia normal de trabalho.

O estúdio da Young & Rubicam do Brasil, em um dia normal de trabalho.

O estágio na Young virou um emprego que durou quatro anos. Só saí porque queria outro segmento, o da animação publicitária, na Briquet Filmes. Mas, paralelamente, outra carreira potencial vinha se desenvolvendo: a do cartum político.

Se o desenho animado era uma aspiração antiga, um sonho de infância quase realizado (realizado mesmo teria sido trabalhar na Disney), o cartum era uma urgência dos tempos atuais (daquela época). Vivíamos o fim da ditadura: passeatas por eleições diretas lotavam as praças do país, Henfil detonava no Pasquim, o rock nacional ganhava as rádios e o Língua de Trapo fazia excelentes sátiras musicais. A dupla dinâmica JAL e Gual, da AQC (Associação de Quadrinhistas e Cartunistas), criou o boneco gigante do político Teotônio Villela, ícone das Diretas, para animar os comícios. O humor saiu às ruas e ganhou meu coração.

Essa modalidade artística eu conhecia desde a revista MAD, e exigia não só um desenho rápido e espontâneo, mas principalmente um aprendizado político à esquerda – impossível de manifestar na agência e na produtora. Participei por alguns anos do Salão de Humor de Piracicaba, mandei desenho pro Pasquim e aos poucos fui assimilando aquela visão do mundo, aumentando as chances de meus cartuns agradarem aos juízes do salão, que eram as estrelas daquele mundo cultural e jornalístico – sem conseguir ser premiado, porém (o que veio só a acontecer em 2005, já macaco velho).

Mas a experiência em publicidade me havia ensinado que não há nada como o mundo real para lapidar um talento. Fazer cartum uma vez por ano para o Salão não gera prática (hoje em dia é diferente: há salões de humor no mundo inteiro, e tem gente que ganha dinheiro mais em salão que no ramo editorial). A gente fica acomodado se só faz o que sabe fazer; eu queria ser jogado na fogueira, que exigissem de mim um cartum por dia, ser testado por profissionais – experimentar na pele e no estômago a recusa, a crítica, para criar calo, crescer, evoluir.

A chance veio com o concurso da Folha de S. Paulo, em 1985. Concorri em três categorias – ilustração, caricatura e charge –, e ganhei na de charge. Começamos a trabalhar no final de 85, eu, Fernando Gonsales e Mauro Sato. O lugar da charge política estava ocupado por dois então jovens veteranos, Cláudius e Paulo Caruso; eu fazia charges e ilustrações para qualquer assunto e em todos os cadernos, política, economia, informática, suplemento “feminino” e infantil. Paulo Caruso se desentendeu com a cúpula do jornal, por teimar em fazer uma charge em que o candidato do PMDB era visivelmente favorecido – o que contrariava o chamado “pluralismo” do jornal. E assim ganhei a vaga. Cláudius saiu logo depois e seu lugar foi preenchido pelo Glauco.

Recebendo a bênção do veterano Jaguar, para a minha futura carreira na Folha.

Recebendo a bênção do veterano Jaguar, para a minha futura carreira na Folha.

Apesar de ter pulado de galho em galho, nunca abandonei completamente os outros ramos. Saí do emprego de publicidade mas continuei com os frilas (salvo uma vez em que declarei altivamente a um diretor de arte, o Zé Luiz Mendietta, que “agora era chargista” e não fazia mais publicidade, arrogância que não me sairá jamais da lembrança, mas seu espírito generoso perdoou). Deixei o emprego de animador, mas volta e meia fazia storyboards e planejamento de filmes para o Briquet. De modo que, mesmo na Folha, havia outros mercados abertos para mim, e onde eu deitara raízes, novos ramos iam brotando: corporativo, editorial, paradidático.

Os trabalhos institucionais vieram por conta das agências: “jobs” que os publicitários achavam chatos ou difíceis (é, naquele tempo eles podiam escolher) tais como manual para consumidor, campanha para funcionários e audiovisual para festas de final de ano. O filé mignon para eles eram as campanhas; por isso, para os trabalhos mais complicados e menos glamorosos chamavam gente de fora – e até me colocavam para conversar direto com o cliente deles, que se tornaram meus primeiros clientes corporativos, alguns até hoje.

A ilustração de literatura infantil, por sua vez, derivou do jornal: uma série de contos que ilustrei na Folhinha foi reunida no livro “Vice-Versa ao Contrário”, publicado pela recém-inaugurada Companhia das Letras, embora eu já houvesse ilustrado outros livros nos anos oitenta, entre os quais, um da atriz Bruna Lombardi para a editora Globo, mas sem continuidade. Também da editora da Folhinha, da poeta Mônica Costa, ilustrei “Lobo Mau” para a Melhoramentos, e o CD-Rom “O segredo dos macacos”.

Os quadrinhos para a revista “Níquel Náusea”, de Fernando Gonsales, não eram propriamente trabalho e nem um mercado. Fernando nos convidou – Newton Foot, Duval, Negreiros – para fazer algo entre amigos, com a nossa cara. A gente fazia o que queria, e queria o que tinha em comum. Fora a Níquel, outros segmentos ofereciam a oportunidade de fazer HQ, como o corporativo (“cartilhas” educativas para empresa e para órgãos do governo) e o editorial (revistas “Capricho” e “Saúde” da Editora Azul/Abril).

Folder para o Banespa: nem os funcionários tinham visto ainda um caixa eletrônico.

Folder para o Banespa: nem os funcionários tinham visto ainda um caixa eletrônico.

Com exceção do projeto “Santô” que ofereci à Companhia das Letras em 2004, e que abriu um filão que hoje é o meu principal trabalho – os novos trabalhos surgiram por indicação dos antigos.

Porém, antes dessas indicações e oportunidades (Brasílio, concurso da Folha, convite do Gonzales, primeiro trabalho com a Cia. das Letras), houve, da minha parte, muita iniciativa, muitas tentativas de me mostrar, movidas por um desejo ardente de aprender fazendo. Muito antes de fazer desenho animado, sonhava com a Disney e pratiquei copiando animações quadro a quadro num velho editor de super-oito à manivela. Muito antes da Folha, tentava aprender com Henfil, Millôr e Angeli para migrar do humor ingênuo infantil ao politizado (custaria caro, no futuro, sair do politizado para o mundo real, mas isto é outra história). Antes de entrar na Young & Rubicam, ganhei dois honrosos pés na bunda de Álvaro de Moya e Jayme Cortez.

Como se pode ver, a pergunta “como entrar no mercado?” pode ser refeita a vida toda. O mercado, no fundo, é uma coleção de relacionamentos. Nascemos dependentes de outras pessoas, precisamos dos outros para viver, e nossa arte é o instrumento para fazermos algo pelos outros. “Entrar”, no caso, é constituir um relacionamento mais ou menos duradouro com quem precisa das nossas habilidades e talentos – são eles que darão sentido àquilo que sabemos fazer.

HQ que ia encartada no Chokito, frila para a agência Norton.

HQ que ia encartada no Chokito, frila para a agência Norton.

O mercado, como qualquer relacionamento, pode ser fonte de frustrações. Podemos ser levados a acreditar que todos os clientes são estúpidos (pense que muitos prestadores de serviço pensam o mesmo de nós). Podemos até acreditar na bobagem ainda maior de que o mercado é intrinsecamente mau, desumano, movido por ambição e egoísmo, e que favorece os trapaceiros – e sonhar com um remédio milagroso e paternalista que o substitua (ainda que seja a transferência da liberdade de todos para um Trapaceiro-Mor que decida por nós).

Mas ilustrar, meus queridos, é um verbo transitivo. Escreveu um monge no século XIII que maius est illuminare quam lucet solum – “iluminar é melhor do que brilhar sozinho”, num tempo em que pequenos e caprichados desenhos – as iluminuras – iluminavam não só o texto que adornavam, mas a inteligência dos seus leitores.

Se deseja entrar no mercado ou nele permanecer, amigo leitor, não comece por odiá-lo, nem temê-lo. Mesmo o mais autoral dos trabalhos necessita de parceiros e público. Boas entradas!

Despedida do  primeiro emprego: a prancheta não está mais lá, mas os amigos estão por aí e não esquecem, nem são esquecidos.

Despedida do primeiro emprego: a prancheta não está mais lá, mas os amigos estão por aí e não esquecem, nem são esquecidos.

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SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D. João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com

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