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A trilha sonora do texto – Parte 2

23/12/2014 por Fábio Sgroi

Eu não sei criar sem música.

Quando estou desenhando ou escrevendo, preciso de uma trilha sonora. Às vezes chego a ter uma ideia mas, antes de executá-la, procuro músicas que me auxiliem a traduzir aquelas imagens que imaginei. Além de ajudar a perceber melhor o clima daquilo que pretendo comunicar, me ajudam a mergulhar no trabalho. Provavelmente isso é consequência da minha paixão pelo cinema. Não é à toa que eu vivo assobiando ou cantarolando várias trilhas de filmes.

Ultimamente, ando assobiando esta música aqui, do Howard Shore:

Howard_Shore

Se você a ouvir de olhos fechados, é possível que enxergue direitinho um lugar ao qual ela remete – e não estou me referindo à Terra Média ou ao Condado – porque embora tenha sido composta para um filme específico, tal música pode sugerir um lugar qualquer imaginário talhado pelas emoções, lembranças ou idealizações por ela evocadas.

Em certos filmes, a trilha sonora acaba até assumindo o protagonismo da cena. Cheguei a essa conclusão depois de assistir Interestellar no cinema. A música do Hans Zimmer é marcante em toda a película, mas em uma cena em particular, esta música  foi responsável por 90% da emoção.

hans_zimmer

Na cena em questão, o protagonista precisa desesperadamente acoplar sua nave à estação espacial, mas, devido a uma série de problemas, a tarefa acaba sendo muito difícil. Quanto mais a nave se aproxima do ponto de acoplagem, mais a música segue num crescente, até dominar completamente a cena. Em termos de imagem e direção, a sequência nem é lá grande coisa. Sem dúvida alguma, porém, a música faz tudo virar uma experiência de tirar o fôlego.

Repare que, além de tensão, a música consegue transmitir uma certa solidão e evocar uma espécie de transcendência e amplitude.

Não se preocupe se você não viu o filme. Aposto que, ao ouvir esta música, você sentiu, em maior ou menor grau, algo parecido com o que eu descrevi.

Sendo a música de um filme ou não, ao ouvi-la, você imediatamente imagina a sua própria cena.

Agora ouça AQUI mais outra música da mesma trilha de Interestellar (procure não se deixar influenciar pela imagem do filme, concentre-se apenas tão somente na sua música).

Que imagens, sensações e sentimentos ela estimula? Que história você é capaz de criar a partir dessa audição?

Já criei uma porção de histórias assim.

É por isso que eu uso a música como o meu principal recurso para estimular ideias. Uma imagem vale mais do que mil palavras, mas, às vezes, uma música vale mais do que mil imagens.

Quem desejar conhecer mais sobre essa relação mágica entre imagens e música, segue uma dica enviada pelo meu amigo Mauricio Negro: conferir o livro A Música do Filme, tudo o que você gostaria de saber sobre a música de cinema, de Tony Berchmans (Escritura). Vale a pena também acompanhar a trajetória desse autor, um apaixonado pelo tema, e assistir ao seu espetáculo CINEPIANO, que presta homenagem ao cinema de época, cuja trilha é tocada ao vivo – ragtime, polka, jazz tradicional, entre outros estilos –, sempre sincronizada à ação e emoções da película.

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Fábio Sgroi é ilustrador, escritor e designer gráfico. Formado em Desenho Industrial, atua no segmento de livros infantis e juvenis, tendo mais de 100 obras ilustradas publicadas.

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