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A crônica gráfica de Steinberg

07/07/2011 por Daniel Bueno

Em um desenho de 1952, o violonista toca seu instrumento com um dos pés sobre a cadeira, a boca aberta e o olhar inspirado para o alto. Do braço direito suspenso, cujas linhas não se fecham em uma forma, sai a mão que toca. O que vemos não são linhas que definem a silhueta de uma mão, mas traços caóticos. Tais rabiscos são o foco do desenho, e todas as atenções recaem sobre eles: dispostos em diversas direções, mas curtos o suficiente para permanecerem sob controle do violista, sugerem o movimento rápido da mão do músico, com uma destreza reforçada pelo aspecto imóvel do resto de seu corpo, composto por partes soltas equilibradas umas sobre as outras. O desenho instiga pelo modo como uma mão é sugerida por meio de elementos que, em determinado momento, se destacam expressivamente da representação e adquirem uma força gráfica autônoma. Como se não bastasse, evidenciam o poder de observação de seu criador, Saul Steinberg (1914-1999), que soube sintetizar em linhas, como poucos, os trejeitos de um músico.

O violonista, 1952 | © The Saul Steinberg Foundation

O violonista, 1952 | © The Saul Steinberg Foundation

O Saul Steinberg exibido na exposição “As aventuras da linha”, organizada pelo Instituto Moreira Salles e com curadoria de Roberta Saraiva, é o que conheci inicialmente, pelos livros da biblioteca da FAU-USP, no final do curso de graduação: um desenhista de traço leve e humor sutil, cujo talento de cronista para comentar coisas nunca vistas antes – mesmo que estivessem diante de nossos narizes -, e poder de síntese para expressar ideias influenciou uma geração de cartunistas e artistas gráficos mundo afora.  Esse Steinberg dos anos 1940 e 1950, período selecionadopara a mostra, foi-me apresentado por livros como “The Art of Living” (1949) e “The Passport” (1954), algumas das publicações provavelmente doadas pelo professor Flavio Motta para a faculdade. Causava estranheza a sutileza e um certo caráter enigmático dos desenhos desse “cartunista” de origem romena naturalizado americano, que fazia humor sem recorrer a legendas e, em muitos casos, sem apelar para a força daquelas tradicionais gags que irrompem de supetão para gerar gargalhadas. Alguns trabalhos pareciam, na verdade, serem desenhos inteligentíssimos com uma certa dose de humor, mais do que propriamente “cartuns”. De qualquer modo, logo percebi que se tratava de um artista que influenciou gerações de cartunistas, chargistas e ilustradores, como o pessoal do Pasquim: Ziraldo, Millôr, Jaguar e cia. E constatei uma movimentação mais ampla, presente em diversos países, caracterizada pelo  desenho de humor mudo e sintético, representada por artistas como o húngaro naturalizado francês André François, o francês Bosc, o belga Folon, o argentino Oski, o austríaco Paul Flora, o francês naturalizado americano Tomi Ungerer e outros. Steinberg era, claramente, um dos maiores nomes.

Desfile 2, 1950/1951 | © The Saul Steinberg Foundation

Desfile 2, 1950/1951 | © The Saul Steinberg Foundation

 

APRENDENDO COM STEINBERG

Aprendi muito com seus desenhos em meu Trabalho Final de Graduação, orientado pelo professor Silvio Dworecki, que resultou em sessenta desenhos sintéticos feitos em tinta preta sobre papel branco e dispostos em sequência denominados MEN TIRAS. Depois, percebi que essa referência fundamental das artes gráficas ainda não havia sido estudada com profundidade, e resolvi pesquisá-lo no mestrado. O resultado foi a dissertação “O Desenho Moderno de Saul Steinberg: obra e contexto”, concluída em 2007 e orientada pelo professor Luiz Munari. Procurei contextualizar seu trabalho na área das artes gráficas, mas aproveitei também para colocar em ordem toda a sua obra e biografia. É uma pesquisa que procurou aproveitar esse momento único, buscando um aprofundamento significativo de vários tópicos, entrando em várias digressões. Foi decisivo o apoio da The Steinberg Foundation, representada pela sua diretora executiva Sheila Schwartz: comecei enviando algum material  relacionado ao Brasil, como textos de Flavio Motta sobre Steinberg, e logo iniciamos uma troca de informações permanente. Recebia reproduções de textos sobre o artista que nunca teria acesso aqui no Brasil, etc. Fiquei feliz quando, uns três meses antes da conclusão de minha dissertação , o belíssimo livro “Saul Steinberg: Illuminations”, de Joel Smith, foi publicado e meu nome figurou nos agradecimentos. Era sinal de que havia colaborado com informações, mesmo que de modo pontual e singelo. A ajuda da Steinberg Foundation continuou, com contribuições importantíssimas, como o CD enviado com páginas de dois caderno de desenhos de Steinberg. Eram praticamente só desenhos sobre sua viagem ao Brasil, feitos na passagem que teve pelo país em 1952, em virtude de uma exposição sua e da então exposa, a artista Hedda Sterne, no MASP. Continuei organizando material e escrevendo sobre sua visita ao país para revistas e até em publicação científica, e o resultado desse esforço culminou recentemente no artigo de quarenta páginas “Diário de Viagem”, feito em parceria com Roberta Saraiva para o catálogo da exposição no IMS. Roberta já vinha pesquisando o mesmo assunto há tempos, também com o apoio da The Steinberg Foundation, e resolvemos cruzar as informações. É gratificante fazer parte e contribuir de algum modo para uma exposição dessa importância, tão bem realizada: já era tempo do país despertar novamente para a obra de Steinberg.

Casacos de pele, 1951 | © The Saul Steinberg Foundation

Casacos de pele, 1951 | © The Saul Steinberg Foundation

 

O CRONISTA GRÁFICO

Inclassificável (até porque seria contraditório rotular um artista de trabalho híbrido cuja intenção é, em parte, chacoalhar preconceitos ), Steinberg já foi chamado de cartunista, desenhista, cronista, escritor, artista. É recorrente a comparação, feita pelo próprio Saul, com a escrita. Há quem enxergue nisso um certo preconceito com o cartum, como se um cartum de qualidade tivesse que ser chamado de outra coisa. O fato é que a analogia serve para diversas atividades e tem por intenção ressaltar duas coisas: o caráter intelectual de seu trabalho, da pessoa que se senta a uma mesa e pensa sobre o que vai fazer; e a correspondência imediata entre pensar e agir que o desenho permite. Ao se dizer escritor, o exímio calígrafo Saul sugere que valoriza a ideia e a vontade de dizer algo, rechaçando a “arte pela arte” e o trabalho desnecessário, prolixo e narcisista. “O trabalho é uma armadilha que impede a gente de pensar – é uma terapia”, diz. Com traço rápido e poder de síntese, queria ocupar seu tempo refletindo sobre o melhor modo de resolver uma ideia graficamente, apresentando-a com clareza, sem qualquer enfeite elaborado por mero vício de estilo ou pura vontade de embelezamento. Dizia de Magritte, por exemplo, que este “gastava muita pintura para explicar uma piada”.
São muitos os artistas sobre os quais podemos divagar ao falar de Steinberg, mas considero Magritte e Saul dois mestres da ambigüidade, e vale a pena pensar um pouco sobre o que torna suas obras, com alguns importantes aspectos comuns, tão diferentes. Steinberg recorre, como o pintor surrealista, a inúmeros recursos de ilusão, mas pretere a representação realista para explorar a ambiguidade com a linha. Desse modo, a experimentação de Steinberg se abre para novos caminhos, livre para incorporar quaisquer elementos gráficos, como traços, manchas, carimbos. Seu interesse não se volta para oonírico,centrando atenção na realidade circundante, no homem, nos costumes, e na sua própria autobiografia. Buscava explicar a realidade a si mesmo, refletir sobre o papel. Ao mesmo tempo, Saul queria lembrar que seu desenho era feito de tinta, numa oscilação imediata  entre o que é contado e as formas desenhadas,ambos aspectos integrados com maestria pelo poder de síntese do artista. Fez, assim, crônica de um modo único e peculiar: uma “crônica gráfica”, com uso de metalinguagem.

Discurso, 1959 | © The Saul Steinberg Foundation

Discurso, 1959 | © The Saul Steinberg Foundation

 

PARÓDIA DE ESTILO COMO CRÍTICA DE COSTUMES

Steinberg era evidentemente um grande observador, com um olhar atento e lúcido para captar o inusitado. Basta ler alguma entrevista ou suas memórias para perceber um prazer especial pelas analogias. A paisagem vista através de um vidro tingido  de um ônibus poderia, para ele, subitamente se transformar em uma estampa japonesa. O artista não demorou a tirar partido desse modo de ver as coisas, e começou a fazer uso das paródias de estilo para suas ideias e comentários gráficos. O traço limpo, pouco pessoal para não comprometer a clareza da ideia, acabou se configurando em um “não-estilo”, aberto a receber qualquer elemento gráfico ou estilo: uma vez inseridos no desenho, viravam informação. Foi com essa capacidade de transformar qualquer elemento gráfico em signo, “objeto manipulável”, ou mesmo em uma “máscara” (roupagem usada pelas pessoas, objetos para se apresentarem), que o artista desenvolveu um tipo de metalinguagem a serviço da crônica visual. Steinberg buscava uma verdade, uma cumplicidade com o que está sendo desenhado até extrair um profundo conhecimento dele, e a escolha dos estilos acompanhava esse raciocínio. Para ele, “não se desenha bem quando se conta uma mentira”. Tal como um caricaturista, procurava realçar graficamente determinadas características das coisas comentadas, de modo a fazê-las mais evidentes em sua essência do que uma foto ou mesmo quando vistas na realidade sem um olhar apurado. Mas ao invés da distorção típica da caricatura, Steinberg selecionava estilos e elementos gráficos que iam de encontro a essa motivação.
Atento aos costumes, Steinberg tinha um olhar especial para os clichês, como o “cristianismo kitsch” francês do começo do século passado e aqueles pertencentes à mitologia americana: bondieuseries, americaneries. Os mais diversos estilos, mesmo da arquitetura ou arte moderna, também não escapavam incólumes: linhas retas horizontais e verticais “modernas” podiam, em seus desenhos, virar uma máscara afetada vestida por algum personagem para evidenciar seu status e modo de ser. Com esse jogo, o artista criou um modo de desenhar aberto a inúmeras possibilidades, que se renovaram em várias fases, todas muito criativas e investigativas, ao longo de sua vida. E é interessante notar como Saul fez uso de uma infinidade de estilos, na maior parte das vezes, desenhando e apelando ao trabalho manual ao invés de se apropriar de fotos e reproduções. É evidente o prazer pelo desenho, mas feito com a elegância de quem não quer demonstrar trabalho excessivo e suor. Nem tudo o que desenhou, no entanto, pode ser considerado paródia ou clichê. Em muitos casos, o que prevalece é a sua atenção ao inusitado, a “uma coisa nunca vista antes”, e a vontade de associar ideias de maneiras imprevisíveis.

LINHA E CARIMBO

Com o tempo, avançando além dos anos 1940 e 1950, pode-se fazer um balanço e dizer que seu trabalho envolve dois movimentos: um é o característico traço serpenteante que desliza sobre a superfície do papel em uma metamorfose sem fim, em uma “inércia de movimento” – como bem observou Flavio Motta – assumindo novos significados à medida que interage com novos elementos desenhados; o outro seria o movimento perpendicular do carimbo ou da colagem, de coisas que vão sendo acrescentadas umas sobre as outras, novas informações interferindo nos significados.  Recordando aqui algo que foi mencionado pelo  professor Chico Homem de Melo, membro da banca em minha defesa de mestrado, refiro-me aos carimbos propriamente ditos, e também às pinturas, selos, documentos, e mesmo desenhos feitos nas mais diversas técnicas e que, uma vez inseridos como um bloco no desenho, assumem essa lógica da sobreposição característica da colagem.

Artista e Guerra, 1969 | © The Saul Steinberg Foundation

Artista e Guerra, 1969 | © The Saul Steinberg Foundation

 

CARTUM E ARTE

A partir da liberdade alcançada com o caráter híbrido de seu trabalho, Steinberg conseguiu escapar das amarras típicas de qualquer meio – incluído, nesse caso, também o cartum. Chegou em determinado momento à condição que ambicionava, a de fazer algo que era simplesmente “sua obra”, algo que transitava por diversos meios e que não podia ser enquadrado definitivamente em nenhuma área. Mas de certo modo, manteve algum elo com sua primeira profissão, passando a exprimir um misto de admiração e desconforto: “consegui escapar de alguns becos sem saída, vulgaridades do desenho humorístico e  banalidades da arte comercial -, conservando sempre um pouco desse elemento de mediocridade, quase de vulgaridade, que não quero abandonar, pois o julgo necessário, à maneira de alguém que, mudando de classe social, não quer se separar da mulher e dos velhos amigos”. É possível cogitar que Steinberg, no fundo, se sentia seguro em manter um vínculo com o universo do cartum, mantendo algo do seu repertório gráfico, sob o risco de se perder totalmente dado o forte caráter híbrido de seu trabalho. Deve a esse campo da criação, também, muito do que aprendeu sobre síntese: “o ofício de cartunista é difícil, sobretudo porque é preciso ser editor de si mesmo: cortar, cortar, cortar. Uma pintura, uma colagem de desenhos a lápis, uma paisagem – tudo isso eu faço com prazer e facilidade. São delícias em comparação com a tortura de encontrar uma idéia e representá-la em seguida do modo menos pessoal possível (…)”. De qualquer modo, é importante constatar  que em todos os contratos com a The New Yorker a revista usou a palavra “desenhos”, e não “cartuns”.  De fato, o significado da palavra “desenho” é mais amplo para abarcar com adequação a grande diversidade de abordagens do artista. O termo “ilustrador” também não se encaixa com facilidade, pois Saul não concebia a idéia de trabalhar para um cliente, ser brifado com temas que não lhe interessavam, e ilustrar a idéia de outra pessoa. Independentemente da definição, Steinberg assume com veemência o humor, mesmo que muitas vezes melancólico, usado para exprimir  “certas coisas” sem parecer presunçoso, transformando-as em brincadeiras, jogos de palavras ou algum tipo de estranheza.
Ao mesmo tempo, manteve uma postura critica em relação a vários aspectos do mercado de artes, como sua ligação com fama e dinheiro,mesmo após passar a expor em galerias. Manteve um posicionamento próprio, nem sempre favorável em termos comerciais: não gostava, por exemplo, de vender originais, preferindo negociar os direitos de reprodução de seus trabalhos.

Sem título (Mesa), 1968 | © The Saul Steinberg Foundation

Sem título (Mesa), 1968 | © The Saul Steinberg Foundation

 

RIQUEZA DE ASSOCIAÇÕES

E com todas as peculiaridades do trabalho de Steinberg aqui comentadas, a força e qualidade de sua obra se sustenta também no modo como resolveu sua arte: no domínio do desenho e de seus atributos, no fantástico repertório, na produção desenvolvida em ritmo intenso,apresentando sempre riqueza de associações e analogias, com inventividade na observação do cotidiano e nas experimentações gráficas. Não foi o inventor de nenhum dos elementos que caracterizam sua obra: o humor mudo, o desenho a traço sintético, os recursos de ambigüidade, a paródia de estilo, a crônica visual. Mas aglutinou tudo isso de um modo particular para gerar um universo próprio, que passou a ser desenvolvido com extrema originalidade, gerando coisas, ambientes, paisagens, situações e personagens nunca antes vistos. Como, por exemplo, um casal de balões de fala cheios de caligrafia entrelaçados sobre uma cama;uma mulher em uma galeria de arte com vestimentas no estilo do Chrysler Building;  uma guerra envolvendo carimbos de jacarés, índios e águias enquanto carimbos de artistas pintam sem parar;o enorme e iluminado estádio de beisebol e sua complexa estrutura feita de linhas finas; o homenzinho cuja face é uma impressão digital; o som do violoncelo que sai objetualizado do instrumento como uma grande mancha de tinta;gangues de Mickeys com metralhadoras, etc. O artista nunca se acomodou, e ousou mudar seu desenho acompanhando a mudança dos tempos e de si mesmo – afinal, sua obra era uma espécie de autobiografia. Deixou lições para os amantes da arte e também para aqueles interessados em saber como foi o século XX.

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Daniel Bueno (1974) é ilustrador, artista gráfico e quadrinista, formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Recebeu vários prêmios como a Menção Honrosa na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália, 2011) e o Prêmio Jabuti. Em 2007 concluiu sua dissertação de mestrado sobre Saul Steinberg na Universidade de São Paulo. http://www.buenozine.com.br

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