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A fantasia possível de Jonny Quest

09/10/2013 por Spacca

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- “O Joãozinho vai ter que usar óculos”, escutei meus pais comentarem.
De fato, era cada vez mais difícil copiar o que a professora escrevia.
Quando ela me viu em pé com a cara colada na lousa, decidiu avisar meus pais.

Na saída do oftalmologista, por efeito do colírio que dilatara a retina, estava vendo tudo dobrado.

Ou em língua de ilustrador: “sem registro” – como o defeito de impressão em que os fotolitos não casam direito, sobrando um halo magenta de um lado da imagem, e azul-esverdeado do outro.
A primeira coisa que fiz em casa foi tentar desenhar; tinha que olhar muito perto o papel, e mesmo assim o traço se desdobrava em contornos coloridos.
Uma loucura, cara :)

Como sobreviver nas próximas 48 horas, até passar o estranho efeito ótico?
Nossa TV era em preto e branco – a nossa e a de todos os brasileiros, pois estávamos em 1971, um ano antes da primeira transmissão em cores no país.
Graças ao colírio, porém, ela parecia colorida. Só faltava enxergar o que estava passando.
Mas descobri que a beirada inclinada de uma régua transparente funcionava como um prisma: a certa distância dos olhos, conseguia ver, através da régua, a imagem da TV com nitidez, e melhor ainda, colorida!

Passava um episódio de Jonny Quest em que eles vão resgatar um foguete no Ártico.
O Dr. Quest está caído junto a um píer, e uma orca vinha com tudo em sua direção, rompendo as águas geladas do pólo norte.
O animal estilhaça o píer, e o cientista vai cair providencialmente longe do foguete, que explode junto com os facínoras que tentavam roubá-lo.

Tudo isso eu vi em cores! Ou no simulacro de TV colorida que inventei.
Passei dois dias curtindo a novidade, até que passou o efeito do colírio, e a TV já não parecia colorida.

Jonny Quest, porém, manteve seu encanto.
A música vibrante que até hoje me arrebata introduz uma canoa de índios, um pterodátilo, uma pantera negra, um crocodilo, soldados com metralhadora, um robô com pernas de aranha, uma múmia, explosões e desabamentos, um veículo aéreo flutuante, um condor, serpentes do Egito, dragões, uma arma laser gigante e o jato dos nossos heróis, Jonny, seu pai dr. Quest, o segurança Roger “Race” Bannon, o garoto indiano Hadii e o buldogue mascarado Bandit.

Há cerca de duas semanas, a escola de desenho Quanta me convidou para expor um desenho sobre o tema “Saturday Morning”.
Vários colegas haviam escolhido Jonny Quest como seu favorito, e eu tinha 200 ou 300 outros desenhos animados para escolher, muitos excelentes; porém, não me entusiasmaram do mesmo modo. Preferi Jonny, de longe.

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O que faz Jonny Quest tão especial?

Em primeiro lugar, um grande desenhista: Doug Wildey, criador da trupe e autor dos models que orientaram a produção (outro grande, Alex Toth, também fez alguns desenhos).
Seu traço realista foi razoavelmente copiado pelos artefinalistas dos estúdios Hannah-Barbera, ainda que alguns fotogramas mostrem algumas figuras sofríveis. Sombras negras dão solidez e densidade aos personagens; o desenho cuidadoso de máquinas, cenários e tipos humanos fazem crer que aquelas aventuras rocambolescas acontecem num lugar determinado do planeta Terra. Só o cachorro Bandit é cômico, tudo o mais parece “de verdade”.
O personagem Roger, o arquivilão dr. Zin e a eletrizante trilha de metais composta por Hoyt Curtin dão ao seriado a atmosfera de James Bond.
Com o passar dos anos, somou-se a Jonny Quest o prazer de admirar o design vintage dos veículos, arquitetura e moda dos anos 60.

Soube depois que a série, lançada em 1964, não passou da primeira temporada. A exemplo da primeira Star Trek, a fama de Jonny Quest consolidou-se nas reprises ano após ano. A continuação 20 anos depois não manteve nem sua arte, nem seu espírito.

Para que este artigo não seja meramente uma resenha nerd de seriado antigo, é bom enfatizar um pouco mais sua importância para mim, como desenhista.
Não me sentia atraído por super-heróis e desenho realista – minha inclinação sempre foi o desenho de humor.
Jonny Quest foi o meu primeiro elo com o desenho anatômico, as dobras de roupa, o tratamento com sombras; foi o primeiro desenho diferente do meu, de que gostei.
É também um desenho sem fantasia: como em Júlio Verne, a magia é a da ciência e da tecnologia (bem, também havia múmias).
Quest marca portanto a passagem do mundo das maravilhas para o mundo das possibilidades.
E um mundo mais real pede um desenho mais real.

A próxima lição de realidade veio do desenho caricato-anatomizado de Uderzo. As seguintes, recebei da MAD, de Jayme Cortez, de Hergé, dos ilustradores Brasílio e Natan, de Hugo Pratt e tantos outros.
Cultivo ainda o desenho cômico que se tornou minha marca, mas sempre procurando assimilar ou imitar algo dos desenhos sérios e realistas – que também não são cópia do mundo, mas interpretação artística como o cartum; porém, produzem verossimilhança.
Meu desenho cômico é nervoso; mas uma paisagem desenhada com minúcia relaxa. O Tio Patinhas de Barks, como o Jonny Quest de Wildey, também usa e abusa de sombras fortes e paisagem realista (tentei copiar os truques de Barks nas nuvens e sombras do meu “Santô”).

sombras-santo

Mesmo Moebius, o viajante alter ego (ou ipso ego?) de Jean Giraud, ancora suas fantasias herméticas em matéria solidamente desenhada, de intensas sombras.
Ainda vou dedicar parte da minha vida em aprender de vez o desenho naturalista.

E se eu ficar realista demais, sempre posso apelar a uma régua de plástico e um colírio dilatador de pupilas.

SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D.João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com

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