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As minhas Copas do Mundo

27/05/2014 por Spacca
ilustração para a revista Cultura Inglesa Magazine, provavelmente de 1994.

ilustração para a revista Cultura Inglesa Magazine, provavelmente de 1994.

Além de notório perna-de-pau, sou profundo desconhecedor de futebol, o que é quase um pecado cívico no País do Futebol. Não tenho time, não torço, não discuto, porém, não obstante, basta lembrar do hino “Noventa Milhões em Ação” para que entrem na tela Cinemascope da minha imaginação jogadores gigantes driblando em câmera lenta, com a inconfundível narração do speaker do Canal Cem (documentário famoso dos cinemas de outrora).

Talvez por isso, e intuindo que, por mais que eu me esforçasse, não consegui crescer no País do Futebol sem que a cultura futebolística me impregnasse a alma, vez por outra fui escalado para compor o time de chargistas e ilustradores que, a cada quatro anos, ilustram na grande imprensa a festa desportiva e cosmopolita da Copa do Mundo.

Cresci sob a égide do Tri, a conquista definitiva da taça Jules Rimet, a consagração do Brasil como País do Futebol e a confirmação da herética doutrina acerca da brasilidade de Deus. Nesse assunto, o mundo inteiro se derrete pelo Brasil – como a Jules Rimet, depois de ter sido roubada da sede da CBF em 1983. Brasil, il, il…

Mas cresci, tentando passar ao largo do futebol em todas as suas formas: a pelada na rua em que morava, os jogos obrigatórios nas aulas de educação física.

Um dia, porém, o futebol me pegou, aproveitando uma das fraquezas do meu caráter: o humor.

Um amigo da escola, o Cláudio, apelidado “Vitasay” por causa de uma propaganda de fortificante na TV, me divertia com suas imitações de um programa chamado “Show de Rádio”, que era transmitido pela Jovem Pan em São Paulo. Stevan Sangirardi, Odayr Baptista, Nelson Tatá Alexandre, Carlos Roberto Escova, Serginho Leite e outros humoristas satirizavam jogadores, cartolas, locutores esportivos e astros da MPB. Todos os domingos, passei a escutar pelo menos metade do jogo para assistir às duas seções do programa, no intervalo e no final dos jogos. Ouvia, gravava e depois na escola ficava imitando as imitações, no ginásio com o Cláudio, e depois no segundo grau com outro amigo, o Celso. Com este, a mania foi mais longe: fizemos dezenas de sátiras de música popular satirizando professores, e até arrastei meu amigo a uma visita à Jovem Pan para mostrar nossas músicas ao nosso ídolo Sangirardi – bem mal sucedida, por sinal.

Mas alimentei por muito tempo o sonho de fazer um desenho animado com os personagens do Show de Rádio. Havia um núcleo de personagens para cada time: o corintiano macumbeiro, a italianada do Parmera, o aristocrático torcedor do São Paulo e outros. Eis aqui como eu imaginava esses tipos.

estudos para os personagens do "Show de Rádio", aproximadamente 1979.

estudos para os personagens do “Show de Rádio”, aproximadamente 1979.

Anos depois, já chargista na Folha de S. Paulo, fui designado para criar charges para a página Gol, ao lado das feras Fernando Gonzales, Glauco e Emílio, para cobrir a Copa de 1986. Nitidamente um peixe fora d’água, fiz o que pude. Além disso, como o Brasil parava para ver a Seleção, no espaço da charge o assunto também era Copa, e meu desenho sobre a derrota brasileira mostrou os empresários Nabi Abi Chedid e Marin, cujos planos também se desvaneceram naquelas fatídicas quartas-de-final.

página GOL da Folha de S. Paulo, 1986.

página GOL da Folha de S. Paulo, 1986.

 

charge na Folha de S.Paulo, 22 de junho de 1986.

charge na Folha de S.Paulo, 22 de junho de 1986.

A ilustração que abre este artigo deve ter sido feita em 1994; não é a seleção que efetivamente entrou em campo, mas a que os meus clientes da Cultura Inglesa Magazine queriam que tivesse sido. Por isso vemos o goleiro Zetti, em vez de Taffarel. Como a edição demorava para ficar pronta, esse exercício de premonição era necessário. Contudo, aí estão Romário e Bebeto, naquele característico gesto de embalar um bebê (deixo aos experts a tarefa de precisar o ano, achei mais provável 1994 que 1998).

E assim segui minha carreira, às vezes torcendo a cada quatro anos, mas sempre torcendo para não se lembrarem de mim para desenhar o que não sei.

Mesmo assim, amigos queridos me escalaram para alguns projetos enaltecendo o esporte brasílico-bretão, na certa para compensar o trauma das escalações na escola, em que sempre ficava por último…. No famigerado álbum “Dez na Área” lá estou eu, tentando justificar minha presença misturando futebol com uma esotérica geometria astrológica. E no enciclopédico painel de Jal e Gualberto, “A História do Futebol no Brasil através do Cartum”, colaborei com dois desenhos retratando jogadores de 1920.

Não foi difícil que minha inaptidão e desinteresse pelo futebol adotasse, em alguns momentos, a desculpa ideológica de que o futebol era um mal, um fator de alienação, mais um “ópio do povo” (melhor que isso, no chiste do humorista Jorge Nagao no Folhetim dos anos 80, é dizer que o futebol é o Pio do Povo – trocadilho genial que pode evocar muitas coisas: o Canarinho, o pio como manifestação discreta do povo reprimido, etc; era comum ouvir do pai ou mãe bravos: “não quero ouvir nem um pio!”).

Hoje, 2014, ano de Copa e segunda Copa no Mundo no Brasil, há um forte movimento nas ruas com o caráter de “anti-Copa”, aparentemente reivindicando um melhor destino das verbas públicas. Lembremos, porém, que também é ano de eleições; e não podemos ser ingênuos ao supor que, atendendo ao clamor de uma população que de uma hora para outra “acordou”, a presidenta chame a Fifa e diga “não vai ter mais Copa”. É portanto, um movimento não reivindicatório (não espera ser de fato atendido), mas sobretudo político, um jogo de pressão para marcar território, criar o caos, manifestar-se ante um público mundial ou sei lá o quê.

Ora, a utilização do esporte pela política é velha como ambos – desde pelo menos o Panis et Circenses dos gladiadores romanos. Sim, o poder costuma pegar carona na glória da Copa – assim fizeram Juscelino, Médici, Lula e Dilma. Mas tanto a Copa (como projeto governamental) como o seu antípoda (como movimento organizado disfarçado de popular), não passam, ambos, de tentativas parasitárias de manipular a opinião pública para propósitos muito distantes de saúde, educação etc. Quem ganhará este jogo de poder, saberemos pelos eventos futuros.

A poucos dias da Copa, diante desse panorama sombrio em que mais uma tradição popular está sendo maculada pela grotesca lógica binária da luta ideológica, eu, o notório perna-de-pau, torço para que a ideia básica de todo esporte – uma guerra apenas virtual – prevaleça.

E adoto, perante os partidos da Copa e da Anticopa, a prudente atitude da Zebrinha da Globo, que desenhei nos idos de 1971:

Zebrinha da Loteria Esportiva, 1971.

Zebrinha da Loteria Esportiva, 1971.

 

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SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, As Barbas do Imperador e D.João Carioca (ambos em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com

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