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A Caricatura dos Povos

21/03/2014 por Spacca
charge de Ângelo Agostini no jornal "Vida Fluminense", 1868

charge de Ângelo Agostini no jornal “Vida Fluminense”, 1868

Sempre tive fascínio por histórias com personagens de países e origens diferentes.

Parece que, quando temos um grupo de estrangeiros interagindo, cada personagem atua como um “embaixador” ou representante caricatural de sua cultura, com suas especialidades e defeitos típicos. Uma caricultura…

Talvez esta predileção seja reflexo da minha família materna. São Paulo acolheu muitos imigrantes: meu avô italiano, administrador de fazenda no Oeste paulista, casou-se com uma russa e, dentre meus nove tios, um é espanhol e o outro suíço. Na família da minha esposa tem português, italiano, espanhol, sírio e japonês. Na origem dessa alegre Babel de sotaques e pratos típicos, sempre se insinua o espectro da pobreza e da guerra, motor de todos os êxodos.

Na HQ, a série de Asterix faz dos tipos nacionais seu assunto principal. Além das viagens que os heróis gauleses fazem para as terras vizinhas, encontrando ou enfrentando Bretões (ingleses), Helvéticos (suíços), Godos (alemães), Hispânicos (espanhóis), Normandos, Belgas, Corsos, Gregos e especialmente Romanos. No álbum “Asterix Legionário” temos um regimento com godo, grego, egípcio, bretão, belga e os nossos dois conhecidos gauleses.

asterix legionario

cena de “Asterix Legionário”

Eu poderia fazer uma extensa lista de livros, filmes e quadrinhos que exploram esse nicho. Mas como desejo ir o quanto antes para o foco principal deste artigo, vou citar apenas um filme bastante marcante: “Esses homens maravilhosos e suas máquinas voadoras”, comédia britânica de 1966, influência direta sobre o meu “Santô e os pais da Aviação” – aliás, o personagem francês pilota justamente uma “Demoiselle”.

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cena do filme “Esses Homens Maravilhosos e suas Máquinas Voadoras”, o escroque Terry Thomas e seu fiel assecla, do qual não lembro o nome

ilustração de capa da HQ "Santô"

ilustração de capa da HQ “Santô”

Tudo isto falei – e disse pouco, perto do que poderia – foi para contar sobre um livro que ainda estou lendo: “Análise Espectral da Europa”, do conde Hermann Keyserling. Achei num sebo a edição em espanhol (“Europa, análisis espectral de um continente”, editora Espasa-Calpe, Madri, 1929). Seu livro mais conhecido pode ser baixado da internet (“Diário de Viagem de um Filósofo”, de 1918, abordando a Ásia, o Mediterrâneo e América do Norte).

“Espectral” aqui não tem o mesmo significado de “espectro” que usei no terceiro parágrafo (aparição, fantasma). A análise é espectral porque mostra o “arco-íris” dos povos europeus, como o prisma na experiência de Newton divide a luz solar numa escala cromática de sete cores.

Não é apenas o livro de um filósofo curioso em férias, um “aristocrata olhando o mundo por um monóculo”, como disse um crítico. “Europa” foi escrito no tenso período entre as duas Grandes Guerras, durante a ascensão do Nazismo e do Fascismo italiano que “declarou sagrado o egoísmo nacional”. Portanto, este livro sobre as diferenças nacionais era um estudo sobre a dificuldade de um povo entender o outro, e procurava mostrar a contribuição específica que cada país poderia dar para a construção de uma Europa pacífica. Comenta o psicanalista suíço Carl Jung (nos ensaios reunidos em “Civilização em Transição”) que “Keyserling defende um retorno a uma visão psicológica do mundo, na qual as nações são vistas como funções, como as variadas atividades e expressões de um só, grande e invisível ser humano.”

A seguir, alguns exemplos de como Keyserling via seus vizinhos e sua própria nação germânica:

O INGLÊS

cena de "Asterix entre os Bretões", desenho de Uderzo e texto de Goscinny

cena de “Asterix entre os Bretões”, desenho de Uderzo e texto de Goscinny

O inglês não perde tempo para agir: age instintivamente, infalivelmente, como um “homem-animal” guiado pelos objetivos práticos. só necessita do intelecto para achar o caminho e ganhar tempo.” Não perde tempo pensando, age sem pensar muito. Em questões políticas é tão seguro “quanto um cão de caça no que se refere às perdizes”. Muitos, até as misses mais lindas, têm “cara de cavalo”.

Por outro lado, a vida social inglesa é a mais comedida da Europa, a conversa mais indireta e impessoal: “Umas tantas frases estereotipadas. Infinitivos. Interjeições animadoras. Desculpas. (…) de maneira alguma devem conter algo pessoalmente ofensivo a alguém. (…) Estar em boas relações com os outros é para o inglês mais importante que todo o resto.” Disto resulta que a vida pessoal fica apartada da vida pública, e “cada um pode pensar como quer, Ninguém se atreve a criticar o outro por seu modo de ser. Pode inclusive ser excêntrico”. Porém, “o hábito de guardar a maior distância possível dos outros degenera involuntariamente na distância perante si mesmo”.

Exemplo de inglês (polido, como naquela escola metida do Harry Potter) falando do tempo:

- “I think I may say without fear of contradiction – at least it seems to me so and I should not wish for anything to hurt anybody’s feelings – that the weather of today may perhaps be safety called not really bad, that would perhaps be saying too much, but somewhat less satisfactory than the weather of yesterday. Don’t you think so too?” (Penso que eu poderia dizer, sem medo de contradição – pelo menos é o que me parece, e eu não desejaria por nada ferir o sentimento de alguém – que o tempo, hoje, talvez possa com segurança ser chamado de não verdadeiramente ruim, o que seria talvez demasiado afirmar, porém, de algum modo, menos satisfatório que o tempo de ontem. Não lhe parece o mesmo?).

O FRANCÊS

desenho de Pat Mallet

desenho de Pat Mallet

“A França é, em todos os sentidos, essencialmente natureza cultivada, que é justamente o que constitui o jardim.” (…) “A maestria nas artes culinárias, o embelezamento da mulher por meio da moda, a arte da vida social, a linguagem bem cuidada, o cultivo do amor, o imperativo da medida em tudo e a consideração da vaidade alheia, não são senão diversas manifestações de jardinismo”. O francês, como idioma, é uma língua tão clara e transmissível, que “até um francês tonto parece mais inteligente do que é.”

Usando uma fórmula junguiana, Keyserling classifica o francês de “extrovertido intelectual e introvertido emocional”. Traduzindo, isto quer dizer que, apesar de sua linguagem clara e lógica, “sua consciência é mais emocional que intelectual e, como tal, se excita com facilidade e violentamente… (…) Só é possível discutir com um francês compartilhando com ele sua convicção fundamental. (…) É incapaz de neutralidade. (…) Possui a linguagem mais diferenciada do nosso continente e tem extraordinários dotes lógicos. Porém, o fundo inconsciente do seu espírito se acha em um estado de preconceito igualmente extraordinário.

Este amor à forma, à perfeição estável, à beleza racional, faz do francês “o povo mais conservador da Europa”. Por mais revoluções que faça, é o que menos se modifica. “Para ele regem em todos os sentidos o equilíbrio existente, os costumes existentes, o Direito existente, as fronteiras existentes. Toda modificação é perigosa para sua substância… (…) …sempre viu seu adversário como inimigo da civilização… (…) Como um jardim, a França é um lugar fechado.”

O ESPANHOL

quadrinho de "Asterix na Hispânia"

quadrinho de “Asterix na Hispânia”

“Quem da França atravessa os Pirineus, passa do jardim ao deserto. (…) Todo morador do deserto é por natureza quixotesco. Quer dizer, sua vida é a imposição do mínimo em sua pequenez obstinada, e portanto, ridícula, frente à imensidão cósmica. (…) Como todo homem que só confia em si mesmo, o espanhol não tem nem pede compaixão. (…) nada foi tão popular na Espanha como a Inquisição; todo movimento de justiça acaba ali inquisitorialmente.”

“O habitante do deserto é duro e ao mesmo tempo fantástico. Porém, antes de tudo tem ânsia de vida, pois o deserto morto grita por vida. Só que este sentimento de vida é totalmente realista. Não sonha com nenhuma alma etérea, sabe que é de carne e sangue. (…) Assim os melhores Cristos espanhóis representam o Salvador agonizando. Junto com a vida afirma o espanhol a morte, junto com a vida ama o sangue, seu símbolo mais imediato. (…) Todo espanhol é ao mesmo tempo dom Quixote e Sancho Pança. Irrealismo extremo e realismo extremo são os dois polos em que se movem sempre sua vida e seu sentimento. (…) Do ponto de vista alemão, Sancho Pança, mais que um aldeão, é um irônico.”

O ALEMÃO

desenho de Wilhelm Busch

desenho de Wilhelm Busch

Seguindo a tipologia de Jung, Keyserling diz que o alemão é um “pensador introvertido”: por dentro, um poeta, um idealista; por fora, organizado e eficaz como um funcionário do correio.

“O alemão oferece o espetáculo incrível em que cada qual é uma mônada (unidade) sem janelas e a totalidade funciona como uma máquina. (…) O que o caracteriza é a necessidade de segurança exterior própria do introvertido, cuja verdadeira vida se desenvolve no mundo interior.” E ainda: “o alemão tem mais memória que os demais e mais fantasia”, mas na vida social tudo deve funcionar “tão natural e rapidamente como o correio, e, caso se queira personalizar, com o guarda que controla o tráfego num cruzamento.” Daí vêm tanto o Romantismo, como o famoso controle de qualidade alemão.

Assim como aceita a autoridade, o alemão valoriza os professores: “Os alemães não são de forma alguma o povo mais inteligente da Europa; longe disso, seu modelo típico é o camponês sentimental. Mas para nenhum povo da terra significa tanto o intelectual quanto o alemão.” A grande quantidade de filósofos não garante a qualidade: “seguramente a Alemanha produz mais filósofos ruins do que qualquer outro país.”

O experimentador ideal: “todo mundo na Alemanha experimenta de alguma maneira (a Reforma, o Marxismo). No fundo, lhe interessa mais o experimento em si do que o resultado prático. (…) Nenhum laboratório é um lugar agradável.” O perigo do nacional-socialismo emergente: “Nenhum outro povo se deixa conduzir tão sem crítica como ele.”

Mas, por outro lado, é na introversão que florescem os talentos filosóficos e artísticos: “desde sempre, o alemão que se sobressai tem preferido emigrar (…) O alemão de gênio sempre parecerá anti-alemão.”

O ITALIANO

cena de "Amarcord", de Fellini

cena de “Amarcord”, de Fellini

Toda casa italiana é uma ilha: “Em toda parte encontramos o isolamento incomparável da casa. Até o hóspede sente que vive nela como uma ostra (…) A Itália é hoje o país europeu em que mais descaradamente dominam as mães e as sogras. Só ali, como na China, as mulheres jovens têm pressa de se tornar sessentonas, para governar por sua vez.” (…) Quem se casa em uma família italiana, se casa, por assim dizer, com todos os seus membros.”

“Falta aos italianos a necessidade de solidão exterior. Todos eles, como os antigos gregos, nasceram para o mercado.”

amarcord-poster

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SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D. João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens.

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